
(A leste do Paraíso, Elia Kazan)
«Acho inúteis as palavras/ quando o silêncio é maior» nunomiguelguedes64@gmail.com
Às vezes o mundo que existe nas palavras morre de excesso de vida. Gasta-se pelo uso e pelo tempo, como o ferro e o amor do sermão de António Vieira. Fica um esqueleto oco, apenas funcional; e nalguns casos – raros – um eco, que ao ressoar através dos dias nos devolve o muito que a palavra significou e nunca conseguiu dizer.
«Nostalgia» é uma dessas palavras que lentamente fomos esvaziando, numa agonia cada vez mais dolorosa e irreversível. De tão utilizada já de nada nos serve. A sua omnipresença é a sua certidão de óbito: vemo-la desperdiçada nas nossas vidas, distante do lugar etéreo que deveria ocupar. Não é como a saudade, com a qual muita gente tende a confundir. A nostalgia é um lugar idealizado, sem dor nem lados sombrios. É a Disneylândia da memória, onde todos queremos voltar. Ao contrário da saudade, que inapelavelmente traz com ela o mais o pesado dos fardos: o ser verdade.
Desconfio francamente de quem hoje se diz um nostálgico – e isto inclui-me, que por vezes não resisto a esse território do «era uma vez», a tentadora «land of lost content» de Housman onde, para nosso descanso e preguiça, nunca poderemos regressar. E é tão fácil: basta uma fotografia de um dia em que fomos felizes ou jovens ou ambos; uma canção que nos atira para um amor antigo, uma casa bem conservada, uma paisagem que nos é familiar. E é inevitável, ao que parece: este nostálgico renitente que vos escreve vê-se de repente no meio de jantares de colegas da escola primária com outros nostálgicos ainda mais improváveis. Ementa obrigatória e sugerida pelos comensais: doces memórias, histórias de graças e alegrias, que deixam de fora as raivas, brigas e tristezas de ocasião essenciais para uma infância feliz.
O problema é que mesmo quem consiga evitar todas estas armadilhas naturais – e assim de repente não conheço nenhum individuo criado sob uma civilização ocidental que o consiga – ainda leva com outra terrível maquinação do nosso tempo – a nostalgia induzida e, por consequência, banalizada. Hoje mede-se por décadas: a «nostalgia dos anos 80», por exemplo, já fez que eu criasse anti-corpos contra a minha própria adolescência e juventude. São memórias impostas a quem tudo descobria nessa altura; com a diferença de que agora os «nostálgicos» são potenciais consumidores com um poder de compra mais ou menos confortável que lhes permite comprar recordações. E depois há os nostálgicos de um tempo que não viveram. A esses devemos, em regra, a modernidade.
O problema dos dias, dos meus dias, é este: não me importo de ter saudades mas Deus me livre da nostalgia. É urgente desaprendê-la para voltarmos a senti-la outra vez.
(publicado originalmente aqui)
Ladies and gentlemen, are you ready to welcome a man heavier than the Empire State, more connected than the Twin Towers, as recognizable as the Statue of Liberty, and living proof that God is a Catholic!»


Quando me pediram uma crónica para este número voltei ao disco da Ana, que já não ouvia há algum tempo. E quando chegou o fado em que colaborei, os versos de abertura apontaram-me um dedo irónico e invisível: «Não há vocábulo maior/ Nem força do universo/ P’ra traduzir esse verso/ Que confunde amor e dor». Pobre idiota: tinha acabado de descrever a saudade.
Essa palavra saudade. Ninguém a quer mas nós, portugueses, nascemos com ela. Sempre desconfiei de positivismos mas sobre este assunto sou particularmente feroz: é atavismo nacional e mais nada. Não há ciência que o possa explicar. A parte bonita – e ao mesmo tempo triste – é que espalhámos a saudade como uma pandemia. E no entanto não a conseguimos traduzir, a não ser no momento em que a sentimos. De nada valem os esforços para lhe arranjar étimos distantes: a teoria mais aceite é que provenha do latim solitas, solitatis (para solidão) e que tenha sofrido influência dos vocábulos latinos para ‘saúde’ ou ‘saudar’. Pouco importa: é objectivamente intraduzível. Há cinco anos atrás uma empresa de tradução britânica, a Today Translations, elaborou uma lista das mais difíceis palavras de traduzir. ‘Saudade’ ficou em sétimo lugar. A concorrência, há que dizê-lo, era de peso: em primeiro lugar ficou a expressão congolesa ‘ilunga’, que quer dizer mais ou menos (espero que tenham tempo para o que se segue) «pessoa que está disposta a perdoar maus tratos pela primeira, pela segunda mas nunca pela terceira vez». Justo vencedor. Outra difícil era a polaca ‘radioukacz’: «alguém que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da Cortina de Ferro». Mais perto de nós, em todos os sentidos, está outra palavra intraduzível, a árabe ‘altaham’, que significa um tipo de profunda tristeza. E depois vem a saudade: em sétimo lugar, sim – mas a única cujo significado não é consensual.
Mas não é só a dificuldade de tradução ou descrição que torna difícil falar de saudade sem apelar a artes poéticas ou, no pior dos casos, ao lugar comum. É o anacronismo do próprio sentimento que a palavra evoca. Saudade, pensava eu, já não pertence a este tempo de comunicações rápidas, práticas mas impessoais. Faz sentido nos momentos mais solitários ou em utilizações estéticas mas não se fala disso no dia a dia com o significado que merece. A saudade, neste espírito do tempo em que imperam emails, redes sociais e sms escritos em estranho dialecto, corre o risco de extinção. As gerações mais novas não têm tempo para sentir saudades, quando a distância pode ser vencida através de um computador e uma web cam. Como é hábito, não tenho razão.
A saudade existe, e está viva nos novos portugueses. Encontra-se nos lugares mais improváveis, mas é a mesma. Talvez apareça noutra forma, em versão 2.0, mas está lá e é fácil prová-lo. Tome-se o caso da mais popular rede social da Web, o Facebook. Mais de 124 milhões de almas comunicam entre si todos os dias através desta ferramenta. É um óptimo lugar para se reencontrar amizades que se julgavam perdidas, ou despertar paixões que se julgavam controladas. De certo modo, apesar de não ser a vida, é um lugar perigoso porque nos pode devolver o passado de uma forma violenta e inoportuna. Um amigo pode ter aquela fotografia de 1979 que nós já não queríamos ver e expô-la para risota da comunidade; ou através de um rosto entrevisto num inocente registo de uma festa de liceu, mudar toda uma vida pelo simples poder de uma lembrança.
Pois é aqui que a saudade também vive. Os utilizadores não-portugueses do Facebook têm comentários típicos às memórias que lhes são apresentadas: «Lembro-me bem desse dia: que grande bebedeira» ou outras constatações objectivas são o limite a que se atrevem. Os portugueses não: vêem um lugar, uma pessoa, uma canção e a resposta é imediata: «que saudades!». Pode ser uma saudade ligeira, passageira – mas é saudade, exactamente aquela que ficou no sétimo lugar das palavras intraduzíveis. Agora mesmo li no perfil de uma rapariga portuguesa e utilizadora desta rede o seguinte:«A melhor definição da palavra ‘saudade’ está nesta letra de Chico Buarque. Arrepiante…». Segue-se o YouTube da canção Pedaço de Mim. Acho que por aqui estamos conversados.
Sentir saudade não é um privilégio nem exclusivo nacional. Nós apenas nascemos assim. Dante, n’A Divina Comédia, já colocava os amantes condenados no Inferno a falarem da saudade:«Nessun maggior dolore/che ricordarse del tempo felice/ne la miséria(..)». Em Portugal, Bernardim Ribeiro escreve o mesmo, de forma ainda mais bela, no Menina e Moça :« (…) a tanta tristeza cheguei, que mais me pesava do bem que tive que do mal que tinha». Isto para não falar de Camões ou Pascoaes. O que eu acho é que se estivessem vivos provavelmente teriam hoje um perfil aberto no Facebook.
(crónica publicada em Agosto no suplemento «Nós», do jornal 'i')

O que existe é a possibilidade de aprender, de ouvir contar boas histórias. É o que acontece num programa da RTP2 com o título Vida Intima das Obras-Primas. O que se pretende é contar histórias e segredos a partir de uma determinada obra e o seu autor. O resultado é sempre fascinante e muitas vezes melhor do que a obra em análise.
A emissão da semana passada foi dedicada à Ressurreição, de Piero della Francesca (que podem ver aqui), quadro que adoro e que tive o prazer de observar ao vivo. Falou-se da vida do pintor, da sua extraordinária modernidade – foi o primeiro a introduzir a perspectiva perfeita, através de complicadas fórmulas matemáticas), dos segredos por detrás dos modelos, dos pormenores, dos filisteus que no século XVIII decidiram caiar por cima do fresco, dos quadros que inspirou, da sua entrada até na cultura pop (a célebre cópia feita por um artista de Manchester em que os guardas da pintura eram substituídos por jogadores do United – com destaque para Eric Cantona, que era representado como o Cristo ressuscitado…)
Mas houve uma estória em particular que me interessou, por ter criado uma suspension of disbelief em relação à Humanidade. Passou-se durante a II Guerra Mundial; os aliados tinham invadido Itália e uma divisão inglesa estava encarregue de ocupar Florença e bombardear San Sepolcro – o lugar onde está, no Palazzo Comunale, o fresco de della Francesca. A comandar a divisão de artilharia destinada a bombardear as posições alemãs estava um jovem oficial chamado Anthony Clark - «a bit of a dandy», lembrou no programa um seu camarada de armas. «Como estávamos de uniforme e não se podia mexer na farda, o Tony começou a fumar de boquilha para ser diferente. Deve ter sido o único oficial do exército que fumou de boquilha em toda a guerra». Acontece que Clark era também um ávido leitor. E o nome de San Sepolcro lembrava-o de qualquer coisa que tinha lido. Até que veio a epifania: San Sepolcro tinha sido referido num livro de viagens de Aldous Huxley como o lugar que continha «a maior pintura do mundo». E foi assim que Clark deu ordem para cessar fogo – para salvar uma pintura que nunca tinha visto mas que tinha lido e acreditava. Escusado será dizer que os alemães agradeceram e rasparam-se.
Pela arte, salvaram-se vidas; pela palavra e a crença num autor salvou-se a arte. E, nem que fosse por um mínimo momento, graças a Clark, tivemos a iusão de que a civilização sobrevirá à barbárie.
