domingo, março 28, 2010
sábado, março 27, 2010
«26 de Agosto [de 1941], terça-feira à tarde
Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.
Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Esses procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondam nas mãos, penso que essas pessoas procuram Deus dentro de si.»
Diário, Etty Hillesum (Assírio&Alvim, trad. do neerlandês de Maria Leonor Raven-Gomes)
Já há muito tempo que deixava que os meus dias depositassem «pedras e cascalho» no meu «poço». Nem Deus nem sequer a suspeita do eco de mim eu já ouvia como gostaria. Hoje, longe do mundo e perto de outros, ouvi mais sobre esta mulher e a sua extraordinária história. Aprendi como é possível uma teologia da falibilidade, que nasce e floresce no meio do Mal Absoluto, na noite mais negra que o século passado (que a Humanidade?) conheceu. Como é possível aceitar a Cruz e um Deus que precisa de ser ajudado por nós porque muitas vezes é um Deus impotente perante os homens.
A religião e a arte são coisas práticas, que só fazem sentido se vividas no quotidiano - hoje, agora, em todos os gestos. Antes, suplicava com o personagem de Greene:«Deus, sei que te abandonei; não me abandones tu!».Agora, com mais esta voz, há forças para dizer «Deus, deixa-me ajudar-Te, preservando o que há de Ti em mim, aconteça o que acontecer».
Algumas pedras moveram-se, já se nota um fundo no poço.
terça-feira, março 23, 2010
XV.
Toda a pessoa que ama empalidece ao ver quem ama.
(mais beleza e completa aqui)
quinta-feira, março 11, 2010
terça-feira, março 09, 2010
Às vezes o mundo que existe nas palavras morre de excesso de vida. Gasta-se pelo uso e pelo tempo, como o ferro e o amor do sermão de António Vieira. Fica um esqueleto oco, apenas funcional; e nalguns casos – raros – um eco, que ao ressoar através dos dias nos devolve o muito que a palavra significou e nunca conseguiu dizer.
«Nostalgia» é uma dessas palavras que lentamente fomos esvaziando, numa agonia cada vez mais dolorosa e irreversível. De tão utilizada já de nada nos serve. A sua omnipresença é a sua certidão de óbito: vemo-la desperdiçada nas nossas vidas, distante do lugar etéreo que deveria ocupar. Não é como a saudade, com a qual muita gente tende a confundir. A nostalgia é um lugar idealizado, sem dor nem lados sombrios. É a Disneylândia da memória, onde todos queremos voltar. Ao contrário da saudade, que inapelavelmente traz com ela o mais o pesado dos fardos: o ser verdade.
Desconfio francamente de quem hoje se diz um nostálgico – e isto inclui-me, que por vezes não resisto a esse território do «era uma vez», a tentadora «land of lost content» de Housman onde, para nosso descanso e preguiça, nunca poderemos regressar. E é tão fácil: basta uma fotografia de um dia em que fomos felizes ou jovens ou ambos; uma canção que nos atira para um amor antigo, uma casa bem conservada, uma paisagem que nos é familiar. E é inevitável, ao que parece: este nostálgico renitente que vos escreve vê-se de repente no meio de jantares de colegas da escola primária com outros nostálgicos ainda mais improváveis. Ementa obrigatória e sugerida pelos comensais: doces memórias, histórias de graças e alegrias, que deixam de fora as raivas, brigas e tristezas de ocasião essenciais para uma infância feliz.
O problema é que mesmo quem consiga evitar todas estas armadilhas naturais – e assim de repente não conheço nenhum individuo criado sob uma civilização ocidental que o consiga – ainda leva com outra terrível maquinação do nosso tempo – a nostalgia induzida e, por consequência, banalizada. Hoje mede-se por décadas: a «nostalgia dos anos 80», por exemplo, já fez que eu criasse anti-corpos contra a minha própria adolescência e juventude. São memórias impostas a quem tudo descobria nessa altura; com a diferença de que agora os «nostálgicos» são potenciais consumidores com um poder de compra mais ou menos confortável que lhes permite comprar recordações. E depois há os nostálgicos de um tempo que não viveram. A esses devemos, em regra, a modernidade.
O problema dos dias, dos meus dias, é este: não me importo de ter saudades mas Deus me livre da nostalgia. É urgente desaprendê-la para voltarmos a senti-la outra vez.
(publicado originalmente aqui)
segunda-feira, março 08, 2010
A não perder estes encontros na Capela do Rato. E já que foram parar ao sítio do Secretariado Nacional da Pastoral de Cultura, aproveitem e passeiem o olhar pelos magníficos textos. Não é preciso partilhar uma confissão religiosa para reconhecer beleza e inteligência.
sábado, fevereiro 20, 2010
(com nome e tudo. Magnífico trabalho desta rapaziada)
sábado, fevereiro 13, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
segunda-feira, janeiro 25, 2010
quinta-feira, janeiro 21, 2010
segunda-feira, janeiro 18, 2010
Albergue Espanhol;Professor José Cid ; Da Última Fila; Córtex Frontal. Tudo excelentes razões para acabar com este blogue, pela pouca falta que faz.
«Brigitte fazia parte dessa curiosa categoria de mulheres precisas. Sobre cada assunto ela era incapaz de emitir a mínima opinião aleatória. O mesmo aplicava-se à sua beleza: levantava-se cada manhã com a glória a cobrir-lhe o rosto. Perfeitamente segura de si mesma, sentava-se todos os dias na primeira fila, procurando por vezes desestabilizar os professores masculinos, jogando com o seu encanto evidente para fazer desviar as implicações da geopolítica. Quando entrava numa sala os homens sonhavam de imediato e as mulheres detestavam-na por instinto. Era o objecto de todos os fantasmas, o que acabou por maçá-la. Teve então essa inspiração genial para acalmar os ardores: sair com o mais insignificante dos rapazes. Assim, os machos seriam afastados e as raparigas reasseguradas. Markus foi o feliz eleito, sem compreender porque é que subitamente o centro do mundo se interessava por ele. Era como se os Estados Unidos convidassem o Liechenstein para almoçar.»
David Foenkinos, La Délicatesse (trad.NMG)






