domingo, abril 08, 2007
Erroll Garner foi e é um dos grandes pianistas jazz. Autor de um dos mais conhecidos standards - Misty -, Garner foi um autodidacta, que não sabia ler uma pauta. Mas como músico foi dos mais criativos e com um estilo pessoal marcadíssimo: a mão esquerda que fazia os acordes da melodia como uma guitarra rítmica e a direita a fazer as frases com um ligeiro atraso no tempo. Esta versão do supino All The Things You Are, de Jerome Kern - uma melodia complexa e que contém a mais milagrosa transição do B para o A - é um excelente exemplo. Enlevo puro, digo eu.
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O extraordinário Spike Jones e a sua delirante orquestra. Um maravilhoso sentido do absurdo, cartoonesco (um dia ponho aqui a sua colaboração com o grande Mel 'What's up Doc?' Blanc - e músicos virtuosos a destruirem alegremente todos os temas que tinham algum sucesso nesses dias. Divirtam-se.
A DIGNIDADE DA ALMA E VAIDADE DA VIDA
Quem pudesse mostrar o que tem na alma
Pera desenganar em tudo a vida!
Mas não sinto ninguém que trate da alma
E todos a esperança põem na vida.
O Céu é o verdadeiro lugar da alma,
E à terra basta dar-lhe o corpo e a vida,
Pois não podem ter fim os males da alma,
E passam, como sombra, os bens da vida.
Se queremos saber o preço da alma,
Vejamos que pôs Deus por ela a vida,
E viveremos n'Ele, Ele em nossa alma.
O mundo é sonho vão que enlêa a vida.
Quem nele está melhor, tem pior alma,
E quem o desprezou tem alma e vida.
Sonetos, Frei Agostinho da Cruz
quarta-feira, abril 04, 2007
terça-feira, abril 03, 2007
segunda-feira, abril 02, 2007
*E um grande beijinho, pois claro!
domingo, abril 01, 2007
The Ruts, em 1980, numa das últimas - talvez mesmo a última - actuações do vocalista Malcolm Owen,que morreria pouco depois com uma overdose de heroína. Para quem não está familiarizado com o termo, «rude» ou «rudy» designa um membro de uma subcultura jamaicana ligada à musica ska e rocksteady, que passou para Inglaterra através dos seus emigrantes. A canção, Staring At The Rude Boys, descreve maravilhosamente o encontro nem sempre amigável entre as várias tribos (punks, rude boys, skins de esquerda e de direita). Mas para mais, consultem a wikipedia, que hoje estou preguiçoso.
*para o Francisco Mendes da Silva
sábado, março 31, 2007
The tiny remark that tortures you
The fear that your friends won't like her too
I'm glad that I'm not young anymore
The longing to end the stale affair
Until you find out she doesn't care
I'm glad that I'm not young anymore.
No more frustration
No star-crossed lover am I
No aggravation
Just one reluctant reply :"Lady, goodbye!"
(I'm glad I'm not young anymore, Lerner/Loewe)
*but not just yet.
Versão cantada do tema de baixo. Sinatra canta These Foolish Things em 1946, ainda no chamado «período CBS». A sua voz era ainda de um barítono bem domesticado, ao gosto da época. Apesar de ainda estar longe da voz de fumo e vida que ganhou a partir de 1950, nota-se já o fraseado original, as respirações fora de tempo, como se fosse um instrumento a fazer o seu solo. Favor fechar os olhos e ouvir.
Eis uma introdução ideal ao mundo do jazz: a extraordinária versão de These Foolish Things, efectuada pelo quarteto de Dave Brubeck em 1959. Recomendo particular atenção ao sax alto de Paul Desmond, delicado, contornando a frase, envolvendo-a. Um momento maravilhoso. Quanto ao tema, é uma enorme canção, interpretada por todos os de bom gosto, de Sinatra a Ferry.Um monumento`às pequenas coisas que nos fazem lembrar um grande amor.
sexta-feira, março 30, 2007
Pink Bullets, dos The Shins, é de 2003. Depois disso, a banda de Mercer editou este ano o supino Wincing The Night Away. Mas esta canção, cheia de terna melancolia e abandono é das mais bonitas que conheço desde algum tempo. Com uma letra brilhante (como todas as de Mercer, que chegam a roçar o críptico) e um video genial a acompanhar, façam o favor de se apresentar à tristeza cortesia dos The Shins.
Over the ramparts you tossed
The scent of your skin and some foreign flowers
Tied to a brick
Sweet as a song
The years have been short but the days go slowly by
Two loose kites falling from the sky
Drawn to the ground and an end to flight.
quinta-feira, março 29, 2007
1. Gosto de regressar. As partidas pouco me dizem. Sim, há a curiosidade do que se irá encontrar, os tropeções do acaso dos afectos e dos lugares. Mas tudo se desvanece depressa, porque o instante mata o instante seguinte; a partir de certa altura, por perversão, atavismo nacional ou nostalgia literária, é o regresso que me apetece. Agrada-me ser feito da memória que tenho, e é no regresso que ela cintila, porque assume a forma superior da saudade, perfeição absoluta limada das arestas efémeras dos dias. Voltar ao que conheço, ao que amo, é das experiências que mais acarinho na vida. Não é por acaso que me emociono sempre que oiço estes versos do Volver, que nem por isso é o meu tango preferido:
Sentir... que es un soplo la vida,
que veinte años no es nada,
que febril la mirada, errante en las sombras,
te busca y te nombra.
É esta procura do que se ama, independente do que se viu, do que passámos ou mesmo por quem passámos que para mim dá mais sentido à vida. Outro exemplo artistico desta minha filiação é o filme O Homem Tranquilo, de John Ford, onde um homem traz o seu passado para um lugar que não conhece mas que sempre conheceu ? e lentamente se integra nesse que é o mais belo regresso filmado (para além de outras motivações, mas isso é outra história).
2. Assim na vida, assim nos amores, assim na amizade. Um amigo que regressa por improváveis circunstâncias aos nossos dias e nós aos dele ? como, por felicidade, me tem acontecido várias vezes ? não tem nada que se lhe compare. Talvez o estar apaixonado, dirão. Mas apaixonar-se é uma partida, não é um regresso. Quando se volta, já há pouco a perder e não é necessária a coragem que se tem de ter sempre quando se parte. E depois há um mistério único, que confere a tudo a primeira vez: cada sorriso o primeiro, cada rua a primeira, cada palavra a primeira. Até à próxima partida, até ao próximo regresso.
(publicado em Setembro de 2003)
quarta-feira, março 28, 2007
Sempre disse, desde o início, que este blogue não era a minha vida. Evitei, o mais que pude, o estilo confessional, não por achar que é algo menos nobre ou que não se «deve» fazer, mas simplesmente por saber que a minha vida privada é, para a maior parte, privada de interesse. Nesse sentido, refugiei-me nos meus gostos e nos meus estados de espírito ocasionais, que muitas vezes não passaram de puros exercícios de estilo, para não dizer de sedução descarada. O resultado foi o pretendido: o meu blogue tornou-se muito melhor do que eu.Mas há a vida, de facto. E quando a morte nos entra pela vida dentro, ficamos sem saber o que fazer, mesmo aqueles que como eu tentam manter uma Fé que tudo redime. Foi assim há pouco tempo, com a morte de minha Mãe. Nessa altura, e porque a dor foi mais forte, perdi o pudor e dediquei-lhe um poema de um dos seus poetas preferidos, Ruy Belo.
Quem me ensinou o peso das palavras foi a minha Mãe. Ela própria dedicou a sua vida a esta matéria-prima volátil e traidora e conseguiu, na sua área (de directora criativa de publicidade) fazer com que algumas combinações que criou passassem para um mundo maior, que é a linguagem de todos os dias. Não por acaso, lembro-me agora do «para mais tarde recordar». Nunca pensei que ganhasse esta dimensão. Se tenho algum jeito ou vocação para estas grilhetas feitas de letras a ela o devo.
Não lhe irei fazer mais elegias aqui, porque as faço todos os dias. Queria apenas agradecer a todos os que sem me conhecerem, me enviaram abraços e mensagens que para sempre me irão acompanhar. «The kindness of strangers»? Sim, e é tão bom. Por um momento, a fé na Humanidade regressou.
Agora, chegou a altura de recomeçar, maior e mais vivo. «A única maneira de continuar a viver é morrer», disse-me um amigo. E aqui se irá viver e morrer todos os dias, até quando eu quiser. Recomeço.
segunda-feira, março 26, 2007
sábado, março 24, 2007
sexta-feira, março 23, 2007
terça-feira, março 20, 2007
Ruy Belo
Dedicado a minha Mãe, in memoriam (09/02/1938-19/03/2007)
segunda-feira, março 12, 2007
Regressa um herói pessoal, num dos seus mais célebres e citados filmes, For Scent-imental Reasons. Imperdível a gata que diz «Le meaow...Le rrrrrr» e a poderosa one liner «I am ze blacksmith of love».Dedicado à Teresa, cúmplice neste fanatismo.
domingo, março 11, 2007
Esta característica é, lamento, exclusiva dos jogadores ingleses. Mourinho percebeu bem, e o Chelsea vive de Terry e Lampard para suportar as aflições. Em mais nenhum país (ou futebol) do mundo existem jogadores com esta particularidade desde que nasceram. E isso, evidentemente, é mais um passo para a superioridade da Ilha, que pode não se traduzir em títulos (mas isso até o Scolari tem), mas traduz-se em saber e prazer de quem vê. Assim de repente, lembro que há pelo menos três clubes ingleses em fases finais de contendas europeias. Não me venham falar que é da globalização dos jogadores, porque me maça.
Por agora chega. Apetecia-me venerar Toby Flood (16 pontos contra a França, o destino ingrato de ser suplente de Jonny Wilkinson e tendo ele próprio acabado o jogo lesionado), por ter recuperado a esperança para a selecção da Rosa no Torneio das Seis Nações. Mas não o vou fazer, porque Portugal ganhou ao Uruguai.
sexta-feira, março 09, 2007
Diz a lenda que foi esta a canção que Sinatra dedicou a Ava Gardner pouco depois da sua separação. Seja como for, I'm A Fool To Want You continua a ser uma das mais belas e desesperadas canções de amor - curiosamente uma das poucas que Sinatra fez questão de assinar. Aqui, numa espantosa versão/medley que inclui You don't know what love is: Elvis Costello e Chet Baker.
quarta-feira, março 07, 2007
«In all writers there occurs a moment of crystallization when the dominant theme is plainly expressed,when the private universe becomes visible even to the least sensitive reader. (...)
It is less easy to find such a crystallization in the works of James, whose chief aim was always to dramatize, who was more than usually careful to exclude the personal statement, but I think we make take the sentence in the scenario of The Ivory Tower, in which James speaks of v'the black and merciless things that are behind great possessions', as an expression of the vruling fantasy which drove him to write: a sense of evil religious in its intensity.»
Graham Greene, num ensaio sobre o seu mestre Henry James
(à natural atenção do Rogério Casanova)
domingo, março 04, 2007
(via joaonunes.com)
sexta-feira, março 02, 2007
quinta-feira, março 01, 2007
As The Pierces são agora a coqueluche cá de casa. Com um vídeo maravilhoso, uma canção quase modal - não fosse o refrão - e uns versos blasés («love of my life/bare your child/everything I ever wanted/boring!»)as The Pierces merecem alguma atenção,uma espécie de versão da Paris Hilton gone wrong (e portanto right). E sim, são lindas.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Abençoada new wave, que nos trouxe tão boas canções. Esta é uma delas: Tempted, dos Squeeze. Bem cantada, correcta e com uma grande letra sobre os dilemas do forbidden fruit, esse tema eterno. Um doce a quem reconhecer a voz de Elvis Costello (não é obviamente nenhum dos vocalistas), que produziu o disco East Side Story.
Imperdível a série «Pérolas Vermelhas» sobre o «Paizinho dos Povos», publicadas no clássico Desinfeliz de Juízo. Atrocidades várias e rapaziada fina, cortesia do tio Zé Estaline.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
É que nem 200.000 Little Britains chegam aos pés. Harry Enfield, num sketch clássico e maravilhoso.
via Tímida Intimidade
Eu, que estou a ficar velho («I shall wear the bottom of my trousers rolled», Prufrock de trazer por casa) ainda me lembro das primeiras animações do Noddy, assim uma espécie de sofisticada e móvel plasticina. Mas compreendo que os meus filhos delirem com as CGI do boneco, embora não compreenda o raio da tradução da canção original: "Abram alas para o Noddy" como versão para «Make way for Noddy» («Aí vem o Noddy», ou «Lá vem o Noddy», por aí) é uma solução métrica maléfica, saída da mente perversa de um Tiago Bettencourt dos Toranja ou de um letrista ex-punk. Mas isso nem sequer é o mais assustador: o Ruca é que é. O Ruca. Porque é que a criança é careca, meu Deus? Quimoterapia ? Opção estética dos pais ? Deixo a pergunta. Os meus filhos precisam de uma resposta, e eu também.

WH Auden, nascido em 21 de Fevereiro de 1907
II
You were silly like us; your gift survived it all:
The parish of rich women, physical decay,
Yourself. Mad Ireland hurt you into poetry.
Now Ireland has her madness and her weather still,
For poetry makes nothing happen: it survives
In the valley of its making where executives
Would never want to tamper, flows on south
From ranches of isolation and the busy griefs,
Raw towns that we believe and die in; it survives,
A way of happening, a mouth.
In memory of WB Yeats, excerto
sábado, fevereiro 17, 2007
A grande cantora Dinah Shore explica brevemente às crianças e ao povo o que o jazz pode fazer à nossa vida. E como exemplo, não está de modas: chama dois dos maiores saxofonistas de sempre - Gerry Mulligan (representante do west coast Jazz, o dito 'cool jazz')e o grande Ben Webster, veterano pré-bop e mestre absoluto)acompanhados de sidemen de luxo, como Mel Lewis (d), Leroy Vinegar (b) e Jimmy Rowles (p). Está tudo aqui, de bandeja, para que e perceba porque é que o jazz é a melhor música do mundo.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Ela ouve.
Passa-se ao paternalismo: que até no Brasil, meu Deus, no Brasil, a data se comemora como deve ser, no dia 12 de Junho, dia de Santo António.
Ela ouve.
Já de indicador em riste, diz-se que podemos ser anglófilos, mas temos orgulho em ser portugueses. Que tudo não passa de uma conspiração do Loureshopping aliado ao grupo Dolce Vita para vender peluches com corações. E que não se fala mais disso.
Ela ouve. E sorri.
Vinte minutos depois, percorremos aflitos as lojas de um centro comercial, lado a lado com irmãos que sofrem, que partilham connosco o olhar da mais doce das derrotas.
Como se fosse preciso, mais uma prova de que este homem é o maior entertainer vivo. Faz e desfaz a imagem como quer,tem mais arrogância e saber estar num pelo do peito do que os Jarvis Cocker da vida ("oh!, herege, how can he?")e é um enormíssimo letrista. Aqui, o video de She's Madonna, declaração de amor descarada com a colaboração dos Pet Shop Boys. Também à tua atenção, querida Carla.«She has to be obscene to be believed»...
A rowan like a lipsticked girl.
Between the by-road and the main road
Alder trees at a wet and dripping distance
Stand off among the rushes.
There are the mud-flowers of dialect
And the immortelles of perfect pitch
And that moment when the bird sings very close
To the music of what happens.
Song, Seamus Heaney
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
domingo, fevereiro 04, 2007
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Uma enorme versão do Mestre para It's Alright With Me, de Cole Porter, mais uma canção de brilhantes ambiguidades afectivas. Aqui é cantada uptempo, com gosto e brilho. A sessão decorreu em meados dos anos 80, provavelmente para o álbum LA Is My Lady. Quincy Jones dirige uma all-star band, com saliência para a guitarra de George Benson. Sinatra, esse, abre o livro de como fazer swing: à frente, atrás e ao lado da orquestra, conforme o que lhe apetece, sílabas arrastadas, cortes enfáticos inesperados no fraseado, e a magnífica alteração final (que Porter abominaria!) do verso «It's the wrong lips» para o calão «It's the wrong chops». Sinatra está feliz, num dia feliz como o de hoje.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
E uma das mais brilhantes canções do mundo (It's a bore, letra de Alan Jay Lerner, música de Frederick Loewe), num dos melhores musicais de sempre (Gigi, de Vincent Minelli), baseado numa das mais maravilhosas e amorais histórias de todos os tempos (Gigi, de Colette).
«-Don't tell me Venice has no lure?
-Just a town without a sewer.»
segunda-feira, janeiro 29, 2007
O HOMEM HOJE ESTÁ IMPARÁVEL No fundo o que todos desejamos é paz. Talvez seja verdade, a filosofia estóica e oriental que diz que a abolição de todos os desejos é o mais perto da perfeição. Talvez. Mas depois, para que vale a pena viver ? A inquietação, seja em que forma vier, é das poucas armas para combater a injustiça de morrer, acredite-se ou não numa vida depois da morte. Ninguém pode estar sossegado se vive, pela simples razão de que se o estiver, não vive. Vinicius dizia: «O tempo de paz/não faz nem desfaz». E isto é só uma verdade simples que atravessa toda a condição humana. Na verdade, a Humanidade é um tubarão, que se parar, morre.
(publicado em Setembro de 2004. Ainda vale por aqui)
Um dos raros registos vídeo (o único?) de uma actuação do maior trompetista de todos os tempos: Clifford Brown.Neste pequeno medley de Lady Be Good - Memories Of You (um burner e uma balada) nota-se desde logo a impossível clareza e precisão das frases, numa velocidade de execução e pensamento inacreditáveis.O solo em Lady Be Good é disso um excelente exemplo, com uma complexidade de estrutura inesperada e belíssima.
A lenda diz que Miles Davis suspirou de alívio quando Brown morreu. Não era para menos: em 4 anos apenas, trabalhando com Max Roach, acompanhando Helen Merrill ou Sarah Vaughan e também como líder dos seus próprios combos, a estrela de Brown brilhou com um imensíssimo fulgor. Junte-se a isto um repúdio ao estilo de vida errática de que Charlie Parker foi o mentor trágico e involuntário.Brown não se drogava, não bebia e o seu único vício era o xadrez. Esta aparição data de principios de 1956 e é particularmente comovente no final, quando Brown fala com terno orgulho do filho recém-nascido. Meses depois, em Junho, morre num acidente de viação quando ia para um concerto em Chicago. Tinha 25 anos. Deixou o jazz mais rico, e um estatuto ainda inatingível.
domingo, janeiro 28, 2007
«Aí sonhamos que um elefante se sentou de repente sobre o nosso peito e que um vulcão explodiu e nos atirou para o fundo do mar – com o elefante ainda a dormir, tranquilamente, em cima de nós. Acordamos com a ideia de que aconteceu algo realmente terrível. A primeira impressão é de que chegou o fim do mundo; depois achamos que isso não é possível e que são ladrões e assassinos, ou então um incêndio, e exprimimos esta opinião da maneira habitual. Ninguém nos vem ajudar, porém, e tudo quanto sabemos é que há milhares de pessoas a dar-nos pontapés e que estamos a ser estrangulados.
Mas parece que não somos os únicos metidos em sarilhos. Ouvimos gritos abafados que vêm debaixo da cama. Determinados a lutar pela vida, aconteça o que acontecer, agitamo-nos freneticamente, aos socos para a esquerda e para a direita, sem parar de gritar e, finalmente, alguma coisa cede e encontramo-nos com a cabeça ao ar livre. A meio metro de distância está um rufia meio nu à espera de nos matar e já nos estamos a preparar para travar com ele um combate de vida ou morte quando começa a fazer-se luz no nosso espírito:é o Jim.
-Ah! És tu! – diz ele, reconhecendo-nos no mesmo instante.
- Sim, sou eu – respondo, esfregando os olhos. – O que aconteceu?
- A maldita tenda caiu-nos em cima, acho eu – diz ele. – Onde está o Bill?
Então ambos erguemos as vozes e gritamos «Bill!» e o chão debaixo dos nossos pés oscila e treme, e a voz abafada que já tínhamos ouvido antes replica de entre as ruínas:
- Saem de cima de mim, ou quê? »
Lendo pela terceira vez (e primeira em português, na excelente tradução de Luísa Feijó) Three men in a boat (to say nothing of the dog), de Jerome K. Jerome
quinta-feira, janeiro 25, 2007
Até porque já tinha saudades dos dias em que quis ser dandy...
I'm the dandy highwayman who you're too scared to mention
I spend my cash on looking flash and grabbing your attention
The devil take your stereo and your record collection!
The way you look you'll qualify for next year's old age pension!
Stand and deliver!The money or your life!
Try and use a mirror no bullet or a knife!
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Pela minha parte, tentarei que passem mais tempo na pista do que a retocarem a maquilhagem. Até porque sinceramente não precisam. See you there!
terça-feira, janeiro 23, 2007
segunda-feira, janeiro 22, 2007

Maravilhosos exemplos de respostas a exercícios de matemática. Gosto sobretudo do "find x" - "here it is!"
(via Tecnotretas)
Estava-se em 1979. O punk, se não já defunto, sentia-se muito muito mal. Os Clash davam cartas. A new wave lançava alguns dos seus nomes maiores. Os Joy Division já tinham editado o excelso Unknown Pleasures. Qualquer adolescente de 15 anos com a sorte de estar informado sabia isso. Mas se numa festa de garagem persistisse nesse name dropping, espantaria toda e qualquer remota possibilidade de namorada.
Por isso, sabiamente, recorria-se à Electric Light Orchestra, do algo azeiteiro Jeff Lynne. O álbum Discovery foi lançado também em 1979, e trazia uma furiosa mistura de Beatles, Beach Boys e disco sound, com o seu apogeu em temas como Last Train To London ou Shine A Little Love. Soft-rock certinho e certeiro, melodias de levar para casa,como uma doença, como as que actualmente praticam e copiam os The Feeling. E sobretudo - sobretudo, meus amigos - grandes slows, como se dizia à época. Canções downtempo, para dançar agarradinho e tentar a nossa sorte. Este Need Her Love é um exemplo. Aos 15 anos, fui lá muito feliz e infeliz e feliz outra vez, como devem ser as púberes paixões.
domingo, janeiro 21, 2007
sexta-feira, janeiro 19, 2007
- É então alguém que sinceramente admira ?
- Faz parte do trio maravilha a quem devo tudo o que irei ser de melhor e a compreensão do mau que fui antes de receber a bênção de os ter na minha vida. É meu filho, e faz sete anos amanhã.»
quinta-feira, janeiro 18, 2007

ATLÂNTICO
Ano Novo, Atlântico Sempre
Sexta-feira, 26 de Janeiro
venha celebrar o Novo Ano com a revista Atlântico
Dijays: Eduardo Nogueira Pinto, Francisco Mendes da Silva, Nuno Costa Santos e Nuno Miguel Guedes (o gerente deste estabelecimento)
Uma festa tão chique, tão chique que até os DJays têm todos três nomes.
FRÁGIL - Rua da Atalaia, 126, Bairro Alto, Lisboa
quarta-feira, janeiro 17, 2007
John Ford, no seu laconismo e falta de paciência, dizia de The quiet man que era apenas «a história de um homem que quer levar a mulher para a cama». Também, mas muito, muito mais: é a Irlanda, o passado que nos persegue, a irlandesa linda e de mau feitio, a pancadaria e a competição masculina, a amizade, o male-bonding, o confronto de tempo e cultura.E,sobretudo, é o elogio do regresso, das palavras e conceitos mais bonitos que se conhecem. Regressar a algo a que se pertence sem nunca o ter conhecido- o amor, uma terra, um país: eis a terna nostalgia de Ford a funcionar em pleno. Há também o amor como deveria ser, demonstrado aqui no mais belo beijo da história do cinema. É uma benção quando momentos destes se cruzam com a nossa vida, por fugazes que sejam.
terça-feira, janeiro 16, 2007

GOD SAVE THE QUEEN! Chegaram, viram e venceram: os cidadãos da Ilha deram mais uma alegria a quem os admira: Dame Helen Mirren (na foto), Jeremy Irons, o ex-remador por Cambridge Hugh Laurie, Emily Hunt, Bill Nighy e Sacha Baron Cohen (num discurso maravilhoso, feito com a própria voz, em que se nota um leve sotaque posh) arrasaram nos Globos de Ouro. É justo (mais pormenores e video aqui) e sobre a Inglaterra descanso, uma vez mais, o meu caso. Por outro lado, o prémio mais divertido foi para Clint Eastwood: Melhor Filme em língua estrangeira por Cartas de Iwo Jima, falado em japonês.

Saturday evenings we would stand in line
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Um dos mais justamente celebrados e conhecidos temas de jazz. Incluído no álbum Time Out (onde também aparecia o extraordinário Take Five, do saxofonista Paul Desmond), Blue Rondo... surpreende pela utilização de tempos invulgares (a frase principal é feita a 9/8) misturados com a utilização do mais convencional quaternário (4/4).Com inspirações na música tradicional turca (e grega),o tema alterna com frases bluesy. Depois há a técnica perfeita de Brubeck, com as duas mãos em frases diferentes e simultâneas. A mão esquerda de Brubeck é genial, dando a sensação de existirem dois pianos. Uma excelente introdução ao mundo do jazz, sem imagens em movimento, para que se possa fruir da música sem distracções.
domingo, janeiro 14, 2007
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Enquanto por cá a malta vai descansando, o melhor futebol do mundo tem de continuar. E no passado dia 9, um regalo. Para quem joga dia sim dia não, este jogo entre o Liverpool e o Arsenal, para a Carling Cup, foi absolutamente fantastico. Resultado: 3-6, para o Arsenal. Por cá o que se viu nos notíciários foi o chato empate do Chelsea «de Mourinho». Valha-nos a Sport TV. Eu sou um gunner supporter, mas este golo de Gerrard - que está em enorme forma - merece hossanas repetidas. É o 2-5, e depois disto o jogo continuou como se estivesse zero a zero. Prémio especial para quem descubra a lingua em que está relatado.
*mas sem o minimo de graça
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Os Haircut 100 foram o lado pop-mais-que-perfeito da Postcard Records, a célebre editora escocesa independente que albergava no ínicio de 80 nomes como os Orange Juice, os Fire Engines, os Joseph K ou os Aztec Camera iniciais (basicamente Roddy Frame).Longe das gabardinas e angústias sortidas dos seus parceiros e editora, o grupo de Nick Heyward praticava a busca do refrão perfeito: Pelican West (1982) é um dos melhores «feel good records» da década, e onde estava este Fantastic Day, ao lado de Love Plus One ou Favorite Shirts (Boy Meets Girl). Com um visual clean cut e inglesissimo, os Haircut 100 eram o reverso da depressão industrial, um sonho filmado em estúdio, numa terra em que só havia finais felizes. Ideal para começar os dias.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
«so he shall never know how I love him: and that, not because he's handsome, Nelly, but because he's more myself than I am.»
«I cannot express it; but surely you and everybody have a notion that there is or should be an existence of yours beyond you. What were the use of my creation, if I were entirely contained here? My great miseries in this world have been Heathcliff's miseries, and I watched and felt each from the beginning: my great thought in living is himself. If all else perished, and he remained, I should still continue to be; and if all else remained, and he were annihilated, the universe would turn to a mighty stranger: I should not seem a part of it.»
Catherine, Wuthering Heights (Emily Brontë)
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Kurt Elling é provavelmente o melhor cantor jazz da actualidade. Pelo menos é o meu favorito: um timbre versátil mas quente, uma técnica irrepreensível e um repertório maravilhoso. Esta fantástica versão de Nature Boy (com o seu scat no máximo) compensa o amadorismo do vídeo e o psicadelismo da ausência de som síncrono.











