segunda-feira, janeiro 20, 2014

Subsídio para uma «cultura de direita».

Uma excelente (e por isso mesmo, discutível) análise da existência de uma «cultura de direita», da pós-revolução até hoje, efectuada pelo essencial António Araújo.
Numa altura em que se fazem doutoramentos sobre O Independente ou a revista Kapa (publicações em que participei activamente) esta é talvez a análise mais lúcida sobre um fenómeno editorial quase geracional e certamente mais estético do que de combate ideológico (no caso do Caderno 3 do Indy ou da Kapa), impossível de dissociar do zeitgeist sociocultural mas que ao mesmo tempo o venceu de forma improvável.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Blue Monday

O que nos dão as canções, ou mais importante – o que é que nós lhes damos? Tudo o que temos, o que tivemos, o que queremos ter. Nos casos mais radicais, o que queríamos ser. Algumas canções entregam-nos uma ontologia utópica de nós próprios, que só por sabê-las, cantá-las ou dançá-las, acreditamos que é verdade o que nós pensamos que somos. Pessoalmente sinto tanto essa necessidade que descobri no fundo de mim uma vocação para letrista que me satisfaz mais a mim do que a quem ouve ou canta o que escrevo.

Blue Monday, dos New Order, é uma dessas canções que sempre me devolvem o que gostaria de ser e algum do tempo em que o tentei. Não é uma questão de nostalgia: danço-a hoje como a dançava quando foi lançada, em 1983 – com a diferença de que tenho a profunda alegria de não estar em 1983. Mas é fácil saborear aquela batida irresistível, a letra triste e resignada a contrastar com a aparente contradição da vontade de dançar, símbolo do caminho musical que a banda queria tomar.
Depois, o mito confundido connosco: a tristeza assumida como uma das belas-artes, o imaginar a banda recolhida no estúdio em silêncio e em quase ascese.

Felizmente, existe sempre alguém que nos prova que é mentira. Este pequeno documentário sobre o making of da canção choca os fieis como eu: então os rapazes andavam em noitadas nos clubes de  Manhattan ? Inspiraram-se em Sylvester? A tão inconfundível batida está presente numa canção anterior da Donna Summer? O Bernard Sumner diz que «não é uma canção, é uma máquina que faz dançar»? Mas, mas...O que aconteceu ao meu mundinho lírico e vivido das gabardinas e olhos no chão, da melancolia de papel que vestia sempre que dançava isto?

Este documentário é maravilhoso e perigoso. Tal como quando nos é revelado um  truque de ilusionismo, fica sempre um levíssimo travo de desapontamento. Mas a magia fica intacta, senão mesmo reforçada. O que aconteceu, aconteceu e foi uma sorte e lindo para quem lá esteve ou abriu as portas da vida ao que estava a acontecer. E depois, há esta frase do genial designer gráfico Peter Saville que tudo define:«Ninguém estava ali para fazer dinheiro. Estávamos para fazer o que queríamos». Não vejo maior privilégio.


[para ver o documentário: http://www.svtplay.se/video/1681962/del-2-av-6-engelsk-text-english-subtitles ]

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Notas de 2013 (visto por dentro)



I sing what was lost
And dread what was won
W.B.Yeats


Por um brevíssimo instante, contrariar aquilo em que acredito e a minha natureza: só por isso olhar para trás. Ver as pegadas que marcaram o ano que passou, perceber sem nostalgia as horas boas e más, os caminhos que se perderam, o pouco que se ganhou. Fazer um álbum de recortes precário e biodegradável, só para agradar o espírito da quadra, feito de balanços e fins de ciclos fictícios mas em que queremos acreditar. Deixar de lado a certeza cínica de que o tempo é a mais nefasta criação humana e, já refugiado no abrigo do instante-agora, poder abusar dos sumários dos dias em que combatemos ou gozamos. E perceber: este ano foi igual a todos os outros. Choro, risos, desejos, frustrações, desilusões, dificuldades e até oásis de uma perigosa felicidade.

Dirão: sobretudo dificuldades. Sim, sim. Muitas e de vários géneros, incluindo algumas que poderiam ter sido evitadas ou abreviadas. Outras que permanecem e são comuns a tantos, como a ausência de trabalho e dinheiro. Tempos dificeis e sempre inesperados. Mas não é isso o que acontece a quem tem o desplante de estar vivo? É essa teimosia militante que atravessa os dias, sugando tudo o que encontra pelo caminho e juntando argumentos e forças para discutir a injustiça inevitável que é a morte.

Mesmo assim, preferia ter abdicado das filosofias estóicas e ter tido uma vidinha mais descansada. Não aconteceu. Pelo contrário, muitas vezes fui engolido pelo pior de mim, o que pareceu reforçar de maneira sentida e inexpugnável a minha baixa consideração pela natureza humana, a que por tragédia e sorte pertenço.

Mas depois: no meio do escuro, das dúvidas, do cepticismo seguro, voltar a embater naquilo que nos esforçámos por negar. Dito de outra maneira: sem aviso nem perdão ser incluído nos milagres que persistem em ser reais. Essa a maçada: o mais incrível dos milagres é o facto de existirem, como diria o Padre Brown de Chesterton. E desafiando toda a suave misantropia que adoptei como trincheira, eis que a amizade invadiu e conquistou todas as cidadelas que erigi à custa da tristeza.
Uma invasão doce, inesperada, quotidiana. Amigos novos, que proclamámos nunca mais fazer, riem-se destes preconceitos balofos e atacam a alma e o coração, sem apelo nem agravo. Nem sequer há cerco: há uma marcha sorridente, um apoio incondicional quando caímos feridos de descrença ou melancolia.

Não estou nem nunca estarei preparado para isto. Há muito que encontrava santuário apenas na antiguidade das amizades, que nunca me desiludiram. Mas ser receptor destes milagres afectivos mais uma vez me deixou desnorteado. A minha tímida e pobre resposta foi escrever uma frase para um postal, e que declara «Não há amores como os que estão», manifesto inequívoco sobre a força e importância do hoje.

E é do hoje que vos escrevo, este hoje onde vivem agora intrusos adoráveis que já não dispenso, que me ajudam a aceitar o mistério da amizade consequente. Há uns anos citava isto de D. Francisco de Portugal:« Digamos porque não se chama ao amor amizade. Entre as duas coisas há esta diferença: o amor é uma paixão que tem mais de desejo que de prazer; e a amizade é uma afeição reverente ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer que de desejo. O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si».

Hoje, hoje mesmo, confirmo o que citei e tenho como única ambição conseguir conservar por perto estes anjos improváveis que insistem numa dádiva que já me é irreversível.
Bom ano. Afinal.



quarta-feira, novembro 27, 2013

Note to self by another

«Em breve esquecerás todas as coisas; em breve todas as coisas te esquecerão.»

Marcus Aurelius, Meditações


Lamento de Don Juan no Inferno

Demasiado amor, demasiadas mulheres, demasiado belas. Tudo demasiado tarde.

Vista de um café

Lisboa, dez da manhã. Uma rapariga atravessa o frio num passo decidido, o olhar perdido num ponto qualquer do horizonte. Andará pelos vinte e muitos anos, pelo que se pode depreender do rosto sério que só o cabelo loiro em desalinho parece desafiar. É bonita.
Na direcção dela vem um homem, aparentando a mesma idade. Fala animadamente com um casal que caminha ao seu lado. A rapariga cruza-se com este grupo e de súbito o homem aborda-a, delicadamente. A rapariga retira o olhar desse lugar misterioso e dirige-o para o homem, surpreendida. Logo a seguir, o rosto desfaz-se num sorriso e beija-o nos lábios ao de leve. Era o seu marido. Todos prosseguem os seus caminhos um pouco mais felizes.
O mundo ainda está cheio destes encantos, a magia das pequenas coisas

quarta-feira, outubro 16, 2013

O factor Lupicínio

O falhanço amoroso pode ser uma coisa boa. Na maior parte das vezes, é. E não falo de lições de vida mas de oportunidades de auto-conhecimento. De reconhecimento, até. Como dizia Vinicius, «Ai de quem não rasga um coração/ Esse não vai ter perdão».
Nesse aspecto, urge conhecer Lupicínio Rodrigues. Ele é nosso cúmplice. Ele é nosso parceiro. Ele é nosso camarada de armas, o que se rende ao nosso lado e que depois da rendição continua a sonhar com a batalha. No amor, Lupicínio é um tirocínio.
As suas canções são hinos, gloriosos na sua ostentação da modéstia e sumptuosos na singeleza dos afectos: há raiva, há ciume, há sacanice, há abandono. A força destes sentimentos em bruto abalam-nos porque crescemos a evitá-los. Temos pudor do que nos é primevo. Lupicínio não tem pudor nem vergonha. É um Shakespeare dos pobres, que privado de metáforas e vocabulário, trata as coisas exactamente como elas são.
Lupicínio é dos que perde.
 Passando há algum tempo por uma desilusão amorosa foi quase sem surpresa que descobri a origem da expressão “dor de cotovelo”. Tem um sentido diferente daquele em que a usamos, que é o da inveja ou o do ciúme. «Dor de cotovelo» foi cunhado por Lupicínio para designar o excesso de tempo passado ao balcão do boteco, sozinho a pensar no que foi e no que podia ter sido. É o retrato infalível do tipo que fica até o bar fechar, a beber o desgosto e a segurar a cara e o coração.
Podemos encontrar algo semelhante em Sinatra, que de resto transformou este estado de vida numa arte maior. Mas Sinatra é especialista em passar-nos a sua vida (o que está a cantar), de tal forma que nos confundimos com ele. Quando ouvimos Lupicínio estamos perante um tipo que sofre – exactamente naquele momento. E o que reconhecemos é o seu sofrimento.
O cancioneiro de Lupicínio Rodrigues é a wikipedia do falhanço. E é por isso que ele nos é tão urgente: para nos dar a possibilidade de falhar outra vez e nem sempre melhor.

http://www.youtube.com/watch?v=MByVS9mhvzU



Escapulário pessoal para uso quotidiano, 2

Faz com que eu deixe de fugir da Tua graça,sempre pronta a desabar sobre mim.

terça-feira, outubro 08, 2013

Na véspera de mais um aniversário, razões que importam.

Na véspera de arrebatar mais uma efeméride para o meu calendário pessoal, não consigo suster a modesta arrogância que é atrair leitores para palavras e vidas que lhes são alheias, por definição e saúde. Por vezes gostaria de ser como algumas figuras que conheço, que escrevem directamente das entranhas sentimentos secretos e inéditos e publicam-nos na esperança que ninguém os leia. Uma legitimidade enviesada que sustenta o argumento vacilante do "não estava nada à espera disto" quando as reacções - positivas ou negativas - se fazem chegar de forma natural. Sim, estavam à espera. Sim, porque quem escreve, por mais recados que dê, por mais omissões ou elipses que faça quer sempre falar com alguém, seja o mundo ou o amor a que se tem rancor.
E basta essa assunção para tudo ser mais fácil. a vida, a morte, o tempo. Queremos - quero - falar com alguém. Foram duros estes dias, estão a sê-lo. A arrogância cega cansa-me e a tendência dos tempos para mais certezas e menos dúvidas repugna-me. E onde se lê 'tempos' leia-se pessoas. 
Nada sabemos, nós os que ainda vivemos. Apenas podemos esperar o inesperado, como certifica Clarice. Apalpar às cegas as horas e o que nos é entregue sem mesmo assim termos a certeza de que iremos sobreviver. Neste périplo de quase 49 anos muito me foi oferecido; e o melhor, o que mais agradeço: os afectos e a dúvida. Ambos seguem uma lógica darwinista - sobrevivem os mais fortes. E são eles que me levam, as dúvidas e os afectos. É o que perdura e que atravessou o tempo que me serve de precária bússola, reassegurando-me do que sou e sobretudo do que não quero ser nem conhecer. 
Quarenta e nove anos, mas de vida mais do que isso nos últimos dois calendários gregorianos. Tantos erros como deslumbres, tantas memórias como pesadelos - e tudo para guardar, preciosamente, numa caixa vítrea da memória, para não esquecer, para consultar. Mas nunca, nunca para viver. «Regret, there's always regret», dizia o grande poeta lúcido. Mas a separação do que ficou é o que mais nos ajuda à união do que está hoje e, com sorte, do que há-de vir. 
Santo Agostinho escreveu que «o tempo vem do futuro, que ainda não existe, para o presente, que não tem existência, e some-se no passado, que deixou de existir». Envelhecer - ganhar vida - é perceber e regozijar nesta crença. O muito que fizémos permanece; o bom tem de ser mantido; o mau apenas lembrado e consultado. Tudo o resto - o olhar de espelho de feira dos outros que apenas conseguem ver o seu pobre reflexo; aqueles que louvam a obra mas que não se interessam pela vida; os outros que se auto-condenam à comiseração por excesso de vontades compradas em hipermercado: poder sobrevoar isso ao mesmo tempo que celebro as alegrias do aqui e agora legitimados por aquilo que fui sendo e ratificado pelos que verdadeiramente me amam e amo - eis o primeiro e derradeiro motivo para que as velas que irei apagar no próximo dia 9 de Outubro sejam mais do que desejos: sejam conquistas e gratidão.

E quando nos tiram as palavras, o nosso silêncio que nunca saberemos gritar? É um consolo.

A Verdade por si Mesma não Tem nenhum ValorHá uma coisa mais dolorosa do que nunca poder ouvir a verdade - é nunca poder exprimi-la, mesmo com a melhor vontade do mundo. Porque o que quer que digamos, o outro não escuta nunca a verdade que lhe queremos transmitir. Aquilo que sai dos nossos lábios e o que se passa na alma do outro, são sempre duas coisas diferentes. No instante seguinte deixa de ser semelhante - isso depende de tantas coisas que nada tinham a ver com a tua verdade e a tua vontade de verdade - isso depende do que o outro queria ouvir, da situação em relação a ti, etc... 
E a verdade por si mesma não tem nenhum valor, é como uma moeda num país onde não é corrente. 

Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'

sexta-feira, setembro 20, 2013

Trabalhos de casa, 1

Inventário da Melancolia
(Letra: Nuno Miguel Guedes; Música: Sidónio Pereira)

1.
Uma cidade cinzenta
Um rio que enjeita o mar
Uma raiva sonolenta
Uma saudade de amar

A sombra da felicidade
O que ficou por dizer
O fogo de uma vontade
Esta voz que quer morrer.

2.
Gestos que já não conheço
As mãos que tremem de frio
Este amor em que tropeço
A espuma atrás de um navio

Estas memórias que invento
E que levo a todo o lado
São o vulto do lamento
que mora neste meu fado.

[gravado em 2013 por Nádia Leirião e incluído em Discos do Povo #13)

Das canções de libertação.

segunda-feira, julho 22, 2013

Ide, comprai, lêde.


Reflexos de uma crise secreta



Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, de outro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.

Mal se pode mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.

In Ao triste estado, Frei Agostinho da Cruz


domingo, julho 14, 2013

Words and music: notas sobre canções,1

Hoje: Get Lucky, Daft Punk

Há muitas coisas que a idade – ou a vida, que não se mede em aniversários – nos entrega, à bruta. Se tivermos sorte e discernimento, aguentamos o mau e proclamamos o bom. Se ainda assim tivermos mau feitio ou um pequeno conselho que gostaríamos que ficasse em legado – bem, nessa altura quem pode escreve posts como este, por natureza exactamente aquilo para que não teríamos pachorra para ler em novos. Mas há esta maravilhosa inimputabilidade que a idade vai dando e que pessoalmente me irá servir de argumento judicial quando aos 80 anos assaltar a filial mais próxima do meu banco.
Mas devaneio.
A razão de ser desta modesta rubriquinha é lembrar aos mais distraídos que todas as canções são feitas de música e palavras. As melhores, de resto, conseguem atingir esse estado supremo em que uma não se consegue dissociar da outra. Aquela música não suporta outras palavras e vice-versa. Não tem necessariamente a ver com harmonias complexas ou poesias arrevesadas: tem apenas a ver com a perfeição de uma canção, e que é possível apreciar sob um telescópio objectivo mesmo quando o nosso gosto nos impede. Isto é válido para Leonard Cohen, Cole Porter ou Ricardo Landum (a sério: podemos não gostar, podemos assobiar para o ar - mas a verdade é que a letra de Sai da Minha Vida, por mais pirosa que seja (e é) é perfeita para a melodia em que encaixa). Como as canções são meretrizes e a nossa vida um musical, agradeçam sempre se encontrarem o amor da vossa vida sob um Feelings ou Depois de Ti Mais Nada. A nossa banda sonora pessoal nem sempre bate com os afectos. E ainda bem.
Ao que interessa: vejo que desde sempre as palavras das canções são subestimadas e mais ainda se forem canções funcionais: para dançar, para combater, para chorar. Quem isto vos diz, crianças, é o tipo que perdeu namoradas atrás de namoradas por achar que tinha de explicar o My Girl dos Madness verso a verso, e provar com isso que aquela era a melhor descrição de um quotidiano relacionamento homem/mulher feito na década de 80:"Why can't she see", lamenta-se o pobre diabo injustiçado, "she's lovely to me/ But I like to stay in and watch tv / on my own every now and then?". A letra continua brilhante, eu apenas um pouco menos chato.
O leve desprezo que o povo tem em relação ao que é dito nas canções foi-me dramaticamente comprovado há muitos anos atrás, quando insuspeitos marialvas cantaram convictamente mas sem entenderem o Glad To Be Gay da Tom Robinson Band.
O mesmo desconhecimento acontece nas celebrações eufóricas cada vez que Get Lucky é chamado à pista. Como canção, nada a dizer: uma avalancha dançável, com o convite irrecusável de Nile Rodgers e os Daft Punk a darem um pontapé na inteligentsia, que torce o nariz ao «facilitismo comercial». Até aqui, perfeito.
Mas a celebração colectiva do refrão é a coisa mais triste desde que se achou que o Blue Monday era só outra canção para dançar.
I'm up all night to get some
She's up all night for good fun
I'm up all night to get lucky


Ok. Hedonismo, carpe diem, o caraças. Mas ó gerações, ouvi o Tio Guedes: se realmente praticam o que celebram e ficam acordados toda a noite to get lucky,isso só pode significar três coisas: ou são losers, ou estão sob drogas ou provavelmente ambos. Ide para casa. Esse «L» que as meninas vos mostram não quer dizer «lovers». Celebrai a vossa mediocridade, mas no sossego do lar. Ou assumam e dancem Beck, cantando aos gritos «soy un perdedor». 

quarta-feira, junho 26, 2013

Late Night Bar Philosophers: the return.

«O palerma do filósofo francês não percebia nada de amor e muito menos de amores passados. Nos amores que ficam para trás, o hífen são as outras.»

sexta-feira, junho 21, 2013

«Modern life is rubbish»

Lembrei-me de uma frase engraçada. Não sei onde a colocar: aqui, no Facebook ou no Twitter?

Regressar onde se foi feliz


Tanto hesitei em regressar a este território. Mas insisti em convencer-me que se trataria de um acto de resistência, um anacronismo diletante que acabaria num depoimento contra ou a favor dos dias, contra ou a favor da impossibilidade das palavras.

Não chegou. Disse então a mim próprio que seria um pretexto para dar visibilidade às palavras de quem vive delas e agora não consegue viver, por capricho desditoso do nosso tempo. Sem lamentos: se me pedem para escrever de graça, ao menos que seja eu a fazê-lo à minha custa (e, receio, à do leitor).
Mas depois. Depois esta surpresa, estas emoções confusas de, três anos mais tarde, voltar a enfrentar uma vida que ficou a pairar num limbo virtual. A vida, mesmo quando disfarçada ou em raros momentos, à flor da pele. A perplexidade que existe sempre que revemos o eterno prefácio de nós próprios que o ontem oferece. A indignação divertida do «não é possível!»; a constatação não tão divertida do «antes escrevia muito melhor», ou «era menos amargo».

Não interessa. Mais um regresso, com tudo o que isso significa e me fascina: a possibilidade voltar a partir.
Formalmente, poucas são as mudanças: uma barra de links em actualização, um novo mail, um novo lema retirado dos versos de António Freitas para um fado de Amália e que é um credo pessoal e blindado.
Não há desculpas nem expectativas. Quem quiser entrar e seguir na viagem é bem-vindo. Não sei quanto tempo irá durar. Mas desconfio que essa incerteza faz parte do que me move.


NMG 

domingo, junho 09, 2013

«Do I dare disturb he universe?» (again...?)

quinta-feira, setembro 09, 2010

«A fine day for seeing»

Jackson Pollock,Number One, 1948


Digression On Number 1,1948

I am ill today but I am not
too ill. I am not ill at all.
It is a perfect day, warm
for winter, cold for fall.

A fine day for seeing. I see
ceramics, during lunch hour, by
Mir6, and I see the sea by Leger;
light, complicated Metzingers
and a rude awakening by Brauner,
a little table by Picasso, pink.

I am tired today but I am not
too tired. I am not tired at all.
There is the Pollock, white, harm
will not fall, his perfect hand

and the many short voyages. They'll
never fence the silver range.
Stars are out and there is sea
enough beneath the glistening earth
to bear me toward the future
which is not so dark. I see.

Frank O'Hara


*Hoje no Facebook alguém me mostrou um excerto de um episódio de Mad Men, em que Don Draper lê um poema de Frank O'Hara. Deste poeta lembrava-me deste Digression...., a partir do quadro que acima se vê. Uma coisa levou à outra. Oh Facebook, maldito sejas, quem quer «amigos» que não são reais blablablabla....Bullshit.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Come Undone

So rock 'n' roll, so corporate suit
So damn ugly, so damn cute
So well-trained, so animal
So need your love, so fuck you all
I'm not scared of dying, I just don't want to
If I stop lying, I'll just disappoint you


Há um grande letrista menosprezado no mundo pop: Robbie Williams. Em breve explicarei tudo, num blogue perto de si.E não vai ser aqui.
Recomeço


Thomas Gainsborough, View of Dedham

quinta-feira, agosto 26, 2010

Mother, Summer, I

My mother, who hates thunder storms,
Holds up each summer day and shakes
It out suspiciously, lest swarms
Of grape-dark clouds are lurking there;
But when the August weather breaks
And rains begin, and brittle frost
Sharpens the bird-abandoned air,
Her worried summer look is lost,

And I her son, though summer-born
And summer-loving, none the less
Am easier when the leaves are gone
Too often summer days appear
Emblems of perfect happiness
I can't confront: I must await
A time less bold, less rich, less clear:
An autumn more appropriate.

Philip Larkin

domingo, agosto 22, 2010

Shaken and Stirred: a tribute to Dorothy Parker


Dorothy Parker, crítica,poeta, escritora, wit extraordinaire. Nascida a 22 de Agosto de 1893.

segunda-feira, agosto 16, 2010



Colette, por Irving Penn

quarta-feira, agosto 11, 2010

Pursewarden dirá umas palavras:

«Aware of every discord, of every calamity in the nature of man himself, [the artist] can do nothing to warn his friends, to point, to cry out on time and to try to save them. It would be useless. For they are the deliberate factors of their own unhappiness. All the artist can say as an imperative is: 'Reflect and weep'.


Lawrence Durell, Balthazar (vol.II do Quarteto de Alexandria)
Isn't it ironic? Don't you think?



A perder até aos 15 minutos finais por um golo que não entrou. A ganhar porque bastou a Gerrard ser Gerrard, em 4 minutos.

domingo, agosto 01, 2010

DO PRÓPRIO ABORRECIMENTO

Que guerra tão cruel trago comigo,
Comigo de quem sempre ando ferido,
Pois para nunca ser de mim vencido,
A mim comigo mesmo me persigo.

Vou contra mim se não me contradigo,
Se não me ofendo, sinto-me ofendido,
E como sou de mim tão combatido,
De mim mesmo me fiz fero inimigo.

Vejo-me contra Deus adversário,
Com cuja disciplina só me instruo,
E assim nunca comigo me conformo.

De mim mesmo me sinto tão contrário,
Que quando me reformo, me destruo
E quando me destruo, me reformo.

Baltasar Estaço
Timshel
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqwYA6RC0C4PPI63o5FgVqfoj7JbpcO_LA6yu5fxMoKQfZRlqfqvZkgsvpCiLdHH-zySapdtsgCCsfUC2YofZlgZql5R7RLFUkjxS4Pc1NOF5eym6mOgGyxxV7-nOPAI9i2gz1dQ/s400/EastDeanBros.jpg

(A leste do Paraíso, Elia Kazan)

domingo, julho 04, 2010

Lisboa, 35ºC

De um lado, Silogismos da Amargura, de Cioran. Do outro o Portugal, país de suicidas, de Unamuno. Hoje compreendo melhor o segundo.

quarta-feira, junho 30, 2010

O meu mundial em 19 segundos


Sobre Queiroz nem uma palavra. Actos, só actos.

quarta-feira, junho 23, 2010

Sing It For England - World Cup 2010 Football Song

Working class heroes.


«Will it be a 4-4-2? (...) Only thing I'll ever do for sure/ is sing it for England!»

quinta-feira, junho 17, 2010

Grammar Nazis


«I'm sorry, I was confused by your double negative». Muito bom.

segunda-feira, junho 14, 2010

Baddiel, Skinner & The Lightning Seeds - Three Lions '96

De maneira que mais uma vez é isto.



Onde se ouve 'thirty' passa a 'forty-four'
What's new, pussycat?
O ritual cumpriu-se.Depois de uma qualificação apenas maculada pela derrota final com a Ucrânia - que ainda suspeito ter sido uma manobra para colocar a Croácia fora da fase final, vingança da Ilha sobre a equipa que a privou do Euro 2008 - os adeptos ingleses tiveram razão para pensar:«É desta». É verdade que pensam o mesmo desde 1966, mas desta vez tudo parecia estar a resultar. Até o próprio seleccionador, improvável mentor de um futebol de ataque que na fase de qualificação alcançou uma invejável média de 3 golos por jogo. Mas este optimismo só tinha um obstáculo: referia-se à selecção inglesa.
Há um estranho destino nos 3 Leões que aparenta ser uma maldição. Quando a equipa está a jogar bem, derrotas nas grandes penalidades (Alemanha, Portugal). Quando está a jogar mal, um erro trágico qualquer, daqueles só possíveis de assistir em programas de «apanhados» deitam tudo abaixo. No Inglaterra - EUA, o erro chamou-se Robert Green, neste momento o inglês mais popular desde Guy Hawkes.
É verdade que o país que teve Gordon Banks ou Peter Shilton teve também David Seaman ou tem o assustador David 'Calamity' James. Robert Green é o produto mais recente de uma escola em que o lugar de guarda-redes parece ser destinado ao desgraçado que perde uma aposta. Esta selecção inglesa não é excepção, mas a colheita é particularmente confrangedora: para além de Green e James também Joe Hart ameaça criar momentos hilariantes.
O jogo foi estranho, com a Inglaterra depois do golo (bonito, diga-se) a convidar os rapazes com equipamento de pólo a tentarem acertar na sua baliza. O golo adivinhava-se; mas como estamos a falar de Inglaterra tinha de chegar em forma de hara-kiri humorístico. No banco, o grande Beckham, impecável no seu three-piece suit, trespassava Green com o olhar. No pub onde eu estava os expatriados britânicos passaram em questão de segundos pelas fases de Incompreensão, Raiva (para Green, em cântico: 'Who are ya? Who are ya? You're shit, that's who are ya!') e Aceitação («A tie's a win, mate», dizia-me um ao intervalo.)
Na segunda parte as coisas melhoraram, mas todas as apostas de Capello falharam, com particular destaque para Carragher. O povo ao meu lado, entretanto, já fazia chamadas imaginárias para a BP, pedindo-lhes que fizessem mais um furinho. A selecção americana continuava no seu desvario, correndo e de uma maneira genérica existindo, mas pouco mais. Enfim, valha-nos o humor.
Mesmo assim, e porque este tipo de episódios caricatos nos jogos já tem linhagem nobre no historial da selecção inglesa, ainda acredito. Como se diz no spot televisivo do The Sun, 'Maybe. Just maybe'. Senão paciência: tudo na mesma, mais uns pints e o Rogério talvez amealhe mais umas libras.

quarta-feira, junho 09, 2010

More than a feeling.





Prometo assistir também a alguns jogos da selecção nacional.

segunda-feira, junho 07, 2010

Orquestra local erra feio o hino nacional brasileiro em zimbabue

A fanfarra de Harare é a nossa arma contra o Brasil.
Traurig

'Quem não gosta da Primavera sofre o infortúnio da própria tristeza.'

António Osório, Aforismos mágicos

terça-feira, junho 01, 2010

Estranhamente e contra minha vontade este blogue ressuscita após muitos dias. Provavelmente passam-se demasiadas coisas que me impedem de estar quieto. Manifestações contra «nazis-sionistas» (cada vez menos pachorra para estes cavaleiros brancos da causa imaculada da Palestina), o Mundial que aí vem, a vida em geral. Porque entretanto escrevo em duas outras casas, para além de ter a minha vidinha, o que posso prometer é a irregularidade habitual.

sexta-feira, abril 02, 2010

domingo, março 28, 2010

Until you realise



I've been living through changes
It's not the same thing every day
I hope it's not my age
But I wouldn't like to say


Mirror hopping days of coarse reaction
Oh it's very hard to fight
I tried to find a plan of action
But I couldn't get it right


Until you realise
it's just a story.

sábado, março 27, 2010

Último dia da Quaresma
«26 de Agosto [de 1941], terça-feira à tarde

Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.
Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Esses procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondam nas mãos, penso que essas pessoas procuram Deus dentro de si.»

Diário, Etty Hillesum (Assírio&Alvim, trad. do neerlandês de Maria Leonor Raven-Gomes)

Já há muito tempo que deixava que os meus dias depositassem «pedras e cascalho» no meu «poço». Nem Deus nem sequer a suspeita do eco de mim eu já ouvia como gostaria. Hoje, longe do mundo e perto de outros, ouvi mais sobre esta mulher e a sua extraordinária história. Aprendi como é possível uma teologia da falibilidade, que nasce e floresce no meio do Mal Absoluto, na noite mais negra que o século passado (que a Humanidade?) conheceu. Como é possível aceitar a Cruz e um Deus que precisa de ser ajudado por nós porque muitas vezes é um Deus impotente perante os homens.
A religião e a arte são coisas práticas, que só fazem sentido se vividas no quotidiano - hoje, agora, em todos os gestos. Antes, suplicava com o personagem de Greene:«Deus, sei que te abandonei; não me abandones tu!».Agora, com mais esta voz, há forças para dizer «Deus, deixa-me ajudar-Te, preservando o que há de Ti em mim, aconteça o que acontecer».
Algumas pedras moveram-se, já se nota um fundo no poço.

terça-feira, março 23, 2010

Código do amor do século XII

XV.
Toda a pessoa que ama empalidece ao ver quem ama.

(mais beleza e completa aqui)

quinta-feira, março 11, 2010

terça-feira, março 09, 2010

Da ansiedade.


«Out soon», dizem eles. Soon? «How soon is now?», dizia o outro e com razão.
Agnostalgia

Às vezes o mundo que existe nas palavras morre de excesso de vida. Gasta-se pelo uso e pelo tempo, como o ferro e o amor do sermão de António Vieira. Fica um esqueleto oco, apenas funcional; e nalguns casos – raros – um eco, que ao ressoar através dos dias nos devolve o muito que a palavra significou e nunca conseguiu dizer.

«Nostalgia» é uma dessas palavras que lentamente fomos esvaziando, numa agonia cada vez mais dolorosa e irreversível. De tão utilizada já de nada nos serve. A sua omnipresença é a sua certidão de óbito: vemo-la desperdiçada nas nossas vidas, distante do lugar etéreo que deveria ocupar. Não é como a saudade, com a qual muita gente tende a confundir. A nostalgia é um lugar idealizado, sem dor nem lados sombrios. É a Disneylândia da memória, onde todos queremos voltar. Ao contrário da saudade, que inapelavelmente traz com ela o mais o pesado dos fardos: o ser verdade.

Desconfio francamente de quem hoje se diz um nostálgico – e isto inclui-me, que por vezes não resisto a esse território do «era uma vez», a tentadora «land of lost content» de Housman onde, para nosso descanso e preguiça, nunca poderemos regressar. E é tão fácil: basta uma fotografia de um dia em que fomos felizes ou jovens ou ambos; uma canção que nos atira para um amor antigo, uma casa bem conservada, uma paisagem que nos é familiar. E é inevitável, ao que parece: este nostálgico renitente que vos escreve vê-se de repente no meio de jantares de colegas da escola primária com outros nostálgicos ainda mais improváveis. Ementa obrigatória e sugerida pelos comensais: doces memórias, histórias de graças e alegrias, que deixam de fora as raivas, brigas e tristezas de ocasião essenciais para uma infância feliz.

O problema é que mesmo quem consiga evitar todas estas armadilhas naturais – e assim de repente não conheço nenhum individuo criado sob uma civilização ocidental que o consiga – ainda leva com outra terrível maquinação do nosso tempo – a nostalgia induzida e, por consequência, banalizada. Hoje mede-se por décadas: a «nostalgia dos anos 80», por exemplo, já fez que eu criasse anti-corpos contra a minha própria adolescência e juventude. São memórias impostas a quem tudo descobria nessa altura; com a diferença de que agora os «nostálgicos» são potenciais consumidores com um poder de compra mais ou menos confortável que lhes permite comprar recordações. E depois há os nostálgicos de um tempo que não viveram. A esses devemos, em regra, a modernidade.

O problema dos dias, dos meus dias, é este: não me importo de ter saudades mas Deus me livre da nostalgia. É urgente desaprendê-la para voltarmos a senti-la outra vez.



(publicado originalmente aqui)

segunda-feira, março 08, 2010

Leya
Late night bar philosophers, nº43

«Tens de perceber que gostar tanto de mulheres como gostamos e ter a sorte de elas gostarem de nós é um dom e uma maldição.»
«Sim, mas qual o dom e qual a maldição?»
Para crentes, não-crentes e Christopher Hitchens

A não perder estes encontros na Capela do Rato. E já que foram parar ao sítio do Secretariado Nacional da Pastoral de Cultura, aproveitem e passeiem o olhar pelos magníficos textos. Não é preciso partilhar uma confissão religiosa para reconhecer beleza e inteligência.

sábado, fevereiro 20, 2010

Finalmente uma paródia de A Queda em que faço parte da piada



(com nome e tudo. Magnífico trabalho desta rapaziada)

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Pode prejudicar a saúde, mas duvido muito

Agnostalgia: uma crónica na Nicotina Magazine.

sábado, fevereiro 13, 2010

Enjoy the silence

«The richest of human experiences is also the most limited in its range of expression. Words kill love as they kill everything else.»

Lawrence Durrell, Mountolive

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

É tempo.

Informações a serem actualizadas aqui.Mas vão.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Obrigado.

JD Salinger

segunda-feira, janeiro 25, 2010

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Guia ilustrado para Mad Meníacos
Yummy.
Em graça até na desgraça

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Eu, que nunca tive barra de links

Albergue Espanhol;Professor José Cid ; Da Última Fila; Córtex Frontal. Tudo excelentes razões para acabar com este blogue, pela pouca falta que faz.
Gostar de mulheres

«Brigitte fazia parte dessa curiosa categoria de mulheres precisas. Sobre cada assunto ela era incapaz de emitir a mínima opinião aleatória. O mesmo aplicava-se à sua beleza: levantava-se cada manhã com a glória a cobrir-lhe o rosto. Perfeitamente segura de si mesma, sentava-se todos os dias na primeira fila, procurando por vezes desestabilizar os professores masculinos, jogando com o seu encanto evidente para fazer desviar as implicações da geopolítica. Quando entrava numa sala os homens sonhavam de imediato e as mulheres detestavam-na por instinto. Era o objecto de todos os fantasmas, o que acabou por maçá-la. Teve então essa inspiração genial para acalmar os ardores: sair com o mais insignificante dos rapazes. Assim, os machos seriam afastados e as raparigas reasseguradas. Markus foi o feliz eleito, sem compreender porque é que subitamente o centro do mundo se interessava por ele. Era como se os Estados Unidos convidassem o Liechenstein para almoçar.»

David Foenkinos, La Délicatesse (trad.NMG)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

terça-feira, janeiro 05, 2010

Conselhos e máximas do tio Wilde

Spandau Ballet, Reformation:«There's something wrong, there's something wrong/Man is something to be overcome»

O tio Wilde afirma: não há apologia do übermensch que resista a uma pobre escolha de roupa.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Entretanto, permitam-me
...desejar a todos um magnífico 201o, com o máximo de paz, saúde e vontade. Pessoalmente, remeto-me aos versos citados no cabeçalho deste estabelecimento.
Tradução Simultânea:
Provavelmente o único blogue a fazer listas da década quando a década acabar: ou seja, no último dia de 2011.

terça-feira, dezembro 29, 2009

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Vamos lá acabar com isto (I)

Discos 2009 (sem ordem de importância)


Domésticos:

Nem lhe tocava, Samuel Úria

A Mãe, Rodrigo Leão

Boato, JP Simões

Fados de amor e pecado, Ana Sofia Varela

Leva-me aos fados, Ana Moura*

Vida, Jorge Fernando*


Importados

Veckatimest, Grizzly Bear

Begone Dull Care, Junior Boys

Humbug, Arctic Monkeys

Merryweather Post Pavillion, Animal Collective

Solo:Live From San Francisco, McCoy Tyner (jazz)






*declaração de interesses: disco com a participação de quem o seleccionou

segunda-feira, dezembro 21, 2009

A todos um excelente e Santo Natal. Voltamos já.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Mr.Malcontent


«Or should I laugh or should I cry
Or should I part my hair behind...
...or should I laugh or should I cry
As I become all I despise.»

segunda-feira, dezembro 14, 2009

«Garante Nélson Rodrigues»
Assim que soube da contratação pelo Benfica de um jogador com o improvável nome de Alan Kardec, preparei-me para todas as espécies de trocadilhos intelecto-revisteiros: na mesma frase, «Kardec», «espírito de Natal»,«Jesus», «aparição», «pé-de-galo» abriam caminho a mil e uma possibilidades. Mas nada, oh mesmo nada, me preparou para este título- maravilha.

sábado, dezembro 12, 2009

«The chairman of the bad»
Quem se der ao estranho trabalho de pesquisar os arquivos deste blogue facilmente encontrará idossincracias do autor: umas mais verdadeiras do que outras, umas mais recorrentes do que outras. Mas há uma paixão; não, um amor, resolvido e sempre novo que atravessa seis anos destas palavras e muitos mais da minha vida. Um minuto que fosse e era mais do que uma vida. Estou a falar de Francis Albert Sinatra.
Hoje Sinatra celebraria o seu 94º aniversário. Eu, que tanto já escrevi, a sério ou em lágrimas sobre ele, que assumo esta dependência com tanto despudor que levou um amigo a dedicar-me publicamente um texto muito melhor sobre ele (obrigado, Pedro), eu que me comovo sem problemas sempre que oiço a sua voz cantar até o mais errado dos repertórios (It's not easy being green, ou o Leaving on a jet plane, do infame segundo álbum com Tom Jobim), eu que ganhei uma garrafa de champanhe em aposta com outros dois conhecidos especialistas do homem ao identificar ao segundo acorde todas as canções do alinhamento durante o seu concerto no Porto; eu sei que tudo isto já deveria estar diluído, que esta nervoseira e urgência de juntar palavras já não deveria fazer sentido, que devia mas é estar caladinho a agradecer tudo o que o homem me ensinou e me incentivou ao som de Only the lonely.
Mas não. Continua esta vontade, esta descoberta. Oscar wilde, na sua frívola profundidade, teve sempre razão; mais ainda quando disse que o amor é a arte da repetição. Aqui, pela repetição responsabilizo-me. Pela arte, duvido. Pelo amor, decerto. Por isso opto por deixar tudo o que gostaria de ter escrito, a descrição e biografia mais certeira e subjectiva e comovente que conheço, feita por Bono em 1994. Nunca irei conseguir dizer o que ele disse,mas estou muito contente por alguém o ter dito.




«This is the conundrum of Frank Sinatra. Left and right brain hardly talking. Boxer and painter, actor and singer, lover and father, bandman and loner. Troubleshooter and troublemaker The champ who would rather show you his scars than his medals. He may be putty in Barbara's hands. But I'm not gonna mess with him, are you?

Ladies and gentlemen, are you ready to welcome a man heavier than the Empire State, more connected than the Twin Towers, as recognizable as the Statue of Liberty, and living proof that God is a Catholic!»

Brincar com coisas sérias

E muito bem.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Errata privada: Onde está «Oliver» leia-se.

«As neuroses femininas são a sua perdição. Juntem-lhe uma cintura fina, ancas largas e maternais, uns olhos castanhos imensos e inconsoláveis, e Oliver já não tem salvação».

John le Carré, Single&Single
Este Natal, para o homem que ama as mulheres

...ou simplesmente preza a inteligência:a prenda ideal.




(estão a dar-nos armas. You know that, don't you? Ok, don't answer that.)

quarta-feira, dezembro 02, 2009

quarta-feira, novembro 25, 2009

«Nothing really matters...but moi»
Schopenhauer

terça-feira, novembro 24, 2009

«The place that cannot be»
Já não concebo a vida sem a existência de Mad Men. Não é só o que salta à vista - a excelência dos diálogos, os personagens, os cigarros e cocktails galore, os décors extraordinários, a reconstituição de época... É «Don Draper», o amoral com remorsos, a ambição culpada, o infiel defensor da família. É a tensão e o dinamismo das «secretárias», a pedagogia da perda da inocência («Why is it here, when a man takes you to lunch, you're the dessert?»). Mad Men é sobre as cambalhotas éticas que temos de dar todos os dias e a forma como lidamos com elas, colocadas no contexto em que a hipocrisia pode ter bom nome: uma época (finais dos anos 50 - inicio dos anos 60) em que os valores morrem e renascem, à volta de pessoas que vendem o novo e a felicidade. E a utopia, esse lugar que não pode ser, como denuncia o étimo grego. Esse lugar que não pode ser é a vida.


[sobre este e outros assuntos recomendo vivamente este lugar]

quarta-feira, novembro 18, 2009

Confirma-se.
Não tenho nada a esperar de um mundo onde o maradona gosta de Soft Machine.

quarta-feira, novembro 11, 2009

quinta-feira, novembro 05, 2009

E o Estoril aqui tão perto.

quarta-feira, novembro 04, 2009

«Personally, of course, I regret everything»

domingo, novembro 01, 2009

Aqui Rádio Silêncio*

Eram os dias de tudo. Eram os dias, as noites que eram as primeiras, tão sábias na ingénua e arrogante velhice da nossa juventude. Ali cabiam todas as descobertas, que partilhávamos com a ansiedade dos pioneiros: os sons, as palavras, os modos. O mundo seria provavelmente nosso mas ninguém dava por isso porque estávamos demasiado ocupados a conquistá-lo.
E tínhamos mestres, e tinhamos rituais que não dispensávamos porque nos faziam caminhar e saber, porque nos alimentavam a inocência que desesperadamente queríamos perder e proclamar essa perda. Eram dias, eram noites em que os mestres, com rosto ou com voz, faziam com que a nossa vida se confundisse com a deles.
Hoje partiu um deles. Cheguei a conhecê-lo, já adulto, sentados numa cabina de rádio enquanto alguém nos fazia uma entrevista e eu pensava «O que estou aqui a fazer? Eu sou ouvinte, eu oiço. Eu oiço-o. Ele fez-me um pouco do que sou.»
Conheci o António Sérgio. Nunca cheguei a agradecer-lhe.
Obrigado Sérgio.



*(título de um programa de rádio da autoria de Miguel Esteves Cardoso, na Rádio Comercial, algures no inicio dos anos 80)

quarta-feira, outubro 28, 2009

That is so right, Clarice.

Os factos são sonoros. O que importa são os silêncios por trás deles.

Clarice Lispector


E é no silêncio que está tudo o que importa.

segunda-feira, outubro 26, 2009

From Tweedledee to Tweedledum

Why Did I Dream Of You Last Night? by Philip Larkin

Why did I dream of you last night?
Now morning is pushing back hair with grey light
Memories strike home, like slaps in the face;
Raised on elbow, I stare at the pale fog
beyond the window.

So many things I had thought forgotten
Return to my mind with stranger pain:
- Like letters that arrive addressed to someone
Who left the house so many years ago.

quinta-feira, outubro 22, 2009

The sadness of things


Do I dare to eat a peach?
Do I dare to walk the beach?
And if I dare to eat a peach
If I should care to shed a tear
Could I claim more for my action
Than selfish satisfaction?
(Stock mammalian reflex, biochemical reaction)

(a canção mais perpassada pelo Prufrock de Eliot que conheço)

quinta-feira, outubro 15, 2009

À atenção de Pedro Lomba, Esq.

«Digamos porque não se chama ao amor amizade. Entre as duas coisas há esta diferença: o amor é uma paixão que tem mais de desejo que de prazer; e a amizade é uma afeição reverente, ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer do que de desejo. O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si.»

A Arte Da Galantaria, D.Francisco de Portugal









(eu gostava de escrever no século XVII)
Amiguismos

Dos tempos em que éramos jovens, lembramo-nos bem. Era assim, com a vontade e o cabelo ainda intactos. Desde então várias coisas mudaram - como felizmente o nosso gosto por camisas - mas o que perdura, o que vimos,isso já ninguém nos tira. Um de nós que em cima se pode ver faz anos hoje, mas isso, francamente, é só um pobre pretexto para o que eu realmente queria dizer.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Lugares onde se deve ver e ser visto
Aqui e aqui. Que bom.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Efemérides
Faço 45 anos hoje, dia em que Barack Obama foi nomeado Prémio Nobel da Paz. Mais: faço 45 anos no mesmo dia do cão do Prémio Nobel da Paz. Não sei por onde começar a deprimir-me.

segunda-feira, outubro 05, 2009

L&J

I'm a sucker for weddings. E os que são abençoados por este senhor então nem se falam.Nice party, by the way.

sábado, outubro 03, 2009

Investigação criminal

Cote de Pablo

Este blogue não pode ser só poesia. Neste caso, é.
Robert Creeley


Só posso atribuir à minha profunda estupidez nunca ter ouvido falar de Robert Creeley até que um serendipismo numa livraria me levou até ele. Como é natural fiquei fascinado e indignado pelo meu desconhecimento, o que como se sabe é sintoma de pura vaidade.
Mas se alguém me tivesse dito que existia um poeta que conseguia evocar Pound e ao mesmo tempo ter o empenhamento bóemio da poesia beat, ao mesmo tempo que o desdenhava; que um poeta conseguia passear à vontade no formalismo para depois se esconder em «versos livres»; que no meio de tudo existe uma ponte entre a limpidez de Hardy e a poesia concreta...Nunca teria acreditado. Graças a Deus que me chegou agora, que tenho vida suficiente para poder conversar com ele.

The Mirror


Seeing is believing.
Whatever was thought or said,

these persistent, inexorable deaths
make faith as such absent,

our humanness a question,
a disgust for what we are.

Whatever the hope,
here it is lost.

Because we coveted our difference,
here is the cost.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Coisas que me comovem


Nada mais justo. E a seguir, o fado.

quarta-feira, setembro 23, 2009

sábado, setembro 19, 2009

quarta-feira, setembro 16, 2009

segunda-feira, setembro 14, 2009


Uma das muitas alegrias que ontem estes homens fizeram o favor de oferecer ao universo.