REVENDO A PRIMEIRA SÉRIE DE COUPLING, DELICIADO
Sally (durante um jantar) : I don't understand this thing men have with lesbianism. I mean, it's a whole area of sex where they don't have nothing to do. (pausa, embaraçada) I think I've answered my own question, haven't I ?
segunda-feira, agosto 04, 2003
domingo, agosto 03, 2003
O EMBARAÇO DA ESCOLHA O problema com as encruzilhadas que a vida nos oferece - profissionais, sociais, passionais, banais - é que tem de haver sempre uma escolha.E depois de a fazermos, falhamos ou ganhamos, e seguimos em frente, para descobrir que não existe mais nada a não ser novas encruzilhadas. Assim, até ao fim.
BEM/MAL vs. CERTO/ERRADO Noutro registo, mas não menos relevante, o estimado Maradona deixou-me também a sua contribuição.
"Fazer o Certo é colocar a titular tanto o Toñito como o Hugo e, apesar disso, o Sporting ganhar. Fazer o Bem é ter a certeza da derrota em consequência da não inclusão dessa dupla-terrorífica na equipa - por eventual posse oracular de informação sobre esse milagre futuro - e, mesmo assim, expulsá-los para a equipa de futsal.
O Bem é, por conseguinte, infinitamente superior ao Certo."
"Fazer o Certo é colocar a titular tanto o Toñito como o Hugo e, apesar disso, o Sporting ganhar. Fazer o Bem é ter a certeza da derrota em consequência da não inclusão dessa dupla-terrorífica na equipa - por eventual posse oracular de informação sobre esse milagre futuro - e, mesmo assim, expulsá-los para a equipa de futsal.
O Bem é, por conseguinte, infinitamente superior ao Certo."
BEM E O MAL/A TRAIÇÃO: MAIS SUBSÍDIOS O João Raposo tinha-me já escrito um longo e interessantíssimo texto sobre o desafio que há tempos aqui deixei. Agora, o João teve a amabilidade de voltar a escrever, desta vez suportado pelas perguntas feitas pela Sara. De salientar que o João Raposo prepara um trabalho académico sobre os conceitos do Bem e do Mal, o que torna a sua contribuição ainda mais preciosa. Leiam até ao fim, que não focam a perder:
"1) O traidor sente a culpa ?
Mas quem é que o traidor trai? O outro ou a si mesmo?
Trair, não implicará a consciência da traição? Se essa consciência não existir, haverá traição?
Vamos supor que existe consciência.
Se ajo em função dos meus princípios, posso falar de traição? Ou traição seria antes agir contra os meus princípios, traindo-me a mim mesmo?
Se os meus princípios me mandam agir da maneira "A" e não da "B" (que é aquela que todos os que me rodeiam esperam) estarei a trair os outros? Na perspectiva do respeito pelos meus princípios não, na perspectiva do(s) outro(s) sim. Então será que podemos falar de traição? Ou resolvemos a questão (fugindo dela) dizendo que é tudo relativo, que o relativismo destroi os valores, etc.
Voltando aos meus princípios. Será que, sendo eu uma pessoa de princípios, não está neles incluído o respeito pelo outro? E se está, como posso eu agir de acordo com um princípio e ao mesmo tempo violar outro? Esta questão remete-nos para uma hierarquia de valores (ou princípios), onde o mais elevado se sobrepõe ao mais baixo. Nos nossos actos quotidianos, concretos, esta hierarquia está sempre presente, ainda que não explícita. Se ajo da maneira "A" de acordo com o princípio mais elevado, não estou a trair... ainda que os outros se possam sentir traídos. Porquê, então a culpa? Porque o nosso horizonte de pré-compreensão (judaico-cristão), anterior à reflexão, nos diz que sim? Haverá uma "incompatibilidade" entre esse horizonte de pré-compreensão e o resultado do pensamento reflexivo? Será o peso da "tradição" assim tão "pesado" que se sobreponha a qualquer reflexão e nos transporte para uma culpa irremissível (porque também nunca poderemos aceitar o peso da traição a nós próprios)? Então, sim, verdadeiramente o Bem e o Mal existem (como algo com uma consistência própria). Ou talvez melhor: O Bem não existe, apenas o Mal... Porque, agindo da maneira "A" ou da "B", estaremos sempre a trair alguém... Porque o Mal é ser incapaz de seguir os resultados da própria reflexão que busca, sem cessar, sem limites, a sua fundamentação. Ainda há dias o "Animal" dizia uma frase muito usada: "sou ateu, graças a Deus".
Seremos ateus, mas incapazes de ultrapassar esse horizonte de pré-compreensão. E quando isso parece acontecer, deparamo-nos com a angústia de sermos os únicos responsáveis pelos nossos actos. Irremediavelmente "condenados à liberdade", que faremos com ela? Voltamos atrás, esquecêmo-la, ou assumimos a condição de ser humanos e aceitamos a dor (o mal?) de sermos os autores do nosso próprio sentido?
Voltando um pouco atrás, todo o conjunto de valores (ou princípios) possui uma hierarquia e tal não é problema. Problema seria não existir (o que é uma impossibilidade prática). Problema realmente grave, que conduz ao "mau nome" do relativismo, é alterar essa hierarquia de acordo com os interesses do momento, o que revela a solubilidade do carácter e nada tem a ver com o relativismo.
2) Devem alguns homens condenar um homem, ainda que o façam em nome do Bem e do Mal ?
Não direi que o devem condenar (e não tem nada a ver com o direito de condenar ou não os outros...) mas direi que o podem e devem julgar.
Existir, é estar aí para o outro. O outro é indispensável para que eu me reconheça, para a minha própria identidade, Há um laço impossível de ignorar, que me liga ao outro, e que possibilita que eu seja. Isto que dizer que eu não posso, nunca, ignorar o outro, porque aquilo que ele faz e é, afecta-me. Portanto, não só posso, como devo julgar (que não é condenar) o outro. Julgar é neste sentido avaliar, pesar, procurar a justa medida que guie a nossa conduta. Dizer que aquilo que ele faz é com ele, é uma perversão do respeito para com o outro e é aquilo que conduz à indiferença. Dizer que os costumes, os valores, do outro (Ex: Saddam, Fidel, Bush, etc) têm que ser compreendidos dentro dos seu próprio sistema de valores e que estes são relativos, é normalmente uma desculpa para nada fazer e transferir a culpa para o relativismo e isto é o Mal, o nosso Mal.
O mal dos outros, são os assassínios, as prisões, as torturas, as perseguições, ou mais silenciosa, mais fatal, a fome ou a doença. Veja-se África, qualquer (mas mesmo qualquer) país. Isto é o mal e o mal somos nós. Os que fazemos e os que calamos... Por isto temos, não em nome do Bem ou do Mal, mas simplesmente da HUMANIDADE, o direito de julgar, avaliar, pesar, procurar a justa medida que guie a nossa conduta. Julgar para agir...
3(escrevi eu)" Em princípio, ninguém teria o direito de julgar ninguém, pelo menos neste mundo. Mas em termos sociais, a não-condenação coincidiria com uma total ausência de valores, e portanto a anarquia. O problema é o do relativismo de valores: se eu faço o que reconheço ser o Bem noutro lugar que pratica um diferente sistema de valores (e que portanto para a mesma acção reconhece como o Mal), é justo que seja condenado ?"
É.
Será justo que condenemos uma mulher que, em África, com um caco de garrafa de vidro faz uma excisão do clítoris à própria filha ou a qualquer mulher? E se for em Portugal (recentemente vieram a público casos destes no nosso país)? A cultura e os valores pessoais são semelhantes. Poderemos nós que temos uma cultura diferente calar o que será uma injustiça e um atentado aos direitos humanos, ainda que os próprios envolvidos o aceitem?
Podemos.
O relativismo é acusado de todos os malefícios morais. Mas será ele uma causa ou uma consequência? Do relativismo se diz que conduz à ausência de valores. Mas não será antes ele que nos leva à percepção e à afirmação desses valores?
Dizer que não há valores, quer dizer, em rigor, que os valores dos outros não são os nossos... E esse é que é o nosso problema.
Seria muito simpático, muito cómodo, seriamos todos (mais?) felizes(?) se houvesse uma unidade de valores, se todos pudéssemos entender do que falamos, se o Mal e o Bem fossem claramente identificáveis. Até há não muitos anos (os nossos pais e avós são contemporâneos dessa época) a Igreja, a Escola, o Governo, os Pais, eram os guardiães da moral (e da fé) e tudo estava certo, porque todos sabiam qual era o seu lugar: os pais mandavam porque eram pais, os professores mandavam porque educavam, a Igreja era a referência dos bons costumes, o Governo governava. Tudo simples, tranquilo e ninguém, mas ninguém precisava de psicanálise.
Depois, tudo se complicou. Só um exemplo: As mulheres começaram a exigir direitos e, pior que isso, que tinham os mesmos direitos dos homens. Passaram a votar, fumar, a andar de calças, a ir aos cafés etc.
Tomando o exemplo do nosso país, há quanto tempo têm as mulheres direito ao voto? Há quanto tempo têm as mulheres os mesmos direitos (legais) que os homens? Ora quando mais de metade da população mundial começa no século XX a ter direito à igualdade, não é isto um enorme salto qualitativo no que respeita a valores? Ou será que quando a mulher não tinha alma (até 1821?), quando filhos, filhas, mulher podiam ser vendidos, quando ainda no século XX a escravatura era legal, os valores eram mais firmes? Só por desatenção se pode dizer que hoje não há valores. Nunca tantas pessoas afirmaram os direitos da humanidade em nome dessa mesma humanidade. Ainda que pequeno exemplo, o enorme movimento de solidariedade com as mulheres que iam ser lapidadas na Nigéria, salvou-as, ou pelo menos adiou algo e chamou a atenção de mais gente para o que se passa por esse mundo fora.
O relativismo é apenas a consequência de mais gente falar, reivindicar, exigir ter a sua própria voz. Esse é o único caminho para a humanidade. A seu tempo, tudo se ajustará, ainda que nós já cá não estejamos.
O relativismo, volto a dizê-lo, não é problema. Problema é a nossa vontade de desresponsabilização que o invoca para não agir.
"1) O traidor sente a culpa ?
Mas quem é que o traidor trai? O outro ou a si mesmo?
Trair, não implicará a consciência da traição? Se essa consciência não existir, haverá traição?
Vamos supor que existe consciência.
Se ajo em função dos meus princípios, posso falar de traição? Ou traição seria antes agir contra os meus princípios, traindo-me a mim mesmo?
Se os meus princípios me mandam agir da maneira "A" e não da "B" (que é aquela que todos os que me rodeiam esperam) estarei a trair os outros? Na perspectiva do respeito pelos meus princípios não, na perspectiva do(s) outro(s) sim. Então será que podemos falar de traição? Ou resolvemos a questão (fugindo dela) dizendo que é tudo relativo, que o relativismo destroi os valores, etc.
Voltando aos meus princípios. Será que, sendo eu uma pessoa de princípios, não está neles incluído o respeito pelo outro? E se está, como posso eu agir de acordo com um princípio e ao mesmo tempo violar outro? Esta questão remete-nos para uma hierarquia de valores (ou princípios), onde o mais elevado se sobrepõe ao mais baixo. Nos nossos actos quotidianos, concretos, esta hierarquia está sempre presente, ainda que não explícita. Se ajo da maneira "A" de acordo com o princípio mais elevado, não estou a trair... ainda que os outros se possam sentir traídos. Porquê, então a culpa? Porque o nosso horizonte de pré-compreensão (judaico-cristão), anterior à reflexão, nos diz que sim? Haverá uma "incompatibilidade" entre esse horizonte de pré-compreensão e o resultado do pensamento reflexivo? Será o peso da "tradição" assim tão "pesado" que se sobreponha a qualquer reflexão e nos transporte para uma culpa irremissível (porque também nunca poderemos aceitar o peso da traição a nós próprios)? Então, sim, verdadeiramente o Bem e o Mal existem (como algo com uma consistência própria). Ou talvez melhor: O Bem não existe, apenas o Mal... Porque, agindo da maneira "A" ou da "B", estaremos sempre a trair alguém... Porque o Mal é ser incapaz de seguir os resultados da própria reflexão que busca, sem cessar, sem limites, a sua fundamentação. Ainda há dias o "Animal" dizia uma frase muito usada: "sou ateu, graças a Deus".
Seremos ateus, mas incapazes de ultrapassar esse horizonte de pré-compreensão. E quando isso parece acontecer, deparamo-nos com a angústia de sermos os únicos responsáveis pelos nossos actos. Irremediavelmente "condenados à liberdade", que faremos com ela? Voltamos atrás, esquecêmo-la, ou assumimos a condição de ser humanos e aceitamos a dor (o mal?) de sermos os autores do nosso próprio sentido?
Voltando um pouco atrás, todo o conjunto de valores (ou princípios) possui uma hierarquia e tal não é problema. Problema seria não existir (o que é uma impossibilidade prática). Problema realmente grave, que conduz ao "mau nome" do relativismo, é alterar essa hierarquia de acordo com os interesses do momento, o que revela a solubilidade do carácter e nada tem a ver com o relativismo.
2) Devem alguns homens condenar um homem, ainda que o façam em nome do Bem e do Mal ?
Não direi que o devem condenar (e não tem nada a ver com o direito de condenar ou não os outros...) mas direi que o podem e devem julgar.
Existir, é estar aí para o outro. O outro é indispensável para que eu me reconheça, para a minha própria identidade, Há um laço impossível de ignorar, que me liga ao outro, e que possibilita que eu seja. Isto que dizer que eu não posso, nunca, ignorar o outro, porque aquilo que ele faz e é, afecta-me. Portanto, não só posso, como devo julgar (que não é condenar) o outro. Julgar é neste sentido avaliar, pesar, procurar a justa medida que guie a nossa conduta. Dizer que aquilo que ele faz é com ele, é uma perversão do respeito para com o outro e é aquilo que conduz à indiferença. Dizer que os costumes, os valores, do outro (Ex: Saddam, Fidel, Bush, etc) têm que ser compreendidos dentro dos seu próprio sistema de valores e que estes são relativos, é normalmente uma desculpa para nada fazer e transferir a culpa para o relativismo e isto é o Mal, o nosso Mal.
O mal dos outros, são os assassínios, as prisões, as torturas, as perseguições, ou mais silenciosa, mais fatal, a fome ou a doença. Veja-se África, qualquer (mas mesmo qualquer) país. Isto é o mal e o mal somos nós. Os que fazemos e os que calamos... Por isto temos, não em nome do Bem ou do Mal, mas simplesmente da HUMANIDADE, o direito de julgar, avaliar, pesar, procurar a justa medida que guie a nossa conduta. Julgar para agir...
3(escrevi eu)" Em princípio, ninguém teria o direito de julgar ninguém, pelo menos neste mundo. Mas em termos sociais, a não-condenação coincidiria com uma total ausência de valores, e portanto a anarquia. O problema é o do relativismo de valores: se eu faço o que reconheço ser o Bem noutro lugar que pratica um diferente sistema de valores (e que portanto para a mesma acção reconhece como o Mal), é justo que seja condenado ?"
É.
Será justo que condenemos uma mulher que, em África, com um caco de garrafa de vidro faz uma excisão do clítoris à própria filha ou a qualquer mulher? E se for em Portugal (recentemente vieram a público casos destes no nosso país)? A cultura e os valores pessoais são semelhantes. Poderemos nós que temos uma cultura diferente calar o que será uma injustiça e um atentado aos direitos humanos, ainda que os próprios envolvidos o aceitem?
Podemos.
O relativismo é acusado de todos os malefícios morais. Mas será ele uma causa ou uma consequência? Do relativismo se diz que conduz à ausência de valores. Mas não será antes ele que nos leva à percepção e à afirmação desses valores?
Dizer que não há valores, quer dizer, em rigor, que os valores dos outros não são os nossos... E esse é que é o nosso problema.
Seria muito simpático, muito cómodo, seriamos todos (mais?) felizes(?) se houvesse uma unidade de valores, se todos pudéssemos entender do que falamos, se o Mal e o Bem fossem claramente identificáveis. Até há não muitos anos (os nossos pais e avós são contemporâneos dessa época) a Igreja, a Escola, o Governo, os Pais, eram os guardiães da moral (e da fé) e tudo estava certo, porque todos sabiam qual era o seu lugar: os pais mandavam porque eram pais, os professores mandavam porque educavam, a Igreja era a referência dos bons costumes, o Governo governava. Tudo simples, tranquilo e ninguém, mas ninguém precisava de psicanálise.
Depois, tudo se complicou. Só um exemplo: As mulheres começaram a exigir direitos e, pior que isso, que tinham os mesmos direitos dos homens. Passaram a votar, fumar, a andar de calças, a ir aos cafés etc.
Tomando o exemplo do nosso país, há quanto tempo têm as mulheres direito ao voto? Há quanto tempo têm as mulheres os mesmos direitos (legais) que os homens? Ora quando mais de metade da população mundial começa no século XX a ter direito à igualdade, não é isto um enorme salto qualitativo no que respeita a valores? Ou será que quando a mulher não tinha alma (até 1821?), quando filhos, filhas, mulher podiam ser vendidos, quando ainda no século XX a escravatura era legal, os valores eram mais firmes? Só por desatenção se pode dizer que hoje não há valores. Nunca tantas pessoas afirmaram os direitos da humanidade em nome dessa mesma humanidade. Ainda que pequeno exemplo, o enorme movimento de solidariedade com as mulheres que iam ser lapidadas na Nigéria, salvou-as, ou pelo menos adiou algo e chamou a atenção de mais gente para o que se passa por esse mundo fora.
O relativismo é apenas a consequência de mais gente falar, reivindicar, exigir ter a sua própria voz. Esse é o único caminho para a humanidade. A seu tempo, tudo se ajustará, ainda que nós já cá não estejamos.
O relativismo, volto a dizê-lo, não é problema. Problema é a nossa vontade de desresponsabilização que o invoca para não agir.
quinta-feira, julho 31, 2003
UMA LEMBRANÇA, UM POEMA
QUE MAL PODEM AS PALAVRAS
Uma alegria profunda nos protege
quero dizer obscura, quero dizer
silenciosa.Sim, sabemos tantos modos
de imitar o fim da pouca vida
que sobra sempre a matéria dos desertos
para errar os amores novos.Que mal
podem as palavras saber de ti.
António Manuel Azevedo
QUE MAL PODEM AS PALAVRAS
Uma alegria profunda nos protege
quero dizer obscura, quero dizer
silenciosa.Sim, sabemos tantos modos
de imitar o fim da pouca vida
que sobra sempre a matéria dos desertos
para errar os amores novos.Que mal
podem as palavras saber de ti.
António Manuel Azevedo
quarta-feira, julho 30, 2003
SER CONSERVADOR: ESTÉTICA OU POLITICA Como disse em post anterior, um dos temas actualmente em voga na blogolândia é o conservadorismo e a sua essência. Para isso muito contribuiram os excelentes textos da Clara Macedo Cabral sobre o assunto e mais recentemente a aparição de mais um estimulante blogue: o Caminhos Errantes, da responsabilidade de Alexandre Franco Sá (que de resto descobri a conselho da própria Clara). Há ali muita matéria para pensar e, embora discordando da maior parte das suas afirmações (mais tarde tentarei ripostar), reconheço que tem os argumentos mais bem fundamentados que até agora por aqui apareceram. Assim sim.
É SÓ MAIS UM MINUTO Devido a uma agenda delirante, um calor colonial e outros humores adversos, não tenho conseguido colocar a escrita em dia. Mas prometo que em breve ? tipo amanhã ? a coisa melhora. Os temas previstos são os ideais para a época que atravessamos: o Bem e o Mal (há muita e boa correspondência que convém ser publicada) , o que é ser conservador e outras temáticas leves e estivais. O resto serão os habituais rasgões dos dias, a poesia possível.
segunda-feira, julho 28, 2003
INTERMEZZO DE VERÃO 2 Chamaria também a atenção dos meus amigos para outro blogue que me tem dado imenso prazer: o Tomara Que Caia. Humores e amores femininos à deriva e à solta. Brilhante, digo eu.
INTERMEZZO DE VERÃO Apenas para agradecer a menção do Alexandre Andrade, que me coloca no seu top ten de leitura, num honroso 8º lugar (logo atrás do humor negro e jacobino d' O Crime do Padre Amaro). O blog do Alexandre- umblogsobrekelist - é dos melhores da blogosfera. Agradeço, sinceramente.
A TRAIÇÃO ? AJUDAS AO DEBATE 1 A propósito da traição, e das questões que ficaram por discutir, a Sara, minha estimada colega, abre as hostilidades com o seguinte mail:
"Aqui seguem as minhas dúvidas, surgidas (a quente) da leitura do teu post sobre a traição:
1)O traidor sente a culpa (obsessiva, dirias tu)?
2)Devem alguns homens condenar um homem, ainda que o façam em nome do Bem e do Mal (valores que ao contrário do que advogava o outro, existem sim senhor -e ainda bem que sim)?
3)A Sarah foi justa (se houve justiça no seu acto) só porque cumpriu o contrato que tinha feito? De que lhe valeu a ela ter feito o que fez ? (já sei, vais dizer que foi sublime?)"
Bom, vou fazer o que posso. O Tiago já respondeu, em parte, a estas questões nos seus posts. Em principio, o traidor sentirá sempre culpa - atraiçoar é um abandono violento e amargurado de principios ou sentimentos que em determinada altura se acreditou. Em termos ocidentais (judaico-cristãos), a culpa é mesmo inevitável, e como bem diz o Tiago outra vez, o caminho para a Salvação. Se é obsessiva, suponho que isso dependa do traidor. Mas que pelo menos é inapagável, isso tenho a certeza. Outra perspectiva interessante será a do traído. Mas isso é outra história, que como sabemos, Sara, já foi filmada por Wong-Kar Wai .
2) Em principio, ninguém teria o direito de julgar ninguém, pelo menos neste mundo. Mas em termos sociais, a não-condenação coincidiria com uma total ausência de valores, e portanto a anarquia. O problema é o do relativismo de valores: se eu faço o que reconheço ser o Bem noutro lugar que pratica um diferente sistema de valores (e que portanto para a mesma acção reconhece como o Mal), é justo que seja condenado ?
3) A Sarah que a Sara se refere é a personagem feminina do The End Of The Affair, livro maior de Greene. Por amor, esta pecadora voluntária, - uma adúltera que se aproxima da santidade no universo greeniano - pede a Deus que devolva a vida ao seu amante; em troca, promete nunca mais o ver ? e assim renunciar ao seu amor terreno e, ao mesmo tempo, a um pecado. A partir daí, e perante a incompreensão do amante, que nunca soube desta promessa, Sarah tudo faz para tentar odiar o Deus a quem se entregou. Se lhe valeu alguma coisa? Não neste mundo. E sim, querida Sara, foi um gesto sublime.
"Aqui seguem as minhas dúvidas, surgidas (a quente) da leitura do teu post sobre a traição:
1)O traidor sente a culpa (obsessiva, dirias tu)?
2)Devem alguns homens condenar um homem, ainda que o façam em nome do Bem e do Mal (valores que ao contrário do que advogava o outro, existem sim senhor -e ainda bem que sim)?
3)A Sarah foi justa (se houve justiça no seu acto) só porque cumpriu o contrato que tinha feito? De que lhe valeu a ela ter feito o que fez ? (já sei, vais dizer que foi sublime?)"
Bom, vou fazer o que posso. O Tiago já respondeu, em parte, a estas questões nos seus posts. Em principio, o traidor sentirá sempre culpa - atraiçoar é um abandono violento e amargurado de principios ou sentimentos que em determinada altura se acreditou. Em termos ocidentais (judaico-cristãos), a culpa é mesmo inevitável, e como bem diz o Tiago outra vez, o caminho para a Salvação. Se é obsessiva, suponho que isso dependa do traidor. Mas que pelo menos é inapagável, isso tenho a certeza. Outra perspectiva interessante será a do traído. Mas isso é outra história, que como sabemos, Sara, já foi filmada por Wong-Kar Wai .
2) Em principio, ninguém teria o direito de julgar ninguém, pelo menos neste mundo. Mas em termos sociais, a não-condenação coincidiria com uma total ausência de valores, e portanto a anarquia. O problema é o do relativismo de valores: se eu faço o que reconheço ser o Bem noutro lugar que pratica um diferente sistema de valores (e que portanto para a mesma acção reconhece como o Mal), é justo que seja condenado ?
3) A Sarah que a Sara se refere é a personagem feminina do The End Of The Affair, livro maior de Greene. Por amor, esta pecadora voluntária, - uma adúltera que se aproxima da santidade no universo greeniano - pede a Deus que devolva a vida ao seu amante; em troca, promete nunca mais o ver ? e assim renunciar ao seu amor terreno e, ao mesmo tempo, a um pecado. A partir daí, e perante a incompreensão do amante, que nunca soube desta promessa, Sarah tudo faz para tentar odiar o Deus a quem se entregou. Se lhe valeu alguma coisa? Não neste mundo. E sim, querida Sara, foi um gesto sublime.
sexta-feira, julho 25, 2003
O BEM,O MAL, A TRAIÇÃO Estou bastante satisfeito com as contribuições que leitores e amigos (ou ambos) tiveram a amabilidade de me enviar sobre o tema da traição (ver post abaixo). Estou a ler os mails atentamente, para poder responder ou simplesmente extrair os melhores pedaços e descaradamente colocá-los aqui.
Entretanto, houve uma pessoa a quem eu pedi especificamente opinião: o Tiago, da Voz do Deserto. A sua resposta veio na prosa balsâmica do costume, brilhante, certeira e com humor. Um acepipe:
«Reverente perante a tradução II
O homem é um ser-para-a-condenação desde o Génesis. Por isso a sua Salvação não fala do seu talento pessoal mas do escandaloso perdão de Deus. O livre-arbítrio parece-me um eufemismo, um natal é sempre que o homem quer, uma trôpega conveniência social. Judas fez o que tinha a fazer. O mestre até o apressou na tarefa.
Este tipo de coisas não nos estão reveladas. Falemos do último disco da Carla Bruni.»
E há mais, muito mais. Leiam, que faz bem.
Entretanto, houve uma pessoa a quem eu pedi especificamente opinião: o Tiago, da Voz do Deserto. A sua resposta veio na prosa balsâmica do costume, brilhante, certeira e com humor. Um acepipe:
«Reverente perante a tradução II
O homem é um ser-para-a-condenação desde o Génesis. Por isso a sua Salvação não fala do seu talento pessoal mas do escandaloso perdão de Deus. O livre-arbítrio parece-me um eufemismo, um natal é sempre que o homem quer, uma trôpega conveniência social. Judas fez o que tinha a fazer. O mestre até o apressou na tarefa.
Este tipo de coisas não nos estão reveladas. Falemos do último disco da Carla Bruni.»
E há mais, muito mais. Leiam, que faz bem.
quarta-feira, julho 23, 2003
A TRAIÇÃO Terminou ontem, discretamente, a série Cambridge Spies, que foi transmitida na RTP2. Contava a história dos quatro agentes duplos britânicos que serviram a União Soviética até à década de 50: Anthony Blunt, Donald Maclean, Guy Burgess e Kim Philby. Quase todos acabaram os seus dias na velha URSS, menos Blunt, membro da família real, que foi denunciado só nos anos 80 pelo governo de Thatcher. Morreu na vergonha, depois de ver ser retirado o seu Knighthood.
A série em si era linear, gráfica e estritamente narrativa, vivendo muito dos actores (impressionante ver Anthony Andrews, o Sebastian Flyte de Brideshead Revisited, em plena decadência física) ; para um anglófilo inveterado como eu, a coisa foi gratificante, porque me transportou a Cambridge dos anos 30, civilizadissima na sua decadência, politizada pela geração de marxistas aristocratas como Auden ou os quatro protagonistas. Mas o seu maior intertesse residiu para mim num tema que me é obsessivo (ou não fosse eu "apóstolo" de Graham Greene): a traição. Como se trai um amor, um país, um sexo, uma ideia, Deus ? Parece-me que esta condição – esta possibilidade – é o pilar de um pensamento neo-cristão que partilho, e que foi sobretudo propagandeado por Eliot (e Greene depois, numa luta contra a ortodoxia): a sublime capacidade do Homem para a Condenação (teológica, cristã), versus o índividuo condenado à Salvação. Fazer o Bem ou o Mal é diferente ou superior a fazer o Certo ou o Errado ? Gostava de trocar impressões sobre o assunto. Contribuições para major_scobie@hotmail.com
A série em si era linear, gráfica e estritamente narrativa, vivendo muito dos actores (impressionante ver Anthony Andrews, o Sebastian Flyte de Brideshead Revisited, em plena decadência física) ; para um anglófilo inveterado como eu, a coisa foi gratificante, porque me transportou a Cambridge dos anos 30, civilizadissima na sua decadência, politizada pela geração de marxistas aristocratas como Auden ou os quatro protagonistas. Mas o seu maior intertesse residiu para mim num tema que me é obsessivo (ou não fosse eu "apóstolo" de Graham Greene): a traição. Como se trai um amor, um país, um sexo, uma ideia, Deus ? Parece-me que esta condição – esta possibilidade – é o pilar de um pensamento neo-cristão que partilho, e que foi sobretudo propagandeado por Eliot (e Greene depois, numa luta contra a ortodoxia): a sublime capacidade do Homem para a Condenação (teológica, cristã), versus o índividuo condenado à Salvação. Fazer o Bem ou o Mal é diferente ou superior a fazer o Certo ou o Errado ? Gostava de trocar impressões sobre o assunto. Contribuições para major_scobie@hotmail.com
THE SADDAM FAMILY Two down, one to go.
PRAZERES SOLITÁRIOS Alguém me perguntou, há coisa de minutos, se eu tinha visto determinado "reclame" na televisão. Acresce que o inquiridor não tem ainda 50 anos, e utilizou o vocábulo sem ironia. Às vezes sinto-me tão sózinho na apreciação destas palavras perdidas, modos que se foram.
PRAZERES SOLITÁRIOS Alguém me perguntou, há coisa de minutos, se eu tinha visto determinado "reclame" na televisão. Acresce que o inquiridor não tem ainda 50 anos, e utilizou o vocábulo sem ironia. Às vezes sinto-me tão sózinho na apreciação destas palavras perdidas, modos que se foram.
segunda-feira, julho 21, 2003
DO AMOR E DA AMIZADE; COMO UM LAMENTO "Digamos porque não se chama ao amor amizade. Entre as duas coisas há esta diferença: o amor é uma paixão que tem mais de desejo que de prazer; e a amizade é uma afeição reverente, ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer que de desejo. O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si"
D.Francisco de Portugal, Arte da Galantaria (sec.XVII)
D.Francisco de Portugal, Arte da Galantaria (sec.XVII)
DEVE BLAIR DEMITIR-SE ? Simpatizo mais com Tories do que com o New Labour. Mas Blair já provou ser um estadista com dimensão, e à direita as alternativas são incipientes. Por isso, e apesar do embaraço, a resposta é "não". Uma opinião melhor e mais exaustiva do que esta pode ser lida com proveito aqui.
IMPRESSÕES DE VIGO Longa estrada. Os rostos cansados e maçados de todos os homens que acompanhavam mulheres e namoradas numa loja de lingerie feminina. A Estrella Galicia fresca, ao fim da tarde. O concerto do Rodrigo, composto. Os músicos em palco, felizes. A violinista Viviana Toupikova, que num impulso não resiste a levantar-se durante a versão vocal de Pasión. O Luís San Payo, que aproveita os seus dois tempos de pausa durante A Estrada para gritar o célebre "Nunca Mais!", frase de combate galega desde o Prestige. Não tinha avisado ninguém. Dois encores, a plateia de pé. O Rodrigo feliz, a encontrar-nos na assistência e a dizer-nos adeus, durante os agradecimentos. O Bar Chabola, tasca galega maravilhosa. O vinho nas malgas. A salada de polvo. A palavra de ordem da noite: Sokoino ("com calma", em russo), ensinada pela Viviana e com as naturais adaptações brejeiras. O San Payo a querer brindar de três em três minutos. A "Kournikova" a cantar o hino russo, já um pouco tocada. Os "orujos blancos", espécie de grappa potenciada ao nível do bagaço. Bebi três e fui feliz. O dono da Chabola, com quase 70 anos, a dizer que não devia haver fronteiras entre o Minho e a Galiza; a mostrar-me o retrato da familia real, assinado, e a confessar que "se não houvesse Rei, não havia Espanha". O bar La Iguana. Coisas que não posso contar. Estilhaços de amizade.

