quinta-feira, setembro 03, 2009
quarta-feira, setembro 02, 2009
Há três anos atrás, a inconsciência e generosidade de dois amigos - o compositor e produtor Jorge Fernando e a fadista Ana Moura – fizeram com que me tivessem pedido uma letra para um fado, a incluir no disco da cantora. Ora como se sabe, quanto mais conhecemos e amamos o nosso objecto, mais difícil é de escrever ou descrevê-lo. No caso, a voz da Ana e um género musical que me entra pela alma dentro tornou a tarefa colossal. O que deveria ter demorado alguns dias durou meses. Queria dizer qualquer coisa de novo, que fugisse aos clichés recorrentes no género, como a perda ou, sobretudo, a saudade. As palavras, como sempre, não me serviam nem me chegavam. O fado é outra das artes ditas no indizível e o que escrevia parecia-me apenas atrapalhar esse milagre. Resolvi enfim escrever exactamente sobre essa impossibilidade linda por que estava a passar. E vários suores frios e horas de vigília depois apresentei o que seria o Mapa do Coração aos meus optimistas amigos. A letra foi aprovada e incluída em Para Além da Saudade. Tinha conseguido! Uma letra de fado que evita a palavra saudade ou a perífrase em volta dela.
Quando me pediram uma crónica para este número voltei ao disco da Ana, que já não ouvia há algum tempo. E quando chegou o fado em que colaborei, os versos de abertura apontaram-me um dedo irónico e invisível: «Não há vocábulo maior/ Nem força do universo/ P’ra traduzir esse verso/ Que confunde amor e dor». Pobre idiota: tinha acabado de descrever a saudade.
Essa palavra saudade. Ninguém a quer mas nós, portugueses, nascemos com ela. Sempre desconfiei de positivismos mas sobre este assunto sou particularmente feroz: é atavismo nacional e mais nada. Não há ciência que o possa explicar. A parte bonita – e ao mesmo tempo triste – é que espalhámos a saudade como uma pandemia. E no entanto não a conseguimos traduzir, a não ser no momento em que a sentimos. De nada valem os esforços para lhe arranjar étimos distantes: a teoria mais aceite é que provenha do latim solitas, solitatis (para solidão) e que tenha sofrido influência dos vocábulos latinos para ‘saúde’ ou ‘saudar’. Pouco importa: é objectivamente intraduzível. Há cinco anos atrás uma empresa de tradução britânica, a Today Translations, elaborou uma lista das mais difíceis palavras de traduzir. ‘Saudade’ ficou em sétimo lugar. A concorrência, há que dizê-lo, era de peso: em primeiro lugar ficou a expressão congolesa ‘ilunga’, que quer dizer mais ou menos (espero que tenham tempo para o que se segue) «pessoa que está disposta a perdoar maus tratos pela primeira, pela segunda mas nunca pela terceira vez». Justo vencedor. Outra difícil era a polaca ‘radioukacz’: «alguém que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da Cortina de Ferro». Mais perto de nós, em todos os sentidos, está outra palavra intraduzível, a árabe ‘altaham’, que significa um tipo de profunda tristeza. E depois vem a saudade: em sétimo lugar, sim – mas a única cujo significado não é consensual.
Mas não é só a dificuldade de tradução ou descrição que torna difícil falar de saudade sem apelar a artes poéticas ou, no pior dos casos, ao lugar comum. É o anacronismo do próprio sentimento que a palavra evoca. Saudade, pensava eu, já não pertence a este tempo de comunicações rápidas, práticas mas impessoais. Faz sentido nos momentos mais solitários ou em utilizações estéticas mas não se fala disso no dia a dia com o significado que merece. A saudade, neste espírito do tempo em que imperam emails, redes sociais e sms escritos em estranho dialecto, corre o risco de extinção. As gerações mais novas não têm tempo para sentir saudades, quando a distância pode ser vencida através de um computador e uma web cam. Como é hábito, não tenho razão.
A saudade existe, e está viva nos novos portugueses. Encontra-se nos lugares mais improváveis, mas é a mesma. Talvez apareça noutra forma, em versão 2.0, mas está lá e é fácil prová-lo. Tome-se o caso da mais popular rede social da Web, o Facebook. Mais de 124 milhões de almas comunicam entre si todos os dias através desta ferramenta. É um óptimo lugar para se reencontrar amizades que se julgavam perdidas, ou despertar paixões que se julgavam controladas. De certo modo, apesar de não ser a vida, é um lugar perigoso porque nos pode devolver o passado de uma forma violenta e inoportuna. Um amigo pode ter aquela fotografia de 1979 que nós já não queríamos ver e expô-la para risota da comunidade; ou através de um rosto entrevisto num inocente registo de uma festa de liceu, mudar toda uma vida pelo simples poder de uma lembrança.
Pois é aqui que a saudade também vive. Os utilizadores não-portugueses do Facebook têm comentários típicos às memórias que lhes são apresentadas: «Lembro-me bem desse dia: que grande bebedeira» ou outras constatações objectivas são o limite a que se atrevem. Os portugueses não: vêem um lugar, uma pessoa, uma canção e a resposta é imediata: «que saudades!». Pode ser uma saudade ligeira, passageira – mas é saudade, exactamente aquela que ficou no sétimo lugar das palavras intraduzíveis. Agora mesmo li no perfil de uma rapariga portuguesa e utilizadora desta rede o seguinte:«A melhor definição da palavra ‘saudade’ está nesta letra de Chico Buarque. Arrepiante…». Segue-se o YouTube da canção Pedaço de Mim. Acho que por aqui estamos conversados.
Sentir saudade não é um privilégio nem exclusivo nacional. Nós apenas nascemos assim. Dante, n’A Divina Comédia, já colocava os amantes condenados no Inferno a falarem da saudade:«Nessun maggior dolore/che ricordarse del tempo felice/ne la miséria(..)». Em Portugal, Bernardim Ribeiro escreve o mesmo, de forma ainda mais bela, no Menina e Moça :« (…) a tanta tristeza cheguei, que mais me pesava do bem que tive que do mal que tinha». Isto para não falar de Camões ou Pascoaes. O que eu acho é que se estivessem vivos provavelmente teriam hoje um perfil aberto no Facebook.
(crónica publicada em Agosto no suplemento «Nós», do jornal 'i')
terça-feira, setembro 01, 2009

Era só o que faltava. Estou a falar a sério.
*citação de W.C.Fields, herói pessoal e homem que sofreu os horrores da Proibição, chegando a alimentar-se «apenas de comida e água».
quarta-feira, agosto 26, 2009
Ainda em semi-regresso à realidade, deparo com este convite que o Ricardo me fez. Porque quero prolongar a ociosidade até aos limites do improvável (e de passagem maçar os meus leitores), eis então uma lista de *cóf,cóf* 15 filmes que nunca esquecerei (por várias razões, não necessáriamente de exigência estética) pensados num intervalo de tempo de 15 minutos. Juro. Só assim se compreenderá as centenas que ficaram por dizer. Assim, e sem ordem em particular:
The Searchers, John Ford
The Quiet Man, John Ford
How Green Was My Valley, John Ford (é mesmo assim, 3 Fords fora os outros, desculpem lá)
A Palavra, Carl Th. Dreyer
Bringing Up Baby, Howard Hawks
Annie Hall, Woody Allen
In The Mood For Love, Won Kar-Wai
Laura, Otto Preminger
Casablanca, Michael Curtiz
Million Dollar Baby, Clint Eastwood
Some Came Running, Vincent Minnelli
Gigi, Vincent Minnelli
O Leopardo, Luchino Visconti
L'homme qui aimait les femmes, François Truffaut
Apocalypse Now, Francis Ford Coppola
One From The Heart, Francis Ford Coppola
Taxi Driver, Martin Scorsese
La femme d'à cotê, François Truffaut
A comédia de Deus, João César Monteiro
Citizen Kane, Orson Welles
A Night At The Opera, Sam Wood (Marx Brothers)
Swingtime, George Stevens
The Draughtman's Contract, Peter Greenaway
Magnolia, P.T.Anderson
...e alguém me pare. Obrigado.
Quem não consumir ávidamente a música deste homem merece as gripes de todas as letras do alfabeto.
quinta-feira, julho 30, 2009
Até já e boas férias.
domingo, julho 26, 2009
quinta-feira, julho 23, 2009
Por desleixo ou procrastinação esqueço-me por vezes de mencionar outros que leio e gosto, o que me ajuda nos dias. Hoje é mais um passo para a redenção. Assim:
1- Mais dificil do que escrever para crianças é escrever sobre crianças - principalmente se se inclui a nossa própria descendência. O abismo da gracinha e do «tão querido, não é?» está mesmo ali ao lado. Aqui, a Inês Teotónio Pereira evita os perigos de uma forma engraçada, simples e brilhante. e deixa sabedoria.
2- Um homem não é uma ilha, é verdade. Mas gosto de gostar dos poucos que concordam comigo. Se nisso entra a admiração, melhor. Neste caso, sei que tenho um correligionário no que respeita ao esplendor capilar de Jennifer Aniston: é o Henrique Raposo, cuja única nódoa no seu imaculado blogue são os elogios imerecidos a este. Mesmo assim, um obrigado sincero.
segunda-feira, julho 20, 2009
Deploro todos os que consideram que a televisão deve «educar» ou «apresentar exemplos». Parece-me que é pedir muito de um electrodoméstico e nessa perspectiva considero as associações de telespectadores uma das inutilidades mais maçadoras no planeta.
O que existe é a possibilidade de aprender, de ouvir contar boas histórias. É o que acontece num programa da RTP2 com o título Vida Intima das Obras-Primas. O que se pretende é contar histórias e segredos a partir de uma determinada obra e o seu autor. O resultado é sempre fascinante e muitas vezes melhor do que a obra em análise.
A emissão da semana passada foi dedicada à Ressurreição, de Piero della Francesca (que podem ver aqui), quadro que adoro e que tive o prazer de observar ao vivo. Falou-se da vida do pintor, da sua extraordinária modernidade – foi o primeiro a introduzir a perspectiva perfeita, através de complicadas fórmulas matemáticas), dos segredos por detrás dos modelos, dos pormenores, dos filisteus que no século XVIII decidiram caiar por cima do fresco, dos quadros que inspirou, da sua entrada até na cultura pop (a célebre cópia feita por um artista de Manchester em que os guardas da pintura eram substituídos por jogadores do United – com destaque para Eric Cantona, que era representado como o Cristo ressuscitado…)
Mas houve uma estória em particular que me interessou, por ter criado uma suspension of disbelief em relação à Humanidade. Passou-se durante a II Guerra Mundial; os aliados tinham invadido Itália e uma divisão inglesa estava encarregue de ocupar Florença e bombardear San Sepolcro – o lugar onde está, no Palazzo Comunale, o fresco de della Francesca. A comandar a divisão de artilharia destinada a bombardear as posições alemãs estava um jovem oficial chamado Anthony Clark - «a bit of a dandy», lembrou no programa um seu camarada de armas. «Como estávamos de uniforme e não se podia mexer na farda, o Tony começou a fumar de boquilha para ser diferente. Deve ter sido o único oficial do exército que fumou de boquilha em toda a guerra». Acontece que Clark era também um ávido leitor. E o nome de San Sepolcro lembrava-o de qualquer coisa que tinha lido. Até que veio a epifania: San Sepolcro tinha sido referido num livro de viagens de Aldous Huxley como o lugar que continha «a maior pintura do mundo». E foi assim que Clark deu ordem para cessar fogo – para salvar uma pintura que nunca tinha visto mas que tinha lido e acreditava. Escusado será dizer que os alemães agradeceram e rasparam-se.
Pela arte, salvaram-se vidas; pela palavra e a crença num autor salvou-se a arte. E, nem que fosse por um mínimo momento, graças a Clark, tivemos a iusão de que a civilização sobrevirá à barbárie.
quinta-feira, julho 09, 2009
terça-feira, julho 07, 2009
segunda-feira, julho 06, 2009
Batukas, sweet sweet child: é verdade que eu não sou muito de correntes, mas vindo de ti eu teria gosto. Acontece que não tenho e abomino i-pod's, i-tunes, mp3 players e coisas assim, o que torna impossível a minha resposta. Desculpa-me, linda. E enquanto fico à espera da próxima vou continuando a pintar os meus bisontes aqui em Altamira.