segunda-feira, julho 20, 2009
Deploro todos os que consideram que a televisão deve «educar» ou «apresentar exemplos». Parece-me que é pedir muito de um electrodoméstico e nessa perspectiva considero as associações de telespectadores uma das inutilidades mais maçadoras no planeta.
O que existe é a possibilidade de aprender, de ouvir contar boas histórias. É o que acontece num programa da RTP2 com o título Vida Intima das Obras-Primas. O que se pretende é contar histórias e segredos a partir de uma determinada obra e o seu autor. O resultado é sempre fascinante e muitas vezes melhor do que a obra em análise.
A emissão da semana passada foi dedicada à Ressurreição, de Piero della Francesca (que podem ver aqui), quadro que adoro e que tive o prazer de observar ao vivo. Falou-se da vida do pintor, da sua extraordinária modernidade – foi o primeiro a introduzir a perspectiva perfeita, através de complicadas fórmulas matemáticas), dos segredos por detrás dos modelos, dos pormenores, dos filisteus que no século XVIII decidiram caiar por cima do fresco, dos quadros que inspirou, da sua entrada até na cultura pop (a célebre cópia feita por um artista de Manchester em que os guardas da pintura eram substituídos por jogadores do United – com destaque para Eric Cantona, que era representado como o Cristo ressuscitado…)
Mas houve uma estória em particular que me interessou, por ter criado uma suspension of disbelief em relação à Humanidade. Passou-se durante a II Guerra Mundial; os aliados tinham invadido Itália e uma divisão inglesa estava encarregue de ocupar Florença e bombardear San Sepolcro – o lugar onde está, no Palazzo Comunale, o fresco de della Francesca. A comandar a divisão de artilharia destinada a bombardear as posições alemãs estava um jovem oficial chamado Anthony Clark - «a bit of a dandy», lembrou no programa um seu camarada de armas. «Como estávamos de uniforme e não se podia mexer na farda, o Tony começou a fumar de boquilha para ser diferente. Deve ter sido o único oficial do exército que fumou de boquilha em toda a guerra». Acontece que Clark era também um ávido leitor. E o nome de San Sepolcro lembrava-o de qualquer coisa que tinha lido. Até que veio a epifania: San Sepolcro tinha sido referido num livro de viagens de Aldous Huxley como o lugar que continha «a maior pintura do mundo». E foi assim que Clark deu ordem para cessar fogo – para salvar uma pintura que nunca tinha visto mas que tinha lido e acreditava. Escusado será dizer que os alemães agradeceram e rasparam-se.
Pela arte, salvaram-se vidas; pela palavra e a crença num autor salvou-se a arte. E, nem que fosse por um mínimo momento, graças a Clark, tivemos a iusão de que a civilização sobrevirá à barbárie.
quinta-feira, julho 09, 2009
terça-feira, julho 07, 2009
segunda-feira, julho 06, 2009
Batukas, sweet sweet child: é verdade que eu não sou muito de correntes, mas vindo de ti eu teria gosto. Acontece que não tenho e abomino i-pod's, i-tunes, mp3 players e coisas assim, o que torna impossível a minha resposta. Desculpa-me, linda. E enquanto fico à espera da próxima vou continuando a pintar os meus bisontes aqui em Altamira.
quinta-feira, junho 25, 2009

Primeira final da Taça de Portugal. A Associação Académica de Coimbra vence o Benfica por 4-3. Honra a Tibério, José Maria Antunes, César Machado, Portugal, Faustino, Octaviano,Manuel da Costa, Alberto Gomes, Arnaldo Carneiro, Nini e Pimenta, equipa que entrou de início nas Salésias; e ao seu treinador, Albano Paulo.
quarta-feira, junho 24, 2009
Apesar de «britânico» ainda não estou convencido do ténis do senhor. Cresceu muito, tem valor e veste equipamento clássico Fred Perry com as iniciais, o que fez com que, pelo menos, tivesse conseguido evitar a fase Axl Rose de Agassi - muito comum nos «meninos rebeldes». Queria Federer na final. Com quem ainda não sei. Gostei muito do jogo Djokovic - Benneteau e de um ou outro que agora se me escapa. Sei que não quero o Verdasco, mas penso que ele irá tratar disso. Na verdade, até agora, a pint e o crepe chinês são os únicos valores seguros de Wimbledon 2009, pelo que teremos de aproveitar.
terça-feira, junho 23, 2009
terça-feira, junho 16, 2009
Mesmo ligado à máquina, este blogue, que ora se finou, era melhor do que a maioria. Percebo o fim, mas fico triste.
segunda-feira, junho 15, 2009
Talvez seja da idade ou da sabedoria ou da precedência de uma sobre outra, mas a verdade é que quando oiço o slogan estafado do «direito à preguiça» já não consigo sorrir. Primeiro porque alguém teve o trabalho de dizer semelhante coisa; depois porque pura e simplesmente não faz sentido. A preguiça está longe de ser um «direito» que necessita ser conquistado pelo simples facto de ser uma característica inata a qualquer ser humano. Ou se usa ou não se usa, ponto. Pelo ócio sim, vale a pena lutar. Mas lutar pelo ócio – algo nobre e como dizia Óscar Wilde, a coisa «mais difícil e a mais intelectual» - dá trabalho e nisso não vão os preguiçosos. O ócio é a ausência de actividade prática que se pode transformar noutra contemplativa ou egoísta e simples, como provar um bom vinho, ler em silêncio ou olhar o mar. A preguiça é uma pura recusa da actividade. É uma solução fácil, como fáceis são todas as soluções niilistas. Mas não tem graça nem compensa. Eu sei. Já fui preguiçoso.
É fácil ser preguiçoso em Portugal. O país está feito para isso. Na verdade, o diagnóstico correcto não será preguiça - nós, os especialistas, preferimos «procrastinação»: o deixar para o dia seguinte, adiar, demorar, delongar. António Variações, com a sabedoria de Nova Iorque misturada com a legitimidade de Braga topou tudo: «É para amanhã/deixa lá não faças hoje». Podia ser o hino nacional. Como minha defesa – a defesa de um ex-preguiçoso – tenho uma inteira cultura, um inteiro país. Durante anos e anos adiei decisões, assinaturas, vocações, amores, respostas, prazos. Enlouqueci colegas e superiores por achar que amanhã é outro dia. Errei: nunca compensou ser preguiçoso, como estou convencido que a diligência exagerada também não interessa a ninguém.
Mas como combater esta doce doença, que nos corre no sangue há séculos? De Vieira a Pessoa, ela foi diagnosticada: o messianismo à portuguesa pode ser belo, mas é a mais bela e literária forma de preguiça. Alguém há-de chegar, seja o Messias ou o Império do Espírito Santo, que irá colocar tudo na ordem. Entretanto, trabalhar para merecer isso é que não.
Ainda há pouco tempo ouvi este extraordinário diálogo, que de tão real parece fictício: na fila do supermercado, uma mulher perguntava a outra se já sabia de cor o número do telemóvel novo. Resposta pronta: «Vou sabendo». Vou sabendo: Portugal é este gerúndio contínuo, lânguido, doce e resignado. É o tempo verbal dos nossos políticos porque é o tempo verbal dos nossos eleitores. Ninguém se queixa, ninguém discute – vai-se sabendo, vai-se vivendo. É também a nossa maior exportação, como é prova o Brasil ou os países africanos lusófonos.
Apesar de estar em franca recuperação sei que este atavismo nacional nunca se irá separar de mim completamente. Todos os dias luto com a tentação de fintar prioridades só porque sim. Mesmo ao escrever esta crónica, o primeiro estado de espírito foi : «Vou escrever, mas agora não me apetece». Ainda vivo um pouco no limbo bem definido pelo filósofo Reininho quando escreveu «Faz-me impressão o trabalho/a inércia faz-me mal. É um combate longo, sem tréguas, e particularmente relevante para um conservador céptico como eu, que acredita que o dia de hoje é que conta. O preguiçoso puro é, de certa forma, um optimista inútil (passe a redundância), que crê sem dificuldades no amanhã que tudo resolve.
Quando o atleta olímpico Marco Fortes, depois de ter confessado um truísmo («De manhã está-se bem é na caminha»), foi acusado de ser preguiçoso ninguém compreendeu a injustiça. A preguiça não é uma situação, é um estilo de vida. É uma rendição lenta ao tempo, às horas, a nós próprios que só pode dar mau resultado. Vê-se a vida devagar a passar ao lado, com um aceno e um sorriso, para nunca mais voltar. Vemos amigos, amantes, instantes que nunca mais irão voltar por nossa exclusiva culpa. E depois, como Portugueses que somos, dedicamo-nos com afinco à única coisa em que colocamos empenho – a saudade.
A preguiça não é um direito, é uma praga. Já nem falo daquela que é considerada pecado mortal, para mim muito mais séria, e que se traduz por uma indiferença a Deus e ao caminho do Bem. São Tomás de Aquino chamava-a de ‘acedia’, uma espécie de tristeza espiritual em relação à crença e à prática e opunha-lhe a Caridade. Dante colocou os pecadores por Preguiça no Purgatório, onde a sua penitência consistia em andarem eternamente atarefados de um lado para o outro sem o direito a uma oração sequer. Esta sim, aterroriza-me, mas sei que para isso é preciso ter Fé. A outra, aquela com que nós lidamos no quotidiano pode ser atenuada. Podemos agir. Podemos conjugar, com felicidade e propriedade, o presente do indicativo. Porque a alternativa, descobri eu, é triste: é acordar um dia e descobrir que a nossa vida já chegou tarde.
(crónica publicada no suplemento «Nós», do jornal i, 13 de Junho 2009)
*não coloco a ilustração do Pedro Vieira por puro despeito e inveja.





