sexta-feira, setembro 20, 2013
segunda-feira, julho 22, 2013
Reflexos de uma crise secreta
Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, de outro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.
Mal se pode mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.
In Ao triste estado, Frei Agostinho da Cruz
domingo, julho 14, 2013
Words and music: notas sobre canções,1
Hoje:
Get Lucky, Daft Punk
Há muitas coisas que a idade – ou a vida, que não se mede em
aniversários – nos entrega, à bruta. Se tivermos sorte e discernimento,
aguentamos o mau e proclamamos o bom. Se ainda assim tivermos mau feitio ou um
pequeno conselho que gostaríamos que ficasse em legado – bem, nessa altura quem
pode escreve posts como este, por natureza exactamente aquilo para que não
teríamos pachorra para ler em novos. Mas há esta maravilhosa inimputabilidade que
a idade vai dando e que pessoalmente me irá servir de argumento judicial quando
aos 80 anos assaltar a filial mais próxima do meu banco.
Mas devaneio.A razão de ser desta modesta rubriquinha é lembrar aos mais distraídos que todas as canções são feitas de música e palavras. As melhores, de resto, conseguem atingir esse estado supremo em que uma não se consegue dissociar da outra. Aquela música não suporta outras palavras e vice-versa. Não tem necessariamente a ver com harmonias complexas ou poesias arrevesadas: tem apenas a ver com a perfeição de uma canção, e que é possível apreciar sob um telescópio objectivo mesmo quando o nosso gosto nos impede. Isto é válido para Leonard Cohen, Cole Porter ou Ricardo Landum (a sério: podemos não gostar, podemos assobiar para o ar - mas a verdade é que a letra de Sai da Minha Vida, por mais pirosa que seja (e é) é perfeita para a melodia em que encaixa). Como as canções são meretrizes e a nossa vida um musical, agradeçam sempre se encontrarem o amor da vossa vida sob um Feelings ou Depois de Ti Mais Nada. A nossa banda sonora pessoal nem sempre bate com os afectos. E ainda bem.
Ao que interessa: vejo que desde sempre as palavras das canções são subestimadas e mais ainda se forem canções funcionais: para dançar, para combater, para chorar. Quem isto vos diz, crianças, é o tipo que perdeu namoradas atrás de namoradas por achar que tinha de explicar o My Girl dos Madness verso a verso, e provar com isso que aquela era a melhor descrição de um quotidiano relacionamento homem/mulher feito na década de 80:"Why can't she see", lamenta-se o pobre diabo injustiçado, "she's lovely to me/ But I like to stay in and watch tv / on my own every now and then?". A letra continua brilhante, eu apenas um pouco menos chato.
O leve desprezo que o povo tem em relação ao que é dito nas canções foi-me dramaticamente comprovado há muitos anos atrás, quando insuspeitos marialvas cantaram convictamente mas sem entenderem o Glad To Be Gay da Tom Robinson Band.
O mesmo desconhecimento acontece nas celebrações eufóricas cada vez que Get Lucky é chamado à pista. Como canção, nada a dizer: uma avalancha dançável, com o convite irrecusável de Nile Rodgers e os Daft Punk a darem um pontapé na inteligentsia, que torce o nariz ao «facilitismo comercial». Até aqui, perfeito.
Mas a celebração colectiva do refrão é a coisa mais triste desde que se achou que o Blue Monday era só outra canção para dançar.
I'm up all night to get some
She's up all night for good fun
I'm up all night to get lucky
Ok. Hedonismo, carpe diem, o caraças. Mas ó gerações, ouvi o Tio Guedes: se realmente praticam o que celebram e ficam acordados toda a noite to get lucky,isso só pode significar três coisas: ou são losers, ou estão sob drogas ou provavelmente ambos. Ide para casa. Esse «L» que as meninas vos mostram não quer dizer «lovers». Celebrai a vossa mediocridade, mas no sossego do lar. Ou assumam e dancem Beck, cantando aos gritos «soy un perdedor».
quarta-feira, junho 26, 2013
Late Night Bar Philosophers: the return.
«O palerma do filósofo francês não percebia nada de amor e muito menos de amores passados. Nos amores que ficam para trás, o hífen são as outras.»
sexta-feira, junho 21, 2013
«Modern life is rubbish»
Lembrei-me de uma frase engraçada. Não sei onde a colocar: aqui, no Facebook ou no Twitter?
Regressar onde se foi feliz
Tanto hesitei em regressar a este território. Mas insisti em
convencer-me que se trataria de um acto de resistência, um anacronismo
diletante que acabaria num depoimento contra ou a favor dos dias, contra ou a
favor da impossibilidade das palavras.
Não chegou. Disse então a mim próprio que seria um pretexto
para dar visibilidade às palavras de quem vive delas e agora não consegue
viver, por capricho desditoso do nosso tempo. Sem lamentos: se me pedem para
escrever de graça, ao menos que seja eu a fazê-lo à minha custa (e, receio, à
do leitor).
Mas depois. Depois esta surpresa, estas emoções confusas de,
três anos mais tarde, voltar a enfrentar uma vida que ficou a pairar num limbo
virtual. A vida, mesmo quando disfarçada ou em raros momentos, à flor da pele.
A perplexidade que existe sempre que revemos o eterno prefácio de nós próprios
que o ontem oferece. A indignação divertida do «não é possível!»; a
constatação não tão divertida do «antes escrevia muito melhor», ou «era menos
amargo».
Não interessa. Mais um regresso, com tudo o que isso
significa e me fascina: a possibilidade voltar a partir.
Formalmente, poucas são as mudanças: uma barra de links em
actualização, um novo mail, um novo lema retirado dos versos de António Freitas
para um fado de Amália e que é um credo pessoal e blindado.
Não há desculpas nem expectativas. Quem quiser entrar e
seguir na viagem é bem-vindo. Não sei quanto tempo irá durar. Mas desconfio que
essa incerteza faz parte do que me move.
NMG
quinta-feira, setembro 09, 2010
«A fine day for seeing»

Jackson Pollock,Number One, 1948
Digression On Number 1,1948
I am ill today but I am not
too ill. I am not ill at all.
It is a perfect day, warm
for winter, cold for fall.
A fine day for seeing. I see
ceramics, during lunch hour, by
Mir6, and I see the sea by Leger;
light, complicated Metzingers
and a rude awakening by Brauner,
a little table by Picasso, pink.
I am tired today but I am not
too tired. I am not tired at all.
There is the Pollock, white, harm
will not fall, his perfect hand
and the many short voyages. They'll
never fence the silver range.
Stars are out and there is sea
enough beneath the glistening earth
to bear me toward the future
which is not so dark. I see.
Frank O'Hara
*Hoje no Facebook alguém me mostrou um excerto de um episódio de Mad Men, em que Don Draper lê um poema de Frank O'Hara. Deste poeta lembrava-me deste Digression...., a partir do quadro que acima se vê. Uma coisa levou à outra. Oh Facebook, maldito sejas, quem quer «amigos» que não são reais blablablabla....Bullshit.

Jackson Pollock,Number One, 1948
Digression On Number 1,1948
I am ill today but I am not
too ill. I am not ill at all.
It is a perfect day, warm
for winter, cold for fall.
A fine day for seeing. I see
ceramics, during lunch hour, by
Mir6, and I see the sea by Leger;
light, complicated Metzingers
and a rude awakening by Brauner,
a little table by Picasso, pink.
I am tired today but I am not
too tired. I am not tired at all.
There is the Pollock, white, harm
will not fall, his perfect hand
and the many short voyages. They'll
never fence the silver range.
Stars are out and there is sea
enough beneath the glistening earth
to bear me toward the future
which is not so dark. I see.
Frank O'Hara
*Hoje no Facebook alguém me mostrou um excerto de um episódio de Mad Men, em que Don Draper lê um poema de Frank O'Hara. Deste poeta lembrava-me deste Digression...., a partir do quadro que acima se vê. Uma coisa levou à outra. Oh Facebook, maldito sejas, quem quer «amigos» que não são reais blablablabla....Bullshit.
quarta-feira, setembro 08, 2010
Come Undone
So rock 'n' roll, so corporate suit
So damn ugly, so damn cute
So well-trained, so animal
So need your love, so fuck you all
I'm not scared of dying, I just don't want to
If I stop lying, I'll just disappoint you
Há um grande letrista menosprezado no mundo pop: Robbie Williams. Em breve explicarei tudo, num blogue perto de si.E não vai ser aqui.
So rock 'n' roll, so corporate suit
So damn ugly, so damn cute
So well-trained, so animal
So need your love, so fuck you all
I'm not scared of dying, I just don't want to
If I stop lying, I'll just disappoint you
Há um grande letrista menosprezado no mundo pop: Robbie Williams. Em breve explicarei tudo, num blogue perto de si.E não vai ser aqui.
quinta-feira, agosto 26, 2010
Mother, Summer, I
My mother, who hates thunder storms,
Holds up each summer day and shakes
It out suspiciously, lest swarms
Of grape-dark clouds are lurking there;
But when the August weather breaks
And rains begin, and brittle frost
Sharpens the bird-abandoned air,
Her worried summer look is lost,
And I her son, though summer-born
And summer-loving, none the less
Am easier when the leaves are gone
Too often summer days appear
Emblems of perfect happiness
I can't confront: I must await
A time less bold, less rich, less clear:
An autumn more appropriate.
Philip Larkin
My mother, who hates thunder storms,
Holds up each summer day and shakes
It out suspiciously, lest swarms
Of grape-dark clouds are lurking there;
But when the August weather breaks
And rains begin, and brittle frost
Sharpens the bird-abandoned air,
Her worried summer look is lost,
And I her son, though summer-born
And summer-loving, none the less
Am easier when the leaves are gone
Too often summer days appear
Emblems of perfect happiness
I can't confront: I must await
A time less bold, less rich, less clear:
An autumn more appropriate.
Philip Larkin
domingo, agosto 22, 2010
Shaken and Stirred: a tribute to Dorothy Parker
Dorothy Parker, crítica,poeta, escritora, wit extraordinaire. Nascida a 22 de Agosto de 1893.
segunda-feira, agosto 16, 2010
quarta-feira, agosto 11, 2010
Pursewarden dirá umas palavras:
«Aware of every discord, of every calamity in the nature of man himself, [the artist] can do nothing to warn his friends, to point, to cry out on time and to try to save them. It would be useless. For they are the deliberate factors of their own unhappiness. All the artist can say as an imperative is: 'Reflect and weep'.
Lawrence Durell, Balthazar (vol.II do Quarteto de Alexandria)
«Aware of every discord, of every calamity in the nature of man himself, [the artist] can do nothing to warn his friends, to point, to cry out on time and to try to save them. It would be useless. For they are the deliberate factors of their own unhappiness. All the artist can say as an imperative is: 'Reflect and weep'.
Lawrence Durell, Balthazar (vol.II do Quarteto de Alexandria)
domingo, agosto 01, 2010
DO PRÓPRIO ABORRECIMENTO
Que guerra tão cruel trago comigo,
Comigo de quem sempre ando ferido,
Pois para nunca ser de mim vencido,
A mim comigo mesmo me persigo.
Vou contra mim se não me contradigo,
Se não me ofendo, sinto-me ofendido,
E como sou de mim tão combatido,
De mim mesmo me fiz fero inimigo.
Vejo-me contra Deus adversário,
Com cuja disciplina só me instruo,
E assim nunca comigo me conformo.
De mim mesmo me sinto tão contrário,
Que quando me reformo, me destruo
E quando me destruo, me reformo.
Baltasar Estaço
Que guerra tão cruel trago comigo,
Comigo de quem sempre ando ferido,
Pois para nunca ser de mim vencido,
A mim comigo mesmo me persigo.
Vou contra mim se não me contradigo,
Se não me ofendo, sinto-me ofendido,
E como sou de mim tão combatido,
De mim mesmo me fiz fero inimigo.
Vejo-me contra Deus adversário,
Com cuja disciplina só me instruo,
E assim nunca comigo me conformo.
De mim mesmo me sinto tão contrário,
Que quando me reformo, me destruo
E quando me destruo, me reformo.
Baltasar Estaço





