Uma excelente (e por isso mesmo, discutível) análise da existência de uma «cultura de direita», da pós-revolução até hoje, efectuada pelo essencial António Araújo.
Numa altura em que se fazem doutoramentos sobre O Independente ou a revista Kapa (publicações em que participei activamente) esta é talvez a análise mais lúcida sobre um fenómeno editorial quase geracional e certamente mais estético do que de combate ideológico (no caso do Caderno 3 do Indy ou da Kapa), impossível de dissociar do zeitgeist sociocultural mas que ao mesmo tempo o venceu de forma improvável.
segunda-feira, janeiro 20, 2014
quarta-feira, janeiro 08, 2014
Blue Monday
O que nos dão as canções, ou mais importante – o que é que
nós lhes damos? Tudo o que temos, o que tivemos, o que queremos ter. Nos casos
mais radicais, o que queríamos ser. Algumas canções entregam-nos uma ontologia
utópica de nós próprios, que só por sabê-las, cantá-las ou dançá-las,
acreditamos que é verdade o que nós pensamos que somos. Pessoalmente sinto
tanto essa necessidade que descobri no fundo de mim uma vocação para letrista
que me satisfaz mais a mim do que a quem ouve ou canta o que escrevo.
Blue Monday, dos New Order, é uma dessas canções que sempre me devolvem o que gostaria de ser e algum do tempo em que o tentei. Não é uma questão de nostalgia: danço-a hoje como a dançava quando foi lançada, em 1983 – com a diferença de que tenho a profunda alegria de não estar em 1983. Mas é fácil saborear aquela batida irresistível, a letra triste e resignada a contrastar com a aparente contradição da vontade de dançar, símbolo do caminho musical que a banda queria tomar.
Depois, o mito confundido connosco: a tristeza assumida como
uma das belas-artes, o imaginar a banda recolhida no estúdio em silêncio e em quase ascese.
Felizmente, existe sempre alguém que nos prova que é
mentira. Este pequeno documentário sobre o making of da canção choca os fieis
como eu: então os rapazes andavam em noitadas nos clubes de Manhattan ? Inspiraram-se em Sylvester? A
tão inconfundível batida está presente numa canção anterior da Donna Summer? O
Bernard Sumner diz que «não é uma canção, é uma máquina que faz dançar»? Mas,
mas...O que aconteceu ao meu mundinho lírico e vivido das gabardinas e olhos no
chão, da melancolia de papel que vestia sempre que dançava isto?
Este documentário é maravilhoso e perigoso. Tal como quando nos é revelado um truque de ilusionismo, fica sempre um levíssimo travo de desapontamento. Mas a magia fica intacta, senão mesmo reforçada. O que aconteceu, aconteceu e foi uma sorte e lindo para quem lá esteve ou abriu as portas da vida ao que estava a acontecer. E depois, há esta frase do genial designer gráfico Peter Saville que tudo define:«Ninguém estava ali para fazer dinheiro. Estávamos para fazer o que queríamos». Não vejo maior privilégio.
[para ver o documentário: http://www.svtplay.se/video/1681962/del-2-av-6-engelsk-text-english-subtitles ]
segunda-feira, dezembro 30, 2013
Notas de 2013 (visto por dentro)
I sing
what was lost
And
dread what was won
W.B.Yeats
Por um brevíssimo instante, contrariar aquilo em que
acredito e a minha natureza: só por isso olhar para trás. Ver as pegadas que
marcaram o ano que passou, perceber sem nostalgia as horas boas e más, os
caminhos que se perderam, o pouco que se ganhou. Fazer um álbum de recortes
precário e biodegradável, só para agradar o espírito da quadra, feito de
balanços e fins de ciclos fictícios mas em que queremos acreditar. Deixar de
lado a certeza cínica de que o tempo é a mais nefasta criação humana e, já
refugiado no abrigo do instante-agora, poder abusar dos sumários dos
dias em que combatemos ou gozamos. E perceber: este ano foi igual a todos os
outros. Choro, risos, desejos, frustrações, desilusões, dificuldades e até
oásis de uma perigosa felicidade.
Dirão: sobretudo dificuldades. Sim, sim. Muitas e de vários
géneros, incluindo algumas que poderiam ter sido evitadas ou abreviadas. Outras
que permanecem e são comuns a tantos, como a ausência de trabalho e dinheiro.
Tempos dificeis e sempre inesperados. Mas não é isso o que acontece a quem tem
o desplante de estar vivo? É essa teimosia militante que atravessa os dias,
sugando tudo o que encontra pelo caminho e juntando argumentos e forças para
discutir a injustiça inevitável que é a morte.
Mesmo assim, preferia ter abdicado das filosofias estóicas e
ter tido uma vidinha mais descansada. Não aconteceu. Pelo contrário, muitas
vezes fui engolido pelo pior de mim, o que pareceu reforçar de maneira sentida
e inexpugnável a minha baixa consideração pela natureza humana, a que por
tragédia e sorte pertenço.
Mas depois: no meio do escuro, das dúvidas, do cepticismo
seguro, voltar a embater naquilo que nos esforçámos por negar. Dito de outra
maneira: sem aviso nem perdão ser incluído nos milagres que persistem em ser
reais. Essa a maçada: o mais incrível dos milagres é o facto de existirem, como
diria o Padre Brown de Chesterton. E desafiando toda a suave misantropia que
adoptei como trincheira, eis que a amizade invadiu e conquistou todas as
cidadelas que erigi à custa da tristeza.
Uma invasão doce, inesperada, quotidiana. Amigos novos, que
proclamámos nunca mais fazer, riem-se destes preconceitos balofos e atacam a
alma e o coração, sem apelo nem agravo. Nem sequer há cerco: há uma marcha
sorridente, um apoio incondicional quando caímos feridos de descrença ou
melancolia.
Não estou nem nunca estarei preparado para isto. Há muito
que encontrava santuário apenas na antiguidade das amizades, que nunca me
desiludiram. Mas ser receptor destes milagres afectivos mais uma vez me deixou
desnorteado. A minha tímida e pobre resposta foi escrever uma frase para um
postal, e que declara «Não há amores como os que estão»,
manifesto inequívoco sobre a força e importância do hoje.
E é do hoje que vos escrevo, este hoje onde vivem agora
intrusos adoráveis que já não dispenso, que me ajudam a aceitar o mistério da
amizade consequente. Há uns anos citava isto de D. Francisco de Portugal:«
Digamos porque não se chama ao amor amizade. Entre as duas coisas há esta
diferença: o amor é uma paixão que tem mais de desejo que de prazer; e a
amizade é uma afeição reverente ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer
que de desejo. O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que
pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si».
Hoje, hoje mesmo, confirmo o que citei e tenho como única
ambição conseguir conservar por perto estes anjos improváveis que insistem numa
dádiva que já me é irreversível.
Bom ano. Afinal.
quarta-feira, novembro 27, 2013
Note to self by another
«Em breve esquecerás todas as coisas; em breve todas as coisas te esquecerão.»
Marcus Aurelius, Meditações
Lamento de Don Juan no Inferno
Demasiado amor, demasiadas mulheres, demasiado belas. Tudo demasiado tarde.
Vista de um café
Lisboa, dez da manhã. Uma rapariga atravessa o frio num
passo decidido, o olhar perdido num ponto qualquer do horizonte. Andará pelos
vinte e muitos anos, pelo que se pode depreender do rosto sério que só o
cabelo loiro em desalinho parece desafiar. É bonita.
Na direcção dela vem um homem, aparentando a mesma idade.
Fala animadamente com um casal que caminha ao seu lado. A rapariga cruza-se com
este grupo e de súbito o homem aborda-a, delicadamente. A rapariga retira o olhar
desse lugar misterioso e dirige-o para o homem, surpreendida. Logo a seguir, o
rosto desfaz-se num sorriso e beija-o nos lábios ao de leve. Era o seu marido.
Todos prosseguem os seus caminhos um pouco mais felizes.
O mundo ainda está cheio destes encantos, a magia das pequenas coisas
quarta-feira, outubro 16, 2013
O factor Lupicínio
O falhanço amoroso pode ser uma
coisa boa. Na maior parte das vezes, é. E não falo de lições de vida mas de
oportunidades de auto-conhecimento. De reconhecimento, até. Como dizia
Vinicius, «Ai de quem não rasga um coração/ Esse não vai ter perdão».
Nesse aspecto, urge conhecer
Lupicínio Rodrigues. Ele é nosso cúmplice. Ele é nosso parceiro. Ele é nosso
camarada de armas, o que se rende ao nosso lado e que depois da rendição
continua a sonhar com a batalha. No amor, Lupicínio é um tirocínio.
As suas canções são hinos,
gloriosos na sua ostentação da modéstia e sumptuosos na singeleza dos afectos:
há raiva, há ciume, há sacanice, há abandono. A força destes sentimentos em
bruto abalam-nos porque crescemos a evitá-los. Temos pudor do que nos é
primevo. Lupicínio não tem pudor nem vergonha. É um Shakespeare dos pobres, que
privado de metáforas e vocabulário, trata as coisas exactamente como elas são.
Lupicínio é dos que perde.
Passando há algum tempo por uma desilusão amorosa foi quase sem
surpresa que descobri a origem da expressão “dor de cotovelo”. Tem um sentido
diferente daquele em que a usamos, que é o da inveja ou o do ciúme. «Dor de
cotovelo» foi cunhado por Lupicínio para designar o excesso de tempo passado ao
balcão do boteco, sozinho a pensar no que foi e no que podia ter sido. É o retrato
infalível do tipo que fica até o bar fechar, a beber o desgosto e a segurar a
cara e o coração.
Podemos encontrar algo semelhante
em Sinatra, que de resto transformou este estado de vida numa arte maior. Mas
Sinatra é especialista em passar-nos a sua vida (o que está a cantar), de tal
forma que nos confundimos com ele. Quando ouvimos Lupicínio estamos perante um
tipo que sofre – exactamente naquele momento. E o que reconhecemos é o seu
sofrimento.
O cancioneiro de Lupicínio Rodrigues é a wikipedia do falhanço. E é por
isso que ele nos é tão urgente: para nos dar a possibilidade de falhar outra
vez e nem sempre melhor.http://www.youtube.com/watch?v=MByVS9mhvzU
Escapulário pessoal para uso quotidiano, 2
Faz com que eu deixe de fugir da Tua graça,sempre pronta a desabar sobre mim.
terça-feira, outubro 08, 2013
Na véspera de mais um aniversário, razões que importam.
Na véspera de arrebatar mais uma efeméride para o meu calendário pessoal, não consigo suster a modesta arrogância que é atrair leitores para palavras e vidas que lhes são alheias, por definição e saúde. Por vezes gostaria de ser como algumas figuras que conheço, que escrevem directamente das entranhas sentimentos secretos e inéditos e publicam-nos na esperança que ninguém os leia. Uma legitimidade enviesada que sustenta o argumento vacilante do "não estava nada à espera disto" quando as reacções - positivas ou negativas - se fazem chegar de forma natural. Sim, estavam à espera. Sim, porque quem escreve, por mais recados que dê, por mais omissões ou elipses que faça quer sempre falar com alguém, seja o mundo ou o amor a que se tem rancor.
E basta essa assunção para tudo ser mais fácil. a vida, a morte, o tempo. Queremos - quero - falar com alguém. Foram duros estes dias, estão a sê-lo. A arrogância cega cansa-me e a tendência dos tempos para mais certezas e menos dúvidas repugna-me. E onde se lê 'tempos' leia-se pessoas.
Nada sabemos, nós os que ainda vivemos. Apenas podemos esperar o inesperado, como certifica Clarice. Apalpar às cegas as horas e o que nos é entregue sem mesmo assim termos a certeza de que iremos sobreviver. Neste périplo de quase 49 anos muito me foi oferecido; e o melhor, o que mais agradeço: os afectos e a dúvida. Ambos seguem uma lógica darwinista - sobrevivem os mais fortes. E são eles que me levam, as dúvidas e os afectos. É o que perdura e que atravessou o tempo que me serve de precária bússola, reassegurando-me do que sou e sobretudo do que não quero ser nem conhecer.
Quarenta e nove anos, mas de vida mais do que isso nos últimos dois calendários gregorianos. Tantos erros como deslumbres, tantas memórias como pesadelos - e tudo para guardar, preciosamente, numa caixa vítrea da memória, para não esquecer, para consultar. Mas nunca, nunca para viver. «Regret, there's always regret», dizia o grande poeta lúcido. Mas a separação do que ficou é o que mais nos ajuda à união do que está hoje e, com sorte, do que há-de vir.
Santo Agostinho escreveu que «o tempo vem do futuro, que ainda não existe, para o presente, que não tem existência, e some-se no passado, que deixou de existir». Envelhecer - ganhar vida - é perceber e regozijar nesta crença. O muito que fizémos permanece; o bom tem de ser mantido; o mau apenas lembrado e consultado. Tudo o resto - o olhar de espelho de feira dos outros que apenas conseguem ver o seu pobre reflexo; aqueles que louvam a obra mas que não se interessam pela vida; os outros que se auto-condenam à comiseração por excesso de vontades compradas em hipermercado: poder sobrevoar isso ao mesmo tempo que celebro as alegrias do aqui e agora legitimados por aquilo que fui sendo e ratificado pelos que verdadeiramente me amam e amo - eis o primeiro e derradeiro motivo para que as velas que irei apagar no próximo dia 9 de Outubro sejam mais do que desejos: sejam conquistas e gratidão.
E quando nos tiram as palavras, o nosso silêncio que nunca saberemos gritar? É um consolo.
A Verdade por si Mesma não Tem nenhum ValorHá uma coisa mais dolorosa do que nunca poder ouvir a verdade - é nunca poder exprimi-la, mesmo com a melhor vontade do mundo. Porque o que quer que digamos, o outro não escuta nunca a verdade que lhe queremos transmitir. Aquilo que sai dos nossos lábios e o que se passa na alma do outro, são sempre duas coisas diferentes. No instante seguinte deixa de ser semelhante - isso depende de tantas coisas que nada tinham a ver com a tua verdade e a tua vontade de verdade - isso depende do que o outro queria ouvir, da situação em relação a ti, etc...
E a verdade por si mesma não tem nenhum valor, é como uma moeda num país onde não é corrente.
Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'
E a verdade por si mesma não tem nenhum valor, é como uma moeda num país onde não é corrente.
Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'
sexta-feira, setembro 20, 2013
Trabalhos de casa, 1
Inventário da Melancolia
(Letra: Nuno Miguel Guedes; Música: Sidónio Pereira)
1.
Uma cidade cinzenta
Um rio que enjeita o mar
Uma raiva sonolenta
Uma saudade de amar
A sombra da felicidade
O que ficou por dizer
O fogo de uma vontade
Esta voz que quer morrer.
2.
Gestos que já não conheço
As mãos que tremem de frio
Este amor em que tropeço
A espuma atrás de um navio
Estas memórias que invento
E que levo a todo o lado
São o vulto do lamento
que mora neste meu fado.
[gravado em 2013 por Nádia Leirião e incluído em Discos do Povo #13)
(Letra: Nuno Miguel Guedes; Música: Sidónio Pereira)
1.
Uma cidade cinzenta
Um rio que enjeita o mar
Uma raiva sonolenta
Uma saudade de amar
A sombra da felicidade
O que ficou por dizer
O fogo de uma vontade
Esta voz que quer morrer.
2.
Gestos que já não conheço
As mãos que tremem de frio
Este amor em que tropeço
A espuma atrás de um navio
Estas memórias que invento
E que levo a todo o lado
São o vulto do lamento
que mora neste meu fado.
[gravado em 2013 por Nádia Leirião e incluído em Discos do Povo #13)
segunda-feira, julho 22, 2013
Reflexos de uma crise secreta
Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, de outro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.
Mal se pode mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.
In Ao triste estado, Frei Agostinho da Cruz
domingo, julho 14, 2013
Words and music: notas sobre canções,1
Hoje:
Get Lucky, Daft Punk
Há muitas coisas que a idade – ou a vida, que não se mede em
aniversários – nos entrega, à bruta. Se tivermos sorte e discernimento,
aguentamos o mau e proclamamos o bom. Se ainda assim tivermos mau feitio ou um
pequeno conselho que gostaríamos que ficasse em legado – bem, nessa altura quem
pode escreve posts como este, por natureza exactamente aquilo para que não
teríamos pachorra para ler em novos. Mas há esta maravilhosa inimputabilidade que
a idade vai dando e que pessoalmente me irá servir de argumento judicial quando
aos 80 anos assaltar a filial mais próxima do meu banco.
Mas devaneio.A razão de ser desta modesta rubriquinha é lembrar aos mais distraídos que todas as canções são feitas de música e palavras. As melhores, de resto, conseguem atingir esse estado supremo em que uma não se consegue dissociar da outra. Aquela música não suporta outras palavras e vice-versa. Não tem necessariamente a ver com harmonias complexas ou poesias arrevesadas: tem apenas a ver com a perfeição de uma canção, e que é possível apreciar sob um telescópio objectivo mesmo quando o nosso gosto nos impede. Isto é válido para Leonard Cohen, Cole Porter ou Ricardo Landum (a sério: podemos não gostar, podemos assobiar para o ar - mas a verdade é que a letra de Sai da Minha Vida, por mais pirosa que seja (e é) é perfeita para a melodia em que encaixa). Como as canções são meretrizes e a nossa vida um musical, agradeçam sempre se encontrarem o amor da vossa vida sob um Feelings ou Depois de Ti Mais Nada. A nossa banda sonora pessoal nem sempre bate com os afectos. E ainda bem.
Ao que interessa: vejo que desde sempre as palavras das canções são subestimadas e mais ainda se forem canções funcionais: para dançar, para combater, para chorar. Quem isto vos diz, crianças, é o tipo que perdeu namoradas atrás de namoradas por achar que tinha de explicar o My Girl dos Madness verso a verso, e provar com isso que aquela era a melhor descrição de um quotidiano relacionamento homem/mulher feito na década de 80:"Why can't she see", lamenta-se o pobre diabo injustiçado, "she's lovely to me/ But I like to stay in and watch tv / on my own every now and then?". A letra continua brilhante, eu apenas um pouco menos chato.
O leve desprezo que o povo tem em relação ao que é dito nas canções foi-me dramaticamente comprovado há muitos anos atrás, quando insuspeitos marialvas cantaram convictamente mas sem entenderem o Glad To Be Gay da Tom Robinson Band.
O mesmo desconhecimento acontece nas celebrações eufóricas cada vez que Get Lucky é chamado à pista. Como canção, nada a dizer: uma avalancha dançável, com o convite irrecusável de Nile Rodgers e os Daft Punk a darem um pontapé na inteligentsia, que torce o nariz ao «facilitismo comercial». Até aqui, perfeito.
Mas a celebração colectiva do refrão é a coisa mais triste desde que se achou que o Blue Monday era só outra canção para dançar.
I'm up all night to get some
She's up all night for good fun
I'm up all night to get lucky
Ok. Hedonismo, carpe diem, o caraças. Mas ó gerações, ouvi o Tio Guedes: se realmente praticam o que celebram e ficam acordados toda a noite to get lucky,isso só pode significar três coisas: ou são losers, ou estão sob drogas ou provavelmente ambos. Ide para casa. Esse «L» que as meninas vos mostram não quer dizer «lovers». Celebrai a vossa mediocridade, mas no sossego do lar. Ou assumam e dancem Beck, cantando aos gritos «soy un perdedor».
quarta-feira, junho 26, 2013
Late Night Bar Philosophers: the return.
«O palerma do filósofo francês não percebia nada de amor e muito menos de amores passados. Nos amores que ficam para trás, o hífen são as outras.»
sexta-feira, junho 21, 2013
«Modern life is rubbish»
Lembrei-me de uma frase engraçada. Não sei onde a colocar: aqui, no Facebook ou no Twitter?
Regressar onde se foi feliz
Tanto hesitei em regressar a este território. Mas insisti em
convencer-me que se trataria de um acto de resistência, um anacronismo
diletante que acabaria num depoimento contra ou a favor dos dias, contra ou a
favor da impossibilidade das palavras.
Não chegou. Disse então a mim próprio que seria um pretexto
para dar visibilidade às palavras de quem vive delas e agora não consegue
viver, por capricho desditoso do nosso tempo. Sem lamentos: se me pedem para
escrever de graça, ao menos que seja eu a fazê-lo à minha custa (e, receio, à
do leitor).
Mas depois. Depois esta surpresa, estas emoções confusas de,
três anos mais tarde, voltar a enfrentar uma vida que ficou a pairar num limbo
virtual. A vida, mesmo quando disfarçada ou em raros momentos, à flor da pele.
A perplexidade que existe sempre que revemos o eterno prefácio de nós próprios
que o ontem oferece. A indignação divertida do «não é possível!»; a
constatação não tão divertida do «antes escrevia muito melhor», ou «era menos
amargo».
Não interessa. Mais um regresso, com tudo o que isso
significa e me fascina: a possibilidade voltar a partir.
Formalmente, poucas são as mudanças: uma barra de links em
actualização, um novo mail, um novo lema retirado dos versos de António Freitas
para um fado de Amália e que é um credo pessoal e blindado.
Não há desculpas nem expectativas. Quem quiser entrar e
seguir na viagem é bem-vindo. Não sei quanto tempo irá durar. Mas desconfio que
essa incerteza faz parte do que me move.
NMG
quinta-feira, setembro 09, 2010
«A fine day for seeing»

Jackson Pollock,Number One, 1948
Digression On Number 1,1948
I am ill today but I am not
too ill. I am not ill at all.
It is a perfect day, warm
for winter, cold for fall.
A fine day for seeing. I see
ceramics, during lunch hour, by
Mir6, and I see the sea by Leger;
light, complicated Metzingers
and a rude awakening by Brauner,
a little table by Picasso, pink.
I am tired today but I am not
too tired. I am not tired at all.
There is the Pollock, white, harm
will not fall, his perfect hand
and the many short voyages. They'll
never fence the silver range.
Stars are out and there is sea
enough beneath the glistening earth
to bear me toward the future
which is not so dark. I see.
Frank O'Hara
*Hoje no Facebook alguém me mostrou um excerto de um episódio de Mad Men, em que Don Draper lê um poema de Frank O'Hara. Deste poeta lembrava-me deste Digression...., a partir do quadro que acima se vê. Uma coisa levou à outra. Oh Facebook, maldito sejas, quem quer «amigos» que não são reais blablablabla....Bullshit.

Jackson Pollock,Number One, 1948
Digression On Number 1,1948
I am ill today but I am not
too ill. I am not ill at all.
It is a perfect day, warm
for winter, cold for fall.
A fine day for seeing. I see
ceramics, during lunch hour, by
Mir6, and I see the sea by Leger;
light, complicated Metzingers
and a rude awakening by Brauner,
a little table by Picasso, pink.
I am tired today but I am not
too tired. I am not tired at all.
There is the Pollock, white, harm
will not fall, his perfect hand
and the many short voyages. They'll
never fence the silver range.
Stars are out and there is sea
enough beneath the glistening earth
to bear me toward the future
which is not so dark. I see.
Frank O'Hara
*Hoje no Facebook alguém me mostrou um excerto de um episódio de Mad Men, em que Don Draper lê um poema de Frank O'Hara. Deste poeta lembrava-me deste Digression...., a partir do quadro que acima se vê. Uma coisa levou à outra. Oh Facebook, maldito sejas, quem quer «amigos» que não são reais blablablabla....Bullshit.


