segunda-feira, janeiro 20, 2014
Subsídio para uma «cultura de direita».
Numa altura em que se fazem doutoramentos sobre O Independente ou a revista Kapa (publicações em que participei activamente) esta é talvez a análise mais lúcida sobre um fenómeno editorial quase geracional e certamente mais estético do que de combate ideológico (no caso do Caderno 3 do Indy ou da Kapa), impossível de dissociar do zeitgeist sociocultural mas que ao mesmo tempo o venceu de forma improvável.
quarta-feira, janeiro 08, 2014
Blue Monday
Blue Monday, dos New Order, é uma dessas canções que sempre me devolvem o que gostaria de ser e algum do tempo em que o tentei. Não é uma questão de nostalgia: danço-a hoje como a dançava quando foi lançada, em 1983 – com a diferença de que tenho a profunda alegria de não estar em 1983. Mas é fácil saborear aquela batida irresistível, a letra triste e resignada a contrastar com a aparente contradição da vontade de dançar, símbolo do caminho musical que a banda queria tomar.
Este documentário é maravilhoso e perigoso. Tal como quando nos é revelado um truque de ilusionismo, fica sempre um levíssimo travo de desapontamento. Mas a magia fica intacta, senão mesmo reforçada. O que aconteceu, aconteceu e foi uma sorte e lindo para quem lá esteve ou abriu as portas da vida ao que estava a acontecer. E depois, há esta frase do genial designer gráfico Peter Saville que tudo define:«Ninguém estava ali para fazer dinheiro. Estávamos para fazer o que queríamos». Não vejo maior privilégio.
[para ver o documentário: http://www.svtplay.se/video/1681962/del-2-av-6-engelsk-text-english-subtitles ]
segunda-feira, dezembro 30, 2013
Notas de 2013 (visto por dentro)
quarta-feira, novembro 27, 2013
Note to self by another
«Em breve esquecerás todas as coisas; em breve todas as coisas te esquecerão.»
Marcus Aurelius, Meditações
Lamento de Don Juan no Inferno
Demasiado amor, demasiadas mulheres, demasiado belas. Tudo demasiado tarde.
Vista de um café
quarta-feira, outubro 16, 2013
O factor Lupicínio
http://www.youtube.com/watch?v=MByVS9mhvzU
Escapulário pessoal para uso quotidiano, 2
terça-feira, outubro 08, 2013
Na véspera de mais um aniversário, razões que importam.
E quando nos tiram as palavras, o nosso silêncio que nunca saberemos gritar? É um consolo.
E a verdade por si mesma não tem nenhum valor, é como uma moeda num país onde não é corrente.
Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'
sexta-feira, setembro 20, 2013
Trabalhos de casa, 1
(Letra: Nuno Miguel Guedes; Música: Sidónio Pereira)
1.
Uma cidade cinzenta
Um rio que enjeita o mar
Uma raiva sonolenta
Uma saudade de amar
A sombra da felicidade
O que ficou por dizer
O fogo de uma vontade
Esta voz que quer morrer.
2.
Gestos que já não conheço
As mãos que tremem de frio
Este amor em que tropeço
A espuma atrás de um navio
Estas memórias que invento
E que levo a todo o lado
São o vulto do lamento
que mora neste meu fado.
[gravado em 2013 por Nádia Leirião e incluído em Discos do Povo #13)
segunda-feira, julho 22, 2013
Reflexos de uma crise secreta
domingo, julho 14, 2013
Words and music: notas sobre canções,1
A razão de ser desta modesta rubriquinha é lembrar aos mais distraídos que todas as canções são feitas de música e palavras. As melhores, de resto, conseguem atingir esse estado supremo em que uma não se consegue dissociar da outra. Aquela música não suporta outras palavras e vice-versa. Não tem necessariamente a ver com harmonias complexas ou poesias arrevesadas: tem apenas a ver com a perfeição de uma canção, e que é possível apreciar sob um telescópio objectivo mesmo quando o nosso gosto nos impede. Isto é válido para Leonard Cohen, Cole Porter ou Ricardo Landum (a sério: podemos não gostar, podemos assobiar para o ar - mas a verdade é que a letra de Sai da Minha Vida, por mais pirosa que seja (e é) é perfeita para a melodia em que encaixa). Como as canções são meretrizes e a nossa vida um musical, agradeçam sempre se encontrarem o amor da vossa vida sob um Feelings ou Depois de Ti Mais Nada. A nossa banda sonora pessoal nem sempre bate com os afectos. E ainda bem.
Ao que interessa: vejo que desde sempre as palavras das canções são subestimadas e mais ainda se forem canções funcionais: para dançar, para combater, para chorar. Quem isto vos diz, crianças, é o tipo que perdeu namoradas atrás de namoradas por achar que tinha de explicar o My Girl dos Madness verso a verso, e provar com isso que aquela era a melhor descrição de um quotidiano relacionamento homem/mulher feito na década de 80:"Why can't she see", lamenta-se o pobre diabo injustiçado, "she's lovely to me/ But I like to stay in and watch tv / on my own every now and then?". A letra continua brilhante, eu apenas um pouco menos chato.
O leve desprezo que o povo tem em relação ao que é dito nas canções foi-me dramaticamente comprovado há muitos anos atrás, quando insuspeitos marialvas cantaram convictamente mas sem entenderem o Glad To Be Gay da Tom Robinson Band.
O mesmo desconhecimento acontece nas celebrações eufóricas cada vez que Get Lucky é chamado à pista. Como canção, nada a dizer: uma avalancha dançável, com o convite irrecusável de Nile Rodgers e os Daft Punk a darem um pontapé na inteligentsia, que torce o nariz ao «facilitismo comercial». Até aqui, perfeito.
Mas a celebração colectiva do refrão é a coisa mais triste desde que se achou que o Blue Monday era só outra canção para dançar.
I'm up all night to get some
She's up all night for good fun
I'm up all night to get lucky
Ok. Hedonismo, carpe diem, o caraças. Mas ó gerações, ouvi o Tio Guedes: se realmente praticam o que celebram e ficam acordados toda a noite to get lucky,isso só pode significar três coisas: ou são losers, ou estão sob drogas ou provavelmente ambos. Ide para casa. Esse «L» que as meninas vos mostram não quer dizer «lovers». Celebrai a vossa mediocridade, mas no sossego do lar. Ou assumam e dancem Beck, cantando aos gritos «soy un perdedor».
quarta-feira, junho 26, 2013
Late Night Bar Philosophers: the return.
sexta-feira, junho 21, 2013
«Modern life is rubbish»
Regressar onde se foi feliz
quinta-feira, setembro 09, 2010

Jackson Pollock,Number One, 1948
Digression On Number 1,1948
I am ill today but I am not
too ill. I am not ill at all.
It is a perfect day, warm
for winter, cold for fall.
A fine day for seeing. I see
ceramics, during lunch hour, by
Mir6, and I see the sea by Leger;
light, complicated Metzingers
and a rude awakening by Brauner,
a little table by Picasso, pink.
I am tired today but I am not
too tired. I am not tired at all.
There is the Pollock, white, harm
will not fall, his perfect hand
and the many short voyages. They'll
never fence the silver range.
Stars are out and there is sea
enough beneath the glistening earth
to bear me toward the future
which is not so dark. I see.
Frank O'Hara
*Hoje no Facebook alguém me mostrou um excerto de um episódio de Mad Men, em que Don Draper lê um poema de Frank O'Hara. Deste poeta lembrava-me deste Digression...., a partir do quadro que acima se vê. Uma coisa levou à outra. Oh Facebook, maldito sejas, quem quer «amigos» que não são reais blablablabla....Bullshit.
quarta-feira, setembro 08, 2010
So rock 'n' roll, so corporate suit
So damn ugly, so damn cute
So well-trained, so animal
So need your love, so fuck you all
I'm not scared of dying, I just don't want to
If I stop lying, I'll just disappoint you
Há um grande letrista menosprezado no mundo pop: Robbie Williams. Em breve explicarei tudo, num blogue perto de si.E não vai ser aqui.
quinta-feira, agosto 26, 2010
My mother, who hates thunder storms,
Holds up each summer day and shakes
It out suspiciously, lest swarms
Of grape-dark clouds are lurking there;
But when the August weather breaks
And rains begin, and brittle frost
Sharpens the bird-abandoned air,
Her worried summer look is lost,
And I her son, though summer-born
And summer-loving, none the less
Am easier when the leaves are gone
Too often summer days appear
Emblems of perfect happiness
I can't confront: I must await
A time less bold, less rich, less clear:
An autumn more appropriate.
Philip Larkin
domingo, agosto 22, 2010
Shaken and Stirred: a tribute to Dorothy Parker
Dorothy Parker, crítica,poeta, escritora, wit extraordinaire. Nascida a 22 de Agosto de 1893.
segunda-feira, agosto 16, 2010
quarta-feira, agosto 11, 2010
«Aware of every discord, of every calamity in the nature of man himself, [the artist] can do nothing to warn his friends, to point, to cry out on time and to try to save them. It would be useless. For they are the deliberate factors of their own unhappiness. All the artist can say as an imperative is: 'Reflect and weep'.
Lawrence Durell, Balthazar (vol.II do Quarteto de Alexandria)
domingo, agosto 01, 2010
Que guerra tão cruel trago comigo,
Comigo de quem sempre ando ferido,
Pois para nunca ser de mim vencido,
A mim comigo mesmo me persigo.
Vou contra mim se não me contradigo,
Se não me ofendo, sinto-me ofendido,
E como sou de mim tão combatido,
De mim mesmo me fiz fero inimigo.
Vejo-me contra Deus adversário,
Com cuja disciplina só me instruo,
E assim nunca comigo me conformo.
De mim mesmo me sinto tão contrário,
Que quando me reformo, me destruo
E quando me destruo, me reformo.
Baltasar Estaço
quarta-feira, julho 07, 2010
domingo, julho 04, 2010
quarta-feira, junho 30, 2010
quarta-feira, junho 23, 2010
Sing It For England - World Cup 2010 Football Song
«Will it be a 4-4-2? (...) Only thing I'll ever do for sure/ is sing it for England!»
quinta-feira, junho 17, 2010
segunda-feira, junho 14, 2010
Baddiel, Skinner & The Lightning Seeds - Three Lions '96
Onde se ouve 'thirty' passa a 'forty-four'
O ritual cumpriu-se.Depois de uma qualificação apenas maculada pela derrota final com a Ucrânia - que ainda suspeito ter sido uma manobra para colocar a Croácia fora da fase final, vingança da Ilha sobre a equipa que a privou do Euro 2008 - os adeptos ingleses tiveram razão para pensar:«É desta». É verdade que pensam o mesmo desde 1966, mas desta vez tudo parecia estar a resultar. Até o próprio seleccionador, improvável mentor de um futebol de ataque que na fase de qualificação alcançou uma invejável média de 3 golos por jogo. Mas este optimismo só tinha um obstáculo: referia-se à selecção inglesa.
Há um estranho destino nos 3 Leões que aparenta ser uma maldição. Quando a equipa está a jogar bem, derrotas nas grandes penalidades (Alemanha, Portugal). Quando está a jogar mal, um erro trágico qualquer, daqueles só possíveis de assistir em programas de «apanhados» deitam tudo abaixo. No Inglaterra - EUA, o erro chamou-se Robert Green, neste momento o inglês mais popular desde Guy Hawkes.
É verdade que o país que teve Gordon Banks ou Peter Shilton teve também David Seaman ou tem o assustador David 'Calamity' James. Robert Green é o produto mais recente de uma escola em que o lugar de guarda-redes parece ser destinado ao desgraçado que perde uma aposta. Esta selecção inglesa não é excepção, mas a colheita é particularmente confrangedora: para além de Green e James também Joe Hart ameaça criar momentos hilariantes.
O jogo foi estranho, com a Inglaterra depois do golo (bonito, diga-se) a convidar os rapazes com equipamento de pólo a tentarem acertar na sua baliza. O golo adivinhava-se; mas como estamos a falar de Inglaterra tinha de chegar em forma de hara-kiri humorístico. No banco, o grande Beckham, impecável no seu three-piece suit, trespassava Green com o olhar. No pub onde eu estava os expatriados britânicos passaram em questão de segundos pelas fases de Incompreensão, Raiva (para Green, em cântico: 'Who are ya? Who are ya? You're shit, that's who are ya!') e Aceitação («A tie's a win, mate», dizia-me um ao intervalo.)
Na segunda parte as coisas melhoraram, mas todas as apostas de Capello falharam, com particular destaque para Carragher. O povo ao meu lado, entretanto, já fazia chamadas imaginárias para a BP, pedindo-lhes que fizessem mais um furinho. A selecção americana continuava no seu desvario, correndo e de uma maneira genérica existindo, mas pouco mais. Enfim, valha-nos o humor.
Mesmo assim, e porque este tipo de episódios caricatos nos jogos já tem linhagem nobre no historial da selecção inglesa, ainda acredito. Como se diz no spot televisivo do The Sun, 'Maybe. Just maybe'. Senão paciência: tudo na mesma, mais uns pints e o Rogério talvez amealhe mais umas libras.
segunda-feira, junho 07, 2010
Orquestra local erra feio o hino nacional brasileiro em zimbabue
terça-feira, junho 01, 2010
sexta-feira, abril 02, 2010
domingo, março 28, 2010
sábado, março 27, 2010
«26 de Agosto [de 1941], terça-feira à tarde
Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.
Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Esses procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondam nas mãos, penso que essas pessoas procuram Deus dentro de si.»
Diário, Etty Hillesum (Assírio&Alvim, trad. do neerlandês de Maria Leonor Raven-Gomes)
Já há muito tempo que deixava que os meus dias depositassem «pedras e cascalho» no meu «poço». Nem Deus nem sequer a suspeita do eco de mim eu já ouvia como gostaria. Hoje, longe do mundo e perto de outros, ouvi mais sobre esta mulher e a sua extraordinária história. Aprendi como é possível uma teologia da falibilidade, que nasce e floresce no meio do Mal Absoluto, na noite mais negra que o século passado (que a Humanidade?) conheceu. Como é possível aceitar a Cruz e um Deus que precisa de ser ajudado por nós porque muitas vezes é um Deus impotente perante os homens.
A religião e a arte são coisas práticas, que só fazem sentido se vividas no quotidiano - hoje, agora, em todos os gestos. Antes, suplicava com o personagem de Greene:«Deus, sei que te abandonei; não me abandones tu!».Agora, com mais esta voz, há forças para dizer «Deus, deixa-me ajudar-Te, preservando o que há de Ti em mim, aconteça o que acontecer».
Algumas pedras moveram-se, já se nota um fundo no poço.
terça-feira, março 23, 2010
XV.
Toda a pessoa que ama empalidece ao ver quem ama.
(mais beleza e completa aqui)
quinta-feira, março 11, 2010
terça-feira, março 09, 2010
Às vezes o mundo que existe nas palavras morre de excesso de vida. Gasta-se pelo uso e pelo tempo, como o ferro e o amor do sermão de António Vieira. Fica um esqueleto oco, apenas funcional; e nalguns casos – raros – um eco, que ao ressoar através dos dias nos devolve o muito que a palavra significou e nunca conseguiu dizer.
«Nostalgia» é uma dessas palavras que lentamente fomos esvaziando, numa agonia cada vez mais dolorosa e irreversível. De tão utilizada já de nada nos serve. A sua omnipresença é a sua certidão de óbito: vemo-la desperdiçada nas nossas vidas, distante do lugar etéreo que deveria ocupar. Não é como a saudade, com a qual muita gente tende a confundir. A nostalgia é um lugar idealizado, sem dor nem lados sombrios. É a Disneylândia da memória, onde todos queremos voltar. Ao contrário da saudade, que inapelavelmente traz com ela o mais o pesado dos fardos: o ser verdade.
Desconfio francamente de quem hoje se diz um nostálgico – e isto inclui-me, que por vezes não resisto a esse território do «era uma vez», a tentadora «land of lost content» de Housman onde, para nosso descanso e preguiça, nunca poderemos regressar. E é tão fácil: basta uma fotografia de um dia em que fomos felizes ou jovens ou ambos; uma canção que nos atira para um amor antigo, uma casa bem conservada, uma paisagem que nos é familiar. E é inevitável, ao que parece: este nostálgico renitente que vos escreve vê-se de repente no meio de jantares de colegas da escola primária com outros nostálgicos ainda mais improváveis. Ementa obrigatória e sugerida pelos comensais: doces memórias, histórias de graças e alegrias, que deixam de fora as raivas, brigas e tristezas de ocasião essenciais para uma infância feliz.
O problema é que mesmo quem consiga evitar todas estas armadilhas naturais – e assim de repente não conheço nenhum individuo criado sob uma civilização ocidental que o consiga – ainda leva com outra terrível maquinação do nosso tempo – a nostalgia induzida e, por consequência, banalizada. Hoje mede-se por décadas: a «nostalgia dos anos 80», por exemplo, já fez que eu criasse anti-corpos contra a minha própria adolescência e juventude. São memórias impostas a quem tudo descobria nessa altura; com a diferença de que agora os «nostálgicos» são potenciais consumidores com um poder de compra mais ou menos confortável que lhes permite comprar recordações. E depois há os nostálgicos de um tempo que não viveram. A esses devemos, em regra, a modernidade.
O problema dos dias, dos meus dias, é este: não me importo de ter saudades mas Deus me livre da nostalgia. É urgente desaprendê-la para voltarmos a senti-la outra vez.
(publicado originalmente aqui)
segunda-feira, março 08, 2010
A não perder estes encontros na Capela do Rato. E já que foram parar ao sítio do Secretariado Nacional da Pastoral de Cultura, aproveitem e passeiem o olhar pelos magníficos textos. Não é preciso partilhar uma confissão religiosa para reconhecer beleza e inteligência.
sábado, fevereiro 20, 2010
(com nome e tudo. Magnífico trabalho desta rapaziada)
sábado, fevereiro 13, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
segunda-feira, janeiro 25, 2010
quinta-feira, janeiro 21, 2010
segunda-feira, janeiro 18, 2010
Albergue Espanhol;Professor José Cid ; Da Última Fila; Córtex Frontal. Tudo excelentes razões para acabar com este blogue, pela pouca falta que faz.
«Brigitte fazia parte dessa curiosa categoria de mulheres precisas. Sobre cada assunto ela era incapaz de emitir a mínima opinião aleatória. O mesmo aplicava-se à sua beleza: levantava-se cada manhã com a glória a cobrir-lhe o rosto. Perfeitamente segura de si mesma, sentava-se todos os dias na primeira fila, procurando por vezes desestabilizar os professores masculinos, jogando com o seu encanto evidente para fazer desviar as implicações da geopolítica. Quando entrava numa sala os homens sonhavam de imediato e as mulheres detestavam-na por instinto. Era o objecto de todos os fantasmas, o que acabou por maçá-la. Teve então essa inspiração genial para acalmar os ardores: sair com o mais insignificante dos rapazes. Assim, os machos seriam afastados e as raparigas reasseguradas. Markus foi o feliz eleito, sem compreender porque é que subitamente o centro do mundo se interessava por ele. Era como se os Estados Unidos convidassem o Liechenstein para almoçar.»
David Foenkinos, La Délicatesse (trad.NMG)
segunda-feira, janeiro 11, 2010
terça-feira, janeiro 05, 2010
quinta-feira, dezembro 31, 2009
terça-feira, dezembro 29, 2009
segunda-feira, dezembro 28, 2009
Discos 2009 (sem ordem de importância)
Domésticos:
Nem lhe tocava, Samuel Úria
A Mãe, Rodrigo Leão
Boato, JP Simões
Fados de amor e pecado, Ana Sofia Varela
Leva-me aos fados, Ana Moura*
Vida, Jorge Fernando*
Importados
Veckatimest, Grizzly Bear
Begone Dull Care, Junior Boys
Humbug, Arctic Monkeys
Merryweather Post Pavillion, Animal Collective
Solo:Live From San Francisco, McCoy Tyner (jazz)
*declaração de interesses: disco com a participação de quem o seleccionou
terça-feira, dezembro 15, 2009
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Assim que soube da contratação pelo Benfica de um jogador com o improvável nome de Alan Kardec, preparei-me para todas as espécies de trocadilhos intelecto-revisteiros: na mesma frase, «Kardec», «espírito de Natal»,«Jesus», «aparição», «pé-de-galo» abriam caminho a mil e uma possibilidades. Mas nada, oh mesmo nada, me preparou para este título- maravilha.
sábado, dezembro 12, 2009
Quem se der ao estranho trabalho de pesquisar os arquivos deste blogue facilmente encontrará idossincracias do autor: umas mais verdadeiras do que outras, umas mais recorrentes do que outras. Mas há uma paixão; não, um amor, resolvido e sempre novo que atravessa seis anos destas palavras e muitos mais da minha vida. Um minuto que fosse e era mais do que uma vida. Estou a falar de Francis Albert Sinatra.
Hoje Sinatra celebraria o seu 94º aniversário. Eu, que tanto já escrevi, a sério ou em lágrimas sobre ele, que assumo esta dependência com tanto despudor que levou um amigo a dedicar-me publicamente um texto muito melhor sobre ele (obrigado, Pedro), eu que me comovo sem problemas sempre que oiço a sua voz cantar até o mais errado dos repertórios (It's not easy being green, ou o Leaving on a jet plane, do infame segundo álbum com Tom Jobim), eu que ganhei uma garrafa de champanhe em aposta com outros dois conhecidos especialistas do homem ao identificar ao segundo acorde todas as canções do alinhamento durante o seu concerto no Porto; eu sei que tudo isto já deveria estar diluído, que esta nervoseira e urgência de juntar palavras já não deveria fazer sentido, que devia mas é estar caladinho a agradecer tudo o que o homem me ensinou e me incentivou ao som de Only the lonely.
Mas não. Continua esta vontade, esta descoberta. Oscar wilde, na sua frívola profundidade, teve sempre razão; mais ainda quando disse que o amor é a arte da repetição. Aqui, pela repetição responsabilizo-me. Pela arte, duvido. Pelo amor, decerto. Por isso opto por deixar tudo o que gostaria de ter escrito, a descrição e biografia mais certeira e subjectiva e comovente que conheço, feita por Bono em 1994. Nunca irei conseguir dizer o que ele disse,mas estou muito contente por alguém o ter dito.
«This is the conundrum of Frank Sinatra. Left and right brain hardly talking. Boxer and painter, actor and singer, lover and father, bandman and loner. Troubleshooter and troublemaker The champ who would rather show you his scars than his medals. He may be putty in Barbara's hands. But I'm not gonna mess with him, are you?
Ladies and gentlemen, are you ready to welcome a man heavier than the Empire State, more connected than the Twin Towers, as recognizable as the Statue of Liberty, and living proof that God is a Catholic!»
quarta-feira, dezembro 09, 2009
...ou simplesmente preza a inteligência:a prenda ideal.
(estão a dar-nos armas. You know that, don't you? Ok, don't answer that.)
quarta-feira, dezembro 02, 2009
quarta-feira, novembro 25, 2009
terça-feira, novembro 24, 2009
Já não concebo a vida sem a existência de Mad Men. Não é só o que salta à vista - a excelência dos diálogos, os personagens, os cigarros e cocktails galore, os décors extraordinários, a reconstituição de época... É «Don Draper», o amoral com remorsos, a ambição culpada, o infiel defensor da família. É a tensão e o dinamismo das «secretárias», a pedagogia da perda da inocência («Why is it here, when a man takes you to lunch, you're the dessert?»). Mad Men é sobre as cambalhotas éticas que temos de dar todos os dias e a forma como lidamos com elas, colocadas no contexto em que a hipocrisia pode ter bom nome: uma época (finais dos anos 50 - inicio dos anos 60) em que os valores morrem e renascem, à volta de pessoas que vendem o novo e a felicidade. E a utopia, esse lugar que não pode ser, como denuncia o étimo grego. Esse lugar que não pode ser é a vida.
[sobre este e outros assuntos recomendo vivamente este lugar]
quarta-feira, novembro 11, 2009
quinta-feira, novembro 05, 2009
domingo, novembro 01, 2009
Eram os dias de tudo. Eram os dias, as noites que eram as primeiras, tão sábias na ingénua e arrogante velhice da nossa juventude. Ali cabiam todas as descobertas, que partilhávamos com a ansiedade dos pioneiros: os sons, as palavras, os modos. O mundo seria provavelmente nosso mas ninguém dava por isso porque estávamos demasiado ocupados a conquistá-lo.
E tínhamos mestres, e tinhamos rituais que não dispensávamos porque nos faziam caminhar e saber, porque nos alimentavam a inocência que desesperadamente queríamos perder e proclamar essa perda. Eram dias, eram noites em que os mestres, com rosto ou com voz, faziam com que a nossa vida se confundisse com a deles.
Hoje partiu um deles. Cheguei a conhecê-lo, já adulto, sentados numa cabina de rádio enquanto alguém nos fazia uma entrevista e eu pensava «O que estou aqui a fazer? Eu sou ouvinte, eu oiço. Eu oiço-o. Ele fez-me um pouco do que sou.»
Conheci o António Sérgio. Nunca cheguei a agradecer-lhe.
Obrigado Sérgio.
*(título de um programa de rádio da autoria de Miguel Esteves Cardoso, na Rádio Comercial, algures no inicio dos anos 80)
quarta-feira, outubro 28, 2009
segunda-feira, outubro 26, 2009
Why Did I Dream Of You Last Night? by Philip Larkin
Memories strike home, like slaps in the face;
Raised on elbow, I stare at the pale fog
beyond the window.
So many things I had thought forgotten
Return to my mind with stranger pain:
- Like letters that arrive addressed to someone
Who left the house so many years ago.
quinta-feira, outubro 22, 2009
quinta-feira, outubro 15, 2009
«Digamos porque não se chama ao amor amizade. Entre as duas coisas há esta diferença: o amor é uma paixão que tem mais de desejo que de prazer; e a amizade é uma afeição reverente, ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer do que de desejo. O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si.»
A Arte Da Galantaria, D.Francisco de Portugal
(eu gostava de escrever no século XVII)
Dos tempos em que éramos jovens, lembramo-nos bem. Era assim, com a vontade e o cabelo ainda intactos. Desde então várias coisas mudaram - como felizmente o nosso gosto por camisas - mas o que perdura, o que vimos,isso já ninguém nos tira. Um de nós que em cima se pode ver faz anos hoje, mas isso, francamente, é só um pobre pretexto para o que eu realmente queria dizer.
sexta-feira, outubro 09, 2009
segunda-feira, outubro 05, 2009
sábado, outubro 03, 2009

Só posso atribuir à minha profunda estupidez nunca ter ouvido falar de Robert Creeley até que um serendipismo numa livraria me levou até ele. Como é natural fiquei fascinado e indignado pelo meu desconhecimento, o que como se sabe é sintoma de pura vaidade.
Mas se alguém me tivesse dito que existia um poeta que conseguia evocar Pound e ao mesmo tempo ter o empenhamento bóemio da poesia beat, ao mesmo tempo que o desdenhava; que um poeta conseguia passear à vontade no formalismo para depois se esconder em «versos livres»; que no meio de tudo existe uma ponte entre a limpidez de Hardy e a poesia concreta...Nunca teria acreditado. Graças a Deus que me chegou agora, que tenho vida suficiente para poder conversar com ele.
The Mirror
Seeing is believing.
Whatever was thought or said,
these persistent, inexorable deaths
make faith as such absent,
our humanness a question,
a disgust for what we are.
Whatever the hope,
here it is lost.
Because we coveted our difference,
here is the cost.