segunda-feira, janeiro 26, 2004

E LEMBREI-ME..."Vida intensa e breve, pensou a lebre, correndo sobre as ervas do mundo" José Agostinho Baptista
SUBSÍDIO PARA O ABSURDO "Os atletas de alta competição também morrem.Senão também eu queria ser atleta de alta competição". Valentim Loureiro
SUBITAMENTE, EM GUIMARÃES A vida é um absurdo ? Não:a morte é que é.

sábado, janeiro 17, 2004

É UM PÁSSARO? É UM AVIÃO? NÃO, É O CARTEIRO! Compreendo perfeitamente os momentos de júbilo sentidos pelo meu querido amigo MacGuffin quando chega a encomendazinha da Ilha, com a marca da Amazon. O carteiro é o Pai Natal dos adultos esclarecidos. E se escrevo isto é porque ainda estou a tremer de felicidade pela última remessa de guloseimas que me chegou:os DVD's da terceira série de Coupling, da segunda de The Office (cada vez mais brilhante) e sobretudo um Best Of de One Foot in The Grave, que tem como personagem um dos meus heróis pessoais - o intratável Victor Meldrew. Imagine-se um Basil Fawlty reformado e eternamente contra mundum. O mundo, por outro lado, vinga-se nele, fazendo com que caiam candeeiros de rua na janela do seu quarto ou entreguem em sua casa por engano velhinhas em tratamento ambulatório. Comédia inglesa no seu melhor, com uma canção-tema de Eric Idle (Monty Python). Perfeito para conservadores e cépticos em geral; em Inglaterra, de resto, os jornais criaram um novo grupo sociológico:os Meldrews, pessoas que não aceitam o novo, resmungam constantemente e são no geral muito desagradáveis. Expressão chave:"I don't beliiiiiieeve it!"
OBRIGADO...a todos os que simpáticamente, por mail , referências no blogue ou ambos registaram a ressurreição do Tradução Simultânea. De vez em quando é bom saber que há gente aí fora.

terça-feira, janeiro 13, 2004

DOS ARQUIVOS DO TRADUÇÃO SIMULTÂNEA, 4:O meu caso com Mussolini Quem me conhece sabe que eu sou um pacato defensor do livre-arbítrio, essa pequena oportunidade que nos é dada generosamente para ajudar a este delicado equilibrio sobre o nada que se chama vida. Mas, amigos, no amor…No amor suspiro por um determinismo, que nos poupe a maçadas, que nos ofereça previsões e consolo, que nos roube ao toca-e-foge dos afectos. No amor, digo-o sem vergonha – sou fascista.
A partir de certa altura – certa idade ? – suspiramos por uma ditadura, um regime autoritário que diga ao nosso coração:"é desta que vais gostar". E melhor ainda: "é essa que vai gostar de ti".
Admito até a hipótese do amor não correspondido: "Vais adorar essa mulher, mas ela não te vai ligar pêva. E tu, mesmo assim, vais insistir, mesmo sem esperança".
A sério.Era mais justo. No que respeita ao amor não correspondido, já passei por vários. Mas de facto, é uma dor privada e segura, como diz o Alain de Botton no Essays In Love, e mil vezes mais fácil do que o amor correspondido, que nos deixa atarantados. Além deste axioma, e nesta matéria, existe sempre a canção exemplar do Glad To Be Unhappy, com letra do maior génio das palavras em melodias, Lorenz Hart. Vêde o que ele diz:

Unrequited love’s a bore
And I’ve got it pretty bad.
But for someone you adore,
It’s a pleasure to be sad.

Aqui está: é uma dor intima, auto-gerida, mas que no fundo nos dá o prazer de saber que somos capazes de amar.
O pior vem quando inesperadamente elas dizem sim. "Sim"? Como, sim?", perguntamo-nos nós aterrorizados. Estava tudo muito bem quando ela era a nossa deusa – distante, omnipotente, perfeita, concebida para a adoração. Mas quando ela diz sim, desce ao nosso nível – ou nós temos de subir ao dela. E isso é estranhíssimo, e pode levar aos maiores equivocos.
É por isso que seria mais fácil se um metafísico ditador benigno – género Mussolini – se encarregasse de tudo, avisasse e não nos deixasse quaisquer opções. O mundo ficaria livre de crimes passionais e pouparia a muita gente tempo e angústias. Meu Deus, porque nos reservaste o livre-arbitrio para as piores ocasiões ?

escrito a 13 de Janeiro de 2004
O TEMPO, ESSE GRANDE ESTUPOR Concordemos, por um minuto, que estamos no ano 2004. Dois mil e quatro, amigos. Por outro calendário que não o gregoriano estariamos mortos. Mas isso agora não interessa nada. A história que vos quero contar passou-se ainda no ano passado. Alguns amigos inconscientes acharam que os meus discos poderiam dar alegria aos clientes de um bar. E assim, eu e um amigo dirigimo-nos a Alcobaça, prontos a demonstrar o melhor que aprendemos da nossa vetusta idade.Leia-se: um set de revivalismo eighties esclarecido.
Para o que não estávamos preparados foi para receber criaturas que julgávamos perdidas em 84.Mas estavam lá, com pouco mais de vinte anos, vestidas de negro e com uma pergunta recorrente e lapidar, depois de termos passado Joy Division:"Não há mais Joy for the boy?".
E se vos conto isto é porque ainda acordo a meio da noite.
O LETREIRO NA PORTA DIZ "ESTAMOS ABERTOS".

segunda-feira, dezembro 29, 2003

SINAIS VITAIS Aproveito o quase fecho deste ano para dizer aos resistentes leitores desse lado que ainda mexo. A hibernação é voluntária e durará até dia 5 de Janeiro. É que, às vezes, Abril não é o mês mais cruel. A todos um 2004 realmente novo.E até já.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

E SAI MAIS UM POEMA PARA O BLOG DO CANTO (OU O AUTOR EM CRISE DE INSPIRAÇÃO)
A sério, a sério, deste gosto muitíssimo. É de Nuno Júdice, e chama-se Princípios.

Podíamos saber um pouco mais
da morte.Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida.Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor.Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor,ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
OBRIGADO Gosto de mimos, mesmo virtuais. Foi por isso que me liquefiz quando li as palavras da Filipa, preocupada com o meu silêncio e a minha "tristeza".Eu não a conheço, mas já é um princípio de uma bela amizade.

quarta-feira, dezembro 03, 2003

ANÚNCIO Como se vê, the blog is back. And so's the blogger. Esperemos que continue assim, com mais regularidade.Passai a palavra, por favor.
AVISO ÀS PESSOAS DE BEM O jogo de dia 13 de Junho entre a Inglaterra e a França, a contar para o Euro 2004, vai ser mais do que um jogo de futebol - vai ser um confronto entre modos de vida.Espero que estejam do lado certo.
SETE Li com apreensão sobre o atentado que vitimou sete agentes secretos espanhóis no Iraque. Coisa terrível. Mas pensem comigo: se eram agentes secretos, porque é que andavam em grupos de sete ? Sete! Como os anões: "eu sou/eu sou/ agente secreto eu sou...". Pelo amor de Deus, não tornemos as coisas ainda mais fáceis.
Li, com alguma consternação, sobre a emboscada feita a sete agentes secretos espanhóis. coisa terrível. Mas pensemos um pouco: o
PORTUGALZINHO Sala de espera das consultas do Hospital da CUF. Pela primeira vez na minha vida, oiço as pessoas serem chamadas pelos seus títulos académicos. Aparece uma funcionária e diz:"O senhor engenheiro fulano de tal, o arquitecto sicrano da silva". Há muito tempo que não fazia uma visita ao país do Alexandre O'Neill.
MAKIN' WHOPEE O mais bonito e extraordinário que acontece quando dois grandes amigos nossos se casam entre eles é podermos assistir, com uma radiante impotência, à continuação da nossa família. Parabéns e obrigado, C&C.

segunda-feira, novembro 24, 2003

AVISO À NAVEGAÇÃO Caros, caras: por excesso ou defeito de vida própria não tenho tido oportunidade de actualizar o Tradução. What else is new ?, perguntarão os mais perspicazes. Oh, go away, respondo eu. Adiante.
Poderia sempre postar poemas, ou citações díspares, mas isso é demasiado fácil e deve consumir-se com moderação. Também não me apetece manter um inventário de "Estados De Espírito Do Autor", primeiro porque isso não interessa a ninguém, depois porque isso só tem a ver comigo e depois porque nunca se escreve a verdadeira tristeza ou alegria. Só o estado intermédio.
Em resultado desta ausência não foi sem prazer que vi um decréscimo substancial nas visitas (os crentes não desarmam, fico lisongeado), com gente a vir ter a esta casa por uma improvável pesquisa googlesca sobre "mamas grandes" (isto é verdade). Quero garantir a todos, entretanto, que o meu Moleskine quotidiano pulula de boutades fabulosas, aforismos cintilantes, textos sem mácula, ideias relevantes e as restantes banalidades do costume. Assim que puder - e eu estimo que muito em breve - tudo voltará à relativa normalidade. Até já, portanto.

N.M.G.

quarta-feira, novembro 19, 2003

EM AUDIÇÃO ININTERRUPTA NUM CD PERTO DE MIM Com a luz apagada, o Jameson com uma gota de água. Sinatra, sempre ele, de In the wee small hours of the morning, a saber da minha vida toda quanto canta uma das melhores canções de todos os tempos: Glad To Be Unhappy, de Lorenz Hart e Richard Rodgers. Afinal, há coisas sagradas.
MAIS UM QUE FOI ANDANDO PARA O GRANDE BAR DO CÉU Até já, Manel.
A MELHOR COISA DESDE WATERLOO Eu considero-me um tipo civilizado. Abomino a violência,e acho que se deve evitá-la até ao limite. isso não quer dizer que a ignore, ou que não a compreenda. A propósito do balneário de Clermont-Ferrand, «destruído» pela selecção de sub-21, tenho que dizer que é «lamentável». Mas depois de todas as provocações dos franceses aqui e lá - antes, durante e depois do jogo, com o presidente da câmara local a exigir um controlo anti-doping! - não deve haver um português que não esteja secetamente contente. Corrijo - há um: o meu contentamento é público. Those bloody frogs had it coming, the bastards!

segunda-feira, novembro 17, 2003

MESTRE, FALA POR MIM !

VI
Kick up the fire, and let the flames break lose
To drive the shadows back;
Prolong the talk on this or that excuse,
'Till the night comes to rest
While some high bell is beating two o'clock.
Yet when the guest
Has stepped into the windy street and gone,
Who can confront
The instantaneous grief of being alone?
Or watch the sad increase
Across the mind of this prolific plant,
Dumb idleness ?

de North Ship, Philip Larkin
PORTUGAL, MEU PAÍS MEU GERÚNDIO Um pequeno diálogo real, ouvido num supermercado:
-Sabes o PIN do teu telemóvel ?
-Vou sabendo.

sexta-feira, novembro 14, 2003

DIAS NO MEU DESERTO Ir para a frente.Avançar sem saber porquê, sem deixar o que ficou para trás.Progredir cego, unifacetado, irreversível.Convicto, como alguém que sabe o que quer, que sabe o que não quer. Não parar.Não olhar.Não lembrar.E para onde, sobretudo: não saber.
RIDING THROUGH THE NET Uma amiga que muito estimo apelida-me com o extraordinário nome de Robin dos Blogues. Não corresponde, mas é muito bom!

segunda-feira, novembro 10, 2003

MOTTO ROUBADO

Those who will not reason
Perish in the act;
Those who will not act
Perish for that reason.

W.H.Auden
GOSTO SEMPRE DE VOLTAR A ESTES DITOS «Há esta distinção entre o dito e o escrito: uma coisa vem por graça, e outra morre sem ela»
A arte da galantaria, D. Francisco de Portugal
THE WORST KEPT SECRET Ok, OK, eu confesso: traio-me todos os dias com outro blogue. É o ideal para quem gosta do género epistolar, porque se tratam de cartas entre um português que vive em Portugal (eu) e uma portuguesa que vive no Rio de Janeiro e adora (a minha amiga Mónica). A coisa só podia dar contrastes, dado a minha noção de vida ser bastante menos feérica do que a do outro lado do Atlântico. Para quem quiser espreitar (e acha que pode ter algum interesse, e comentar), basta seguir por aqui

quarta-feira, novembro 05, 2003

E AGORA, UM POUCO DE FRIVOLIDADE Numa outra vida fui copy publicitário. A especialização da minha licenciatura é em Marketing. A minha mãe foi directora criativa de várias grandes agências. Tudo razões que me tornam ainda mais doloroso não compreender a nova campanha de outdoors da Renova, onde para se vender papel higiénico se mostra um casal com a líbido óbviamente em alegre ascensão. Eu sei que o produto é ingrato, mas...alguém me dá a ver o briefing criativo, please ? "bom, precisamos baixar o target do papel higiénico, vamos colocar um casal jovem e saudável à beira dos preliminares e...bingo - a classe A-B entre os 18 e 35 anos passa a limpar o rabo ao nosso papel". E pior do que isso, só uma das definições do produto: papel "portátil".Não sei se estão a ver: papel higienico "portátil", as opposed to aquele que era fixo e não se podia levar para lado nenhum. Pensai nisto e dizei-me alguma coisa. Estou às escuras, aqui.
I'M BAAAAAACK...

sexta-feira, outubro 31, 2003

NÃO HÁ QUE ENGANAR O meu querido amigo Tomás, psicólogo "quase psicanalista", segundo a sua hilariante descrição, é, como eu e por motivos vários, um amante da Ericeira. Enviou-me há pouco um mail onde diz que conta ir ver amanhã "as ondas de oito a nove metros, como anunciam no teletexto da RTP, página 576". Só para que não haja dúvidas.
AGARREM QUE É LADRÃO Às vezes, por preguiça ou desleixo, procuro noutros lados aquilo que gostaria de dizer, ou contradizer, ou apenas algo de que gosto. Roubei descaradamente este post às chicas do Pepe'R'Us. É um excerto, que é para irem ver o resto.

(...) as perdas não são, de facto curadas pelo tempo, mas são saradas! O tempo ajuda a retomarmos o caminho que achávamos perdido e neste processo, com sorte ou não, inclui-se o encontro com outra ou outras pessoas. A perda é sarada porque a dor da recordação não passará, muitas vezes, na sua totalidade, mas é possível fazer a passagem do nunca mais (que será possivelmente a expressão mais dolorosa da perda, do fim) para o que sempre foi: o eu vivi, ouvi, disse...as recordações que ainda que tragam saudades existem apenas no momento em que aconteceram, sem qualquer pretensão de se instalarem no que vivo, ouço, digo...

Consuelo

quinta-feira, outubro 30, 2003

RECADO EM QUE ACREDITO

Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

Como dizia o poeta, Vinicius de Moraes
O CRIME COMPENSA! Estas meninas já se redimiram. Conheci duas delas no último É cultura, estúpido!. Não lhes bastava escreverem com graça, livres e bem: ainda por cima são bonitas e simpáticas. E escusam de vir dizer que exagero. Eu é que agradeço.

quarta-feira, outubro 29, 2003

ORGULHO NO ESTÁDIO NOVO É hije que o velho Calhabé se transforma definitivamente no Estádio Cidade de Coimbra (um dispensável concerto dos Rolling Stones não é ocasião para ninguém se orgulhar). Hoje a Académica joga com o Benfica, e está prometida casa cheia. Seja qual fôr o resultado (e eu espero que seja vários a zero, a favor do meu clube, o das camisas negras), a partida já está ganha. E por isso, despudoradamente, aqui fica o meu grito da semana, apaixonado e renascido: BRIOOOOSA !

domingo, outubro 26, 2003

LUGARES ONDE Um intervalo na superfície dos dias. Ir revisitar lugares onde nunca se esteve mas que se reconhece, pelo olhar de alguém, pela ausência de alguém. Lugares de que sentimos saudades sem nunca lá termos estado, mas que não conseguem sair da nossa alma, não importa a força com que o tentemos. Lugares, palavras mágicas e tristes, que nos levam ao que queríamos conhecer e que por incúria ou incapacidade, perdemos. Lugares onde queremos um dia voltar, sem nunca de lá termos partido.

MACHICO

Nos altos cimos do aquário atlântico
os barcos acendeiam os outros barcos
deslumbram-se, à distância da vila
no ocre das suas lágrimas. Pelo fim
do mar de maio, quando o negro de uma
traineira
esfuma o incandescente azul.
Viu tudo o que tinha feito até então:
e era muito bom.A luz
dos caranguejos sobre as lapas.
E crescem os ramos cimeiros
e cantam para nós a ilusão que se
apoderados pequenos fortes.
As estreitas ruas da ribeira correm
de margem a margem guardam a indolência
no extremo do cais
a ave ergue o impensado vôo, pássaro
rumo à distante origem,
levanta, atrás de si, incontáveis gerações.

João Miguel Fernandes Jorge
OBRIGADO Agora que regressei à normalidade, e recomposto dos exagerados encómios que por aí pululam sobre a minha apresentação do diário pipiano, apenas me resta agradecer sinceramente. E lamentar, outra vez, não ter conhecido pessoas que leio e admiro e que lá estiveram. Fui assim um desapontamento tão grande, ou mera timidez ? Também estou a falar convosco, meninas!

terça-feira, outubro 21, 2003

AMANHÃ É dia de O Meu Pipi. O lançamento é às nove horas, no Maxime de Lisboa (pr.da Alegria), e este vosso criado foi desafiado a apresentar o opúsculo, talvez a maior piada que o autor fez até hoje. Apareçam - embora tenha a certeza que meia blogosfera irá lá estar. Isso, para citar o autor de eleição do sector esclarecido destas vidas, é o «óbvio ululante».
ALGUMAS NOTAS DO BRASIL

* REALITY SHOW Estou na esplanada de um restaurante, em plena Avenida Atlântica, Copacabana. Desde que aqui estou já vi exibições de capoeira, vendedores de pareos com o desenho do «Calçadão» e um negro vestido com o equipamento da selecção braileira que faz habilidades com uma bola enquanto apita e canta. A sobrevivência, neste país, é mais uma forma de entretenimento.


*JÁ REPARARAM QUE ...No cruzamento da Joaquim Nabuco com a Vieira de Souto, encontro o sinal:«Atenção: alto índice de acidentes». O que se deve fazer perante isto? Agradecer por partilharem connosco a informação ? Atravessar a rua de costas e de olhos fechados nas outras zonas em que, supostamente, têm «baixo índice de acidentes»? Agora sei onde Santana Lopes foi buscar as suas ideias de outdoors.


*GAROTAS DE IPANEMA Almoço no Garota de Ipanema, antigo Veloso, onde Vinicius e António Carlos Jobim vislumbraram a moça da canção (na verdade lançavam-lhe piropos sentidos todos os dias). Da antiga atmosfera boémia, nada. De garotas, também não. Mas de repente entram quatro raparigas. Uma delas ostenta uma mini t-shirt com os dizeres Academia Sempre Em Forma Percebo. Tem esse direito.as amigas também. Aproveitando uma frase que vi numa sitcom, parecem quatro anjos que caíram do céu agarrados a um poste de metal.


*E ESTAVA BEM DISPOSTO,JURO Vejo passar, sob um calor imenso, um jovem de cabelos compridos, tronco nú, musculado. Emana um insustentável odor a saúde. E tem o corpo tatuado com frases profundas como "Rebel Yell" e animais simbólicos barrocos. Contrariando o céu que grita de azul, penso que este sujeito irá ser, um dia, a anedota da sala de autópsias.
NÃO SE PODE CONFIAR EM NINGUÉM Vai um homem dar uma voltinha ao hemisfério sul e quando regressa vê um partido político a afundar-se, um líder com extraordinárias declarações e - a única boa notícia - uma filha de amigos que acaba de nascer. Olá Rosa!

quarta-feira, outubro 15, 2003

Amigos: o tradutor de serviço está de partida para o Rio de Janeiro, onde irá estar de, hum, serviço. Mas promete regressar, se conseguir dominar a atitude neo-colonial e não disser mal do Lula em público.
A sério. É um privilégio, e espero conviver com Fátima Felgueiras. E quando voltar vou direitinho para o Maxime em Lisboa, onde terei a honra de apresentar o opus primeiro d'O Meu Pipi, versão em papel. Mas nisso ainda falaremos mais tarde. Até já.


NMG

segunda-feira, outubro 13, 2003

AGORA SIM, SEI QUE XANANA É UM HERÓI A senhora Ana Gomes tem a serenidade política de uma cantora de flamenco.
ANIVERSÁRIO Há dias fiz 39 anos. Nada de dramático ou excitante, só mais um ano. E embora eu me sinta cada vez mais próximo do Prufrock ("I grow old...I shall wear the bottom of my trousers rolled"), vêm outros dias em que dou mais para o Maurice Chevalier no Gigi, cantarolando o I'm glad I'm not young anymore. Certezas, só uma: tenho 39 anos, mas não chega.
NÃO ME FUI EMBORA Reparo, com algum espanto, que já não escrevia há alguns dias. A vida tem uma maravilhosa mania de se intrometer nos nossos interesses.

quarta-feira, outubro 08, 2003

MAS COMO DE COSTUME, É A POESIA QUE SALVA O DIA (cap.45) De um dos melhores poetas contemporâneos, José Tolentino Mendonça (podem encontrá-lo aqui.

Se me puderes ouvir

O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer segredamos

mas hoje se me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo
RECEPÇÃO A S. PAULO Os deputados do PS (e de outras bancadas, segundo leio) aplaudiram de pé o regresso de Paulo Pedroso. Porquê ? Farão o mesmo se se provar que o homem é culpado ? O PS tem finalmente o que lhe faltava na sua desastrada não-estratégia de oposição: um mártir.

segunda-feira, outubro 06, 2003

DISCOS DO ANO O sempre atento e felizmente comprometido espectador contesta ao de leve a minha escolha de Want One, de Rufus Wainwright, para disco do ano. Eu percebo: o ano ainda não acabou, e houve certamente mais discos. Mas estas coisas, na música pop, valem o que valem. Onde se lê:"o melhor disco do ano", deverá ler-se "o melhor disco do ano da semana". O tempo é que se encarrega do resto.
Agora, que o disco é bom, é. Não sei se é melhor do que Poses. Mas sei que a sua beleza vem por ser precisamente o pós-estado de graça. Depois de Poses (soberbo, lembre-se) , Wainwright ficou famoso e perdeu-se. Este espantoso renascimento - mesmo com camp à mistura, o que eu não concordo - é a prova de que ali há solidez. E, incrivelmente, a escrita do homem melhorou.
E já que estou a falar do excelente espectador, aconselho vivamente a leitura do seu post sobre o 5 de Outubro, a democracia e a sua chegada.
CONSTATAÇÃO DO ÓBVIO Ontem foi 5 de Outubro. Só isso. O quinto dia de Outubro. Mais nada, como sempre deveria ter sido, se houvesse justiça.
NADA COMO CAMÕES PARA ARREBITAR OS CORAÇÕES E muito pouco é tão bom.

Tanto de meu estado me acho incerto
 
Tanto de meu estado me acho incerto, 
que em vivo ardor tremendo estou de frio; 
sem causa, juntamente choro e rio, 
o mundo todo abarco e nada aperto. 

É tudo quanto sinto, um desconcerto; 
da alma um fogo me sai, da vista um rio; 
agora espero, agora desconfio, 
agora desvario, agora acerto. 

Estando em terra, chego ao Céu voando, 
numa hora acho mil anos, e é de jeito 
que em mil anos não posso achar uma hora. 

Se me pergunta alguém porque assi ando, 
respondo que não sei; porém suspeito 
que só porque vos vi, minha Senhora. 
 
  


sábado, outubro 04, 2003

TENHO UMA LÁGRIMA NO CANTO DO OLHO E esta é a razão.

quarta-feira, outubro 01, 2003

VERSOS Encontrei estes quatro lindissimos versos de Walter Savage Landor. Embora na sua essência, o poema tenha a ver com um amor - um desejo, também - que o poeta se esforça por matar e se resigna nessa impossibilidade, ele aplica-se também à vida, numa inesperada aproximação schopenhaueriana que muito me agrada.O poema é por mim dedicado a C.

My hopes retire; my wishes as before
Struggle to find their resting place in vain:
The ebbing sea thus beats against the shore;
The shore repels it; it returns again.

Walter Savage Landor
CENAS DE UM CASAMENTO 3 O meu amigo Chalabi, de pé sobre o seu caixote de ameixas, corrige -e bem - a declaração do nosso marxista de estimação: de facto o que ele disse foi mesmo "Onde está a minha cascata de gambas?", o que por si só diz bastante sobre o futuro da luta de classes.
Quanto ao terceiro blogger presente (os outros dois éramos nós), tratava-se nem mais nem menos do que o estimado Manuel Falcão.

segunda-feira, setembro 29, 2003

O MELHOR VERSO PARA QUEM SOFRE DE AMOR

But oh Medusa, kiss me and crucify
this unholy notion of the mythic power of love

Go Or Go Ahead, Rufus Wainwright
CENAS DE UM CASAMENTO 2 Como é hábito nestes eventos, revêem-se velhas amizades que a vida foi mais ou menos separando. Nesta matéria, gostei muito de rever o último dos burgueses marxistas, nado e criado na Avenida de Roma e que persiste, apesar de todas as evidências, em acreditar num paraíso na Terra. Tudo isto seria maçador se o individuo em questão não tivesse muita graça. E foi vê-lo, durante o jantar, lançando diatribes contra "estas festas burguesas", e, ao ver o colunista Vasco Rato deixar a sala, lançar um grito de "O Rato é sempre o primeiro a abandonar o navio!".
No entanto, nada superou a sua imagem de opulência capitalista: "Esta festa é um insulto aos trabalhadores ! Champanhe, muita comida….Onde está a cascata de gambas ?"
CENAS DE UM CASAMENTO 1 Fui, no último sábado, a um jantar de casamento de um amigo. Como o noivo é diplomata, a sala estava repleta de "personalidades" políticas (a começar pelo Chefe de Estado), colunistas, jornalistas, músicos, embaixadores, administradores, presidentes da câmara e outros. Mas mais importante do que isso: naquela sala, e que eu reconhecesse, estavam três bloggers.
HIP, HIP Hurra !
MANCHA BRANCA A Marcha Branca (que ficará para a história como a maior exportação belga para o nosso país) já exalava um inconfundível odor a demagogia desde o seu anúncio, independentemente da sinceridade de intenções dos seus participantes (é dificil não se ser "contra" a pedofilia). Mas digam-me, digam-me que é mentira que o povo gritou em uníssono "Rui Tei-xei-ra! Rui Tei-xei-ra!". Disto às milicias, é um passo de criança.

quarta-feira, setembro 24, 2003

A POESIA É QUE SALVA O DIA Já tinha saudades de colocar um poema aqui no Tradução. Foi de resto algo que deu um pouco de personalidade ao blogue, quando já há algum tempo, num acesso de extrema modéstia, achei que o universo estaria interessado nas minhas idiossincrassias. Este é um dos meus favoritos, de um poeta que muito admiro e que tive a sorte de ver e ouvir live in Dublin, em 1995. É a mais bonita justificação para o oficio de poeta que conheço.

PERSONAL HELICON, de Seamus Heaney

As a child, they could not keep me from wells
And old pumps with buckets and windlasses.
I loved the dark drop, the trapped sky, the smells
Of waterweed, fungus and dank moss.

  One, in a brickyard, with a rotted board top.
I savoured the rich crash when a bucket
Plummeted down at the end of a rope.
So deep you saw no reflection in it.

  A shallow one under a dry stone ditch
Fructified like any aquarium.
When you dragged out long roots from the soft mulch
A white face hovered over the bottom.
Others had echoes, gave back your own call
With a clean new music in it. And one
Was scaresome, for there, out of ferns and tall
Foxgloves, a rat slapped across my reflection.

Now, to pry into roots, to finger slime,
To stare, big-eyed Narcissus, into some spring
Is beneath all adult dignity. I rhyme
To see myself, to set the darkness echoing.





EU 'TOU A AVISAR Em breve, quando tiver um bocadinho mais de tempo, um post mais longo sobre um desejo de determinismo nos afectos. Mussolini, Hitler e romance, tudo junto ? Ah pois.
COISAS QUE SALVAM Não há nada mais sublime do que alguém que estimamos dizer-nos sinceramente:"Ontem à noite rezei por ti".
CENAS DO MUNDO DA ALTA FINANÇA Eu e os meus sócios fomos ao banco (parece um título da série Anita:"Os sócios vão ao banco"). O sobreamável funcionário começa a explicar detalhadamente as vantagens de um espantoso programa informático de gestão.
O único de nós que conseguiu ficar acordado disse: "Eu não quero isso em minha casa!"
Temos mais hipóteses de ficar milionários jogando uma só vez no Totoloto.
TEOLOGIAS SUBSTITUTAS E STEINER PARA O DIA-A-DIA Sábado à noite, quatro amigos em conversa. Um deles é psicólogo. Alguém quer saber a diferença entre psiquiatra e psicólogo.
-O que é um psiquiatra ?
-Um médico.
-E um psicólogo ?
-Um padre.

segunda-feira, setembro 22, 2003

FIQUEI TÃO TRISTE...Como é que a Charlotte não gosta do sublime The Office ? Vá lá, give it another try...
DISCO DO ANO ? DISCO DO ANO! Já aqui tinha ameaçado, mas digo agora sem vergonha: Want One, de Rufus Wainwright, é o disco do ano. Para quem gosta de canções - melodias que embrulham palavras com principio meio e fim - este é o antídoto perfeito. Como é que se pode misturar Cole porter, Ravel, Schubert, rock, country e sobreviver para contar a história ? As letras são extraordinárias e Dinner At Eight ou Go Or Go Ahead os momentos mais emocionais a que fui sujeito nos últimos tempos. E há a ironia erudita de Wainwright, a todo o vapor:

My phone's on vibrate for you
Electroclash is karaoke too
I tried to dance Britney Spears
I guess I must be getting on my years

ou
Start giving me something
A love that lasts longer than a day

ou
Thank you for this bitter knowledge
Guardian angels who left me stranded
It was worth it, feeling abandoned
Makes one hardened but what has happened to love

ou...
PEDIMOS DESCULPA POR ESTA INTERRUPÇÃO Mas acreditem, se não escrevi por estes tempos é porque não tinha mesmo nada para dizer. Ou não me apeteceu, não sei.

quarta-feira, setembro 17, 2003

JORNAL DE NEGÓCIOS Ontem tornei-me oficialmente "sócio-gerente" de uma empresa, responsabilidade aterradora que partlho com dois amigos meus. Foi espantoso como a pachorrenta burocracia nacional dizimou qualquer esperança de alegria ou comemoração do acontecimento: um foi para casa ver o Porto-Partizan, o outro a um cocktail, e eu para casa dormir. Nunca seremos Belmiros ou Champalimauds.
A QUEM POSSA INTERESSAR Amanhã, por volta das 18.30, na FNAC-Chiado em Lisboa, Rodrigo Leão vai estar no café para comentar e antecipar o que será o encerramento da digressão Pasión. Vai também ser projectado um pequeno "documentário" sobre a digressão. A má notícia é que eu também irei lá estar, para ajudar à conversa e tecer inanes considerações. Se mesmo assim quiserem aparecer, fica o convite. Se a coisa correr mal, há sempre os livros e os discos.
Para quem quiser ir aos concertos, aviso que só há bilhetes para domingo, dia 21, data extra. Mas aconselho a porfiar, que vai valer a pena.

segunda-feira, setembro 15, 2003

E NÃO SE PODE...Tomei agora conhecimento do mail odioso que o Pedro Mexia recebeu. Confesso que nestes momentos amaldiçoo a liberdade.
TEMOS O FLASH, MAS ONDE ESTÁ A MOB ? Leio com indisfarçável agrado que a primeira flash-mob prevista para Lisboa ( esse happening de segunda, em que várias pessoas combinam encontrar-se num determinado local para acenarem para uma câmara), dizia, a primeira flash mob teve como participantes...3 infelizes que ninguém conseguiu avisar de modo a que não fizessem figura de ursos. Para além destes três estarolas, próximo da Assembleia da República (até o local é à portuguesa, "simbólico") só estavam uma vintena de polícias destacados para o efeito e claro, vários fotógrafos que provavelmente devem ter tirado retratos aos agentes. São fracassos como este que me fazem acreditar na sensatez do povo português (enfim, os nús de Santa Maria da Feira é outra história). Agora só falta abandonar o modismo hippie do bookcrossing.
REGRESSO ÀS AULAS Hoje fui levar dois dos meus filhos para um novo passo na vida deles: a mais velha, pela primeira vez na Primária. O do meio, na pré-primária, pela primeira vez na mesma escola da irmã. E quem me pode dizer o que era aquilo que senti, aquela indizivel mistura de orgulho, ternura e um irredutível desejo de me sentar numa carteira e começar tudo outra vez, ao lado deles?
PEQUENAS ALEGRIAS QUE CONTAM Seis pontos em três jogos. Duas vitórias fora de casa. Uma equipa a jogar como deve ser, e a honrar a sua história. Um treinador que regressa, sério e perspicaz. Pode ser prematuro, mas há muito tempo que eu não estava tão contente com a minha Académica.

domingo, setembro 14, 2003

E O AUTOR É... Revele-se enfim o autor dos textos para que pedi a voissa colaboração: Adriano Moreira. Fazem parte de crónicas que foram reunidas no livro Tempos de Véspera, da Editorial Notícias. É um estilo de escrita atípico do professor, é verdade. Mas que estilo.
EXULTAI TODOS,EXULTAI O estimado Ricardo Araújo Pereira regressou de férias com descendência. Quantos poderão dizer o mesmo e não cairem numa pieguice abissal ? Ninguém. Mas o Ricardo transforma um acontecimento decisivo da sua vida num texto auto-irónico e de uma ternura sem par. Sacana! Aposto que os moleskine que tinhas para me dar já estão com anotações das horas dos biberões.
Por isso, aqui vai o abraço compreensivo e encorajador de quem três pequenas e belíssimas razões para saber do que falas. E quando quiseres discutir os melhores conventos para colocar a Ritinha aos 16 anos, fala comigo. Eu tenho duas filhas, e saio à noite.

sexta-feira, setembro 12, 2003

ALL IN BLACK Morreu Johnny Cash. Morreu um homem a sério.
CONCURSO, 2 A julgar pelas respostas que já tive, toda a gente irá ser surpreendida (como eu o fui) quando revelar o autor do texto colocado um pouco lá em baixo. Para uma maior ajuda, fica aqui mais um excerto, desta vez mais próximo da faceta pública deste homem que, sim, é um político. Português e retirado. (não é o Soares, pelo amor de Deus)

«Procurar a graça de entender quais são os valores permanentes que é chamado a servir e que são o eixo, na família, na amizade, na profissão, na cidadania.Encontrar esse eixo e identificar-se com ele. Saber que este nascer quotidiano de novas eras verbais é como a paisagem variável que uma roda em movimento vai atravessando.É bom olhar com interesse para a paisagem.Mas fazendo como o eixo da roda, que acompanha a roda mas não anda»

quarta-feira, setembro 10, 2003

HÓSTIAS DO OFÍCIO Já ouvi o novo disco do excelso Rufus Wainwright. É excelente. E a canção Vibrate, uma pequena jóia.
REGRAS PARA BLOGGERS, #154: Quando se janta sózinho, tudo o que vem à rede é blogue.
AGRADECIMENTOS Pelas palavras desproporcionadas do excelente Alberto Gonçalves; pela designação de "já conceituado", em que o Nuno inclui o Tradução Simultânea. Aos dois, e levemente ruborizado, o meu obrigado sincero.

segunda-feira, setembro 08, 2003

CONCURSO Dou um doce a quem adivinhar o autor destas palavras (publicadas, se não estou em erro, no final da década de 60), que uma querida amiga me deu a conhecer em boa hora. Aceitam-se então as vossas respostas. O mail está ali ao lado, ao pé do Robert Frost.

«Quando a pretensão espera, o projecto dorme, o processo não anda, o trabalho não começa, a estrada pára, o decreto não sai, o crédito não vem, a promoção se adia, o concurso se interrompe, a resposta se ilude, a opção não é tomada - o preço de tudo isso chama-se vida"

sexta-feira, setembro 05, 2003

LEITURAS BLOGUEIRAS EM DIA , PARTE 1 Nestes últimos tempos, decidi-me finalmente a sair das minhas habituais visitas bloguísticas e confirmar os encómios que por aí vejo espalhados. Fiquei contente, porque posso confiar nos amigos: este homem é mesmo bom.
A FESTA DO AVANTE Começou mais uma pitoresca edição da Festa do Avante.Não me intrepretem mal: ainda acho que é um evento memorável e, dada a implacável marcha do tempo, cada vez mais heterogéneo.Tenho boas lembranças do acontecimento:um concerto extraordinário dos Dexy's Midnight Runners na fase aguerrida do Searching For The Young Soul Rebels.Pouco depois, Kevin Rowland descobria o nómada celta de jardineiras e a coisa ficou estragada.
Mas divago.
Foi a primeira reportagem a sério que fiz n'O Independente, e fui acompanhado por dois amigos marxistas da Avenida de Roma - já na altura, das poucas maneiras de se ser marxista. Vi a militância, o carisma, raparigas bonitas mal vestidas e muito pó. E as míticas bancas de Cuba, Angola, Bulgária (estava-se em 1988,crianças:havia muro) e outros países distantes. Fiquei fascinado com a força do discurso de encerramento de Álvaro Cunhal.
Hoje, oiço atrás de mim, numa televisão ligada, o triste discurso do dr.Carvalhas.E a coisa ficou mais patética quando o secretário-geral entra numa ladainha cantada:"Jota Cê Pê, juventude do pê cê, jota...". Mas depois compreendi: como diz o povo, cantar é rezar duas vezes.








quinta-feira, setembro 04, 2003

DEUS, Só POR UM BOCADINHO Estive no passado sábado em Alcobaça, cidade que estimo e onde tenho muitos e bons amigos. A dada altura, esmagado pelo excesso de generosidade com que sempre me brindam combinado com o horário tardio, decidi regressar antes que o não conseguisse fazer.
Poucas horas depois, caiu uma chuva torrencial sobre a cidade, que inundou toda a Baixa.
Quantos são os que podem dizer como eu: "Depois de mim, o dilúvio" ?
MAIS UM LUGAR PARA IR Porque é que eu nunca tive uns dezanove anos parecidos com os deste rapaz ?
CRÍTICA DA RAÇÃO PURA Absolutamente brilhante.

terça-feira, setembro 02, 2003

O REGRESSO 1. Gosto de regressar. As partidas pouco me dizem. Sim, há a curiosidade do que se irá encontrar, os tropeções do acaso dos afectos e dos lugares. Mas tudo se desvanece depressa, porque o instante mata o instante seguinte; a partir de certa altura, por perversão, atavismo nacional ou nostalgia literária, é o regresso que me apetece.
Agrada-me ser feito da memória que tenho, e é no regresso que ela cintila, porque assume a forma superior da saudade, perfeição absoluta limada das arestas efémeras dos dias. Voltar ao que conheço, ao que amo, é das experiências que mais acarinho na vida.
Não é por acaso que me emociono sempre que oiço estes versos do Volver, que nem por isso é o meu tango preferido:

Sentir... que es un soplo la vida,
que veinte años no es nada,
que febril la mirada, errante en las sombras,
te busca y te nombra.

É esta procura do que se ama, independente do que se viu, do que passámos ou mesmo por quem passámos que para mim dá mais sentido à vida. Outro exemplo artistico desta minha filiação é o filme O Homem Tranquilo, de John Ford, onde um homem traz o seu passado para um lugar que não conhece mas que sempre conheceu ? e lentamente se integra nesse que é o mais belo regresso filmado (para além de outras motivações, mas isso é outra história).

2. Assim na vida, assim nos amores, assim na amizade. Um amigo que regressa por improváveis circunstâncias aos nossos dias e nós aos dele ? como, por felicidade, me tem acontecido várias vezes ? não tem nada que se lhe compare. Talvez o estar apaixonado, dirão. Mas apaixonar-se é uma partida, não é um regresso. Quando se volta, já há pouco a perder e não é necessária a coragem que se tem de ter sempre quando se parte.
E depois há um mistério único, que confere a tudo a primeira vez: cada sorriso o primeiro, cada rua a primeira, cada palavra a primeira.
Até à próxima partida, até ao próximo regresso.

domingo, agosto 31, 2003

QUASE DE VOLTA mas só amanhã começa a diversão a sério. Hoje, só saudades confessas do teclado aliadas a uma "preguiça transcendental", como diria um amigo. Para já, tenho de me livrar desta música brilhante que me persegue. Revivalista, moi ? Não: é uma boa canção em qualquer ano. Até amanhã.


The Postal Service - Such Great Heights

I am thinking it's a sign
that the freckles in our eyes
are mirror images and when we kiss they are perfectly aligned

And I have to speculate
that God himself did make
us into corresponding shapes like pieces from the clay

And true, it may seem like a stretch,
but its thoughts like this that catch
my troubled head when you're away, when I'm missing you to death

When you are out there on the road
for several weeks of shows
and when you scan the radio, I hope this song will lead you home.

They will see us waving from such great heights,
"come down now", they'll say
but everything looks perfect from far away,
"come down now", but we'll stay...

I tried my best to leave
this all on your machine
but the persistent beat it sounded thin upon listening

And that frankly will not fly.
You will hear the shrillest highs
and lowest lows with the windows down when this is guiding you home.

sexta-feira, agosto 15, 2003

IT IS TIME Esta última semana foi horrível, terminando com a perda inesperada de um amigo antigo. É altura de parar por uns tempos. Falamos para o mês que vem.
RECADO PARA O ZÉ MATOS "Filha", pede-Lhe para escolher o vinho e guarda a mesa, porque estamos todos a caminho. Um abraço.

segunda-feira, agosto 11, 2003

DE REPENTE, NO CALOR Juro que hoje não ia escrever nada. Talvez apenas uma breve descrição do enorme prazer que me deu ter conhecido o excelente MacGuffin, ainda por cima na sua cidade, a bela Évora. Correspondeu às expectativas e apenas pecou por ser breve, que a conversa prometia.
Juro que não ia escrever nada. Mas depois li o texto "A Derrota", do Alexandre Franco Sá, e de repente percebi que ainda se pode pensar e ser brilhante sob a canícula. É um post aparentemente sobre Ésquilo, mas é sobre a vida. Fez-me lembrar o verso de Yeats: "I sing what was lost, and dread what was won". Lêde, por favor.

sexta-feira, agosto 08, 2003

EPÍGRAFE PARA O GÉNERO HUMANO

É inútil dizer o que se pensa.
Se é frouxa a frase, é nada; e é vã se é intensa.
Cada um compreende só o que sente
E entre alma e alma a estupidez é imensa.

Fernando Pessoa

quinta-feira, agosto 07, 2003

BREVE AVISO NA PORTA A canícula absurda, que me faz ser solidário com Meursault, frita-me as ideias e a escrita. Por isso mesmo, as traduções simultâneas das realidades irão ser mais irregulares ainda até ao principio de Setembro - mês que normalmente é prenúncio de civilização. Não se abstenham por isso de dizer coisas, que o correio é sempre lido e respondido.
MAIS COUPLING (e sempre deliciado)

Jane: Então, o que é que acham do meu novo namorado ?

Steve: Jane, pelo amor de Deus, ele não é teu namorado. Ele é gay, e está farto de to dizer. Ele não se sente atraído por mulheres - sente-se atraído por homens.

Jane: Helllooooo...Sou bisexual!

segunda-feira, agosto 04, 2003

ESCAPULÁRIO DE PALAVRAS, PARA USO QUOTIDIANO

Vem, ó Graça, que desvelas os mistérios divinos
e resolves o enigma que propõem os sapientes
Vem, fala em mim, não sou capaz sozinho
de um discurso onde a verdade brilhe.

Tiago de Sarug (sec.VI), traduzido por José Tolentino de Mendonça
REVENDO A PRIMEIRA SÉRIE DE COUPLING, DELICIADO

Sally (durante um jantar) : I don't understand this thing men have with lesbianism. I mean, it's a whole area of sex where they don't have nothing to do. (pausa, embaraçada) I think I've answered my own question, haven't I ?

domingo, agosto 03, 2003

O EMBARAÇO DA ESCOLHA O problema com as encruzilhadas que a vida nos oferece - profissionais, sociais, passionais, banais - é que tem de haver sempre uma escolha.E depois de a fazermos, falhamos ou ganhamos, e seguimos em frente, para descobrir que não existe mais nada a não ser novas encruzilhadas. Assim, até ao fim.
RESPEITEM MEUS CABELOS,BRANCAS ! (com a devida vénia ao Chico César)
Diálogo entreouvido num café e protagonizado por duas mulheres entre os 30 e os 35 anos:

-Tu não conheces aquele homem ?
- Eu ? Qual ? Sim...acho que sim, conheço. Mas não é um homem, é um miúdo.

Falavam de mim.
BEM/MAL vs. CERTO/ERRADO Noutro registo, mas não menos relevante, o estimado Maradona deixou-me também a sua contribuição.

"Fazer o Certo é colocar a titular tanto o Toñito como o Hugo e, apesar disso, o Sporting ganhar. Fazer o Bem é ter a certeza da derrota em consequência da não inclusão dessa dupla-terrorífica na equipa - por eventual posse oracular de informação sobre esse milagre futuro - e, mesmo assim, expulsá-los para a equipa de futsal.

O Bem é, por conseguinte, infinitamente superior ao Certo."

BEM E O MAL/A TRAIÇÃO: MAIS SUBSÍDIOS O João Raposo tinha-me já escrito um longo e interessantíssimo texto sobre o desafio que há tempos aqui deixei. Agora, o João teve a amabilidade de voltar a escrever, desta vez suportado pelas perguntas feitas pela Sara. De salientar que o João Raposo prepara um trabalho académico sobre os conceitos do Bem e do Mal, o que torna a sua contribuição ainda mais preciosa. Leiam até ao fim, que não focam a perder:

"1) O traidor sente a culpa ?

Mas quem é que o traidor trai? O outro ou a si mesmo?
Trair, não implicará a consciência da traição? Se essa consciência não existir, haverá traição?
Vamos supor que existe consciência.
Se ajo em função dos meus princípios, posso falar de traição? Ou traição seria antes agir contra os meus princípios, traindo-me a mim mesmo?
Se os meus princípios me mandam agir da maneira "A" e não da "B" (que é aquela que todos os que me rodeiam esperam) estarei a trair os outros? Na perspectiva do respeito pelos meus princípios não, na perspectiva do(s) outro(s) sim. Então será que podemos falar de traição? Ou resolvemos a questão (fugindo dela) dizendo que é tudo relativo, que o relativismo destroi os valores, etc.
Voltando aos meus princípios. Será que, sendo eu uma pessoa de princípios, não está neles incluído o respeito pelo outro? E se está, como posso eu agir de acordo com um princípio e ao mesmo tempo violar outro? Esta questão remete-nos para uma hierarquia de valores (ou princípios), onde o mais elevado se sobrepõe ao mais baixo. Nos nossos actos quotidianos, concretos, esta hierarquia está sempre presente, ainda que não explícita. Se ajo da maneira "A" de acordo com o princípio mais elevado, não estou a trair... ainda que os outros se possam sentir traídos. Porquê, então a culpa? Porque o nosso horizonte de pré-compreensão (judaico-cristão), anterior à reflexão, nos diz que sim? Haverá uma "incompatibilidade" entre esse horizonte de pré-compreensão e o resultado do pensamento reflexivo? Será o peso da "tradição" assim tão "pesado" que se sobreponha a qualquer reflexão e nos transporte para uma culpa irremissível (porque também nunca poderemos aceitar o peso da traição a nós próprios)? Então, sim, verdadeiramente o Bem e o Mal existem (como algo com uma consistência própria). Ou talvez melhor: O Bem não existe, apenas o Mal... Porque, agindo da maneira "A" ou da "B", estaremos sempre a trair alguém... Porque o Mal é ser incapaz de seguir os resultados da própria reflexão que busca, sem cessar, sem limites, a sua fundamentação. Ainda há dias o "Animal" dizia uma frase muito usada: "sou ateu, graças a Deus".
Seremos ateus, mas incapazes de ultrapassar esse horizonte de pré-compreensão. E quando isso parece acontecer, deparamo-nos com a angústia de sermos os únicos responsáveis pelos nossos actos. Irremediavelmente "condenados à liberdade", que faremos com ela? Voltamos atrás, esquecêmo-la, ou assumimos a condição de ser humanos e aceitamos a dor (o mal?) de sermos os autores do nosso próprio sentido?
Voltando um pouco atrás, todo o conjunto de valores (ou princípios) possui uma hierarquia e tal não é problema. Problema seria não existir (o que é uma impossibilidade prática). Problema realmente grave, que conduz ao "mau nome" do relativismo, é alterar essa hierarquia de acordo com os interesses do momento, o que revela a solubilidade do carácter e nada tem a ver com o relativismo.


2) Devem alguns homens condenar um homem, ainda que o façam em nome do Bem e do Mal ?

Não direi que o devem condenar (e não tem nada a ver com o direito de condenar ou não os outros...) mas direi que o podem e devem julgar.
Existir, é estar aí para o outro. O outro é indispensável para que eu me reconheça, para a minha própria identidade, Há um laço impossível de ignorar, que me liga ao outro, e que possibilita que eu seja. Isto que dizer que eu não posso, nunca, ignorar o outro, porque aquilo que ele faz e é, afecta-me. Portanto, não só posso, como devo julgar (que não é condenar) o outro. Julgar é neste sentido avaliar, pesar, procurar a justa medida que guie a nossa conduta. Dizer que aquilo que ele faz é com ele, é uma perversão do respeito para com o outro e é aquilo que conduz à indiferença. Dizer que os costumes, os valores, do outro (Ex: Saddam, Fidel, Bush, etc) têm que ser compreendidos dentro dos seu próprio sistema de valores e que estes são relativos, é normalmente uma desculpa para nada fazer e transferir a culpa para o relativismo e isto é o Mal, o nosso Mal.
O mal dos outros, são os assassínios, as prisões, as torturas, as perseguições, ou mais silenciosa, mais fatal, a fome ou a doença. Veja-se África, qualquer (mas mesmo qualquer) país. Isto é o mal e o mal somos nós. Os que fazemos e os que calamos... Por isto temos, não em nome do Bem ou do Mal, mas simplesmente da HUMANIDADE, o direito de julgar, avaliar, pesar, procurar a justa medida que guie a nossa conduta. Julgar para agir...



3(escrevi eu)" Em princípio, ninguém teria o direito de julgar ninguém, pelo menos neste mundo. Mas em termos sociais, a não-condenação coincidiria com uma total ausência de valores, e portanto a anarquia. O problema é o do relativismo de valores: se eu faço o que reconheço ser o Bem noutro lugar que pratica um diferente sistema de valores (e que portanto para a mesma acção reconhece como o Mal), é justo que seja condenado ?"

É.
Será justo que condenemos uma mulher que, em África, com um caco de garrafa de vidro faz uma excisão do clítoris à própria filha ou a qualquer mulher? E se for em Portugal (recentemente vieram a público casos destes no nosso país)? A cultura e os valores pessoais são semelhantes. Poderemos nós que temos uma cultura diferente calar o que será uma injustiça e um atentado aos direitos humanos, ainda que os próprios envolvidos o aceitem?
Podemos.
O relativismo é acusado de todos os malefícios morais. Mas será ele uma causa ou uma consequência? Do relativismo se diz que conduz à ausência de valores. Mas não será antes ele que nos leva à percepção e à afirmação desses valores?
Dizer que não há valores, quer dizer, em rigor, que os valores dos outros não são os nossos... E esse é que é o nosso problema.
Seria muito simpático, muito cómodo, seriamos todos (mais?) felizes(?) se houvesse uma unidade de valores, se todos pudéssemos entender do que falamos, se o Mal e o Bem fossem claramente identificáveis. Até há não muitos anos (os nossos pais e avós são contemporâneos dessa época) a Igreja, a Escola, o Governo, os Pais, eram os guardiães da moral (e da fé) e tudo estava certo, porque todos sabiam qual era o seu lugar: os pais mandavam porque eram pais, os professores mandavam porque educavam, a Igreja era a referência dos bons costumes, o Governo governava. Tudo simples, tranquilo e ninguém, mas ninguém precisava de psicanálise.
Depois, tudo se complicou. Só um exemplo: As mulheres começaram a exigir direitos e, pior que isso, que tinham os mesmos direitos dos homens. Passaram a votar, fumar, a andar de calças, a ir aos cafés etc.
Tomando o exemplo do nosso país, há quanto tempo têm as mulheres direito ao voto? Há quanto tempo têm as mulheres os mesmos direitos (legais) que os homens? Ora quando mais de metade da população mundial começa no século XX a ter direito à igualdade, não é isto um enorme salto qualitativo no que respeita a valores? Ou será que quando a mulher não tinha alma (até 1821?), quando filhos, filhas, mulher podiam ser vendidos, quando ainda no século XX a escravatura era legal, os valores eram mais firmes? Só por desatenção se pode dizer que hoje não há valores. Nunca tantas pessoas afirmaram os direitos da humanidade em nome dessa mesma humanidade. Ainda que pequeno exemplo, o enorme movimento de solidariedade com as mulheres que iam ser lapidadas na Nigéria, salvou-as, ou pelo menos adiou algo e chamou a atenção de mais gente para o que se passa por esse mundo fora.
O relativismo é apenas a consequência de mais gente falar, reivindicar, exigir ter a sua própria voz. Esse é o único caminho para a humanidade. A seu tempo, tudo se ajustará, ainda que nós já cá não estejamos.
O relativismo, volto a dizê-lo, não é problema. Problema é a nossa vontade de desresponsabilização que o invoca para não agir.


quinta-feira, julho 31, 2003

UMA LEMBRANÇA, UM POEMA

QUE MAL PODEM AS PALAVRAS

Uma alegria profunda nos protege
quero dizer obscura, quero dizer
silenciosa.Sim, sabemos tantos modos
de imitar o fim da pouca vida
que sobra sempre a matéria dos desertos
para errar os amores novos.Que mal
podem as palavras saber de ti.

António Manuel Azevedo